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31 de julho de 2002
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Invasão na chaminé

Não era Papai Noel quem
estava tentando entrar em casa

Walcyr Carrasco


Um dos meus maiores desejos era acender a lareira. Tenho uma na chácara. Sou apaixonado pelo fogo. Pelas chamas tremulando. Pelas cores. A maior parte do ano tenho de me contentar em observar um resto de cinzas. Meses atrás, estava deitado no sofá, lendo um policial. Um dos meus vícios é gostar de mistério. O livro pode ser horrendo, mas vou até o fim, mesmo descobrindo na primeira página o final da história. Nessa noite, justamente quando o serial killer estava prestes a assassinar sua nova vítima em um mar de sangue, ouvi ruídos na chaminé.

– Será impressão? – disse para mim mesmo, sabendo perfeitamente que não era.

O barulho aumentou. Pareciam pés raspando no duto. Só Papai Noel tem o hábito desconfortável de entrar nas casas pelo telhado, e não pelas portas. Mania que, certamente, Freud explica. Estava longe do Natal. Que poderia ser? Um serial killer descendo pela chaminé, com um facão erguido? Por que se dar a tanto trabalho, se a casa estava inteiramente aberta? Bem, assassinos de romances e filmes americanos têm essas originalidades. Arrepiei-me. Um serial killer de Nova York estaria prestes a pular dentro de minha sala? A troco de quê? Os ruídos aumentaram ainda mais. Corri chamar o caseiro. Quando veio, expliquei o mais calmamente possível:

– Há alguém na chaminé. Entre na lareira e veja quem é.

Por que ele e não eu? Pelo simples motivo de que ele é ele e eu sou eu! Horrorizado, arriscou:

– E se for o conde Drácula, acordando, agora que escureceu?

Refleti. Que mau gosto! Se eu fosse um vampiro, encontraria acomodação melhor. Um túmulo bem quentinho. Ou o cofre de um banco com cédulas confortáveis para deitar em cima! Mano, o caseiro, resolveu acender a lareira.

– Seja o que for, a gente espanta com fogo e fumaça.

Meu sonho de contemplar as chamas finalmente realizado? Não exatamente. Era uma noite de verão. Mal a lenha começou a queimar, meu cérebro já estava derretendo. Segundos depois, um bando de morcegos saiu voando da chaminé. Bateram as asas que nem loucos pela sala. Eu e o caseiro corremos, enquanto os morcegos tentavam fugir das lâmpadas. Era óbvio. A chaminé se transformara no lar dos voadores!

– Viu só? Não era o Drácula. Só seus filhos! – comentei.

No dia seguinte, fiscalizei o caseiro enquanto ele despejava os restantes. Minha amiga Lalá reclamou:

– É um absurdo. Os morcegos são fundamentais para o equilíbrio ecológico.

– Por isso não. Boto todos em uma gaiola e mando para sua casa – ofereci.

Ela silenciou, estrategicamente.

Nas últimas semanas, afinal, esfriou! Voei para a chácara. No caminho, comprei um saco de lenha.

– Acenda a lareira, Mano! – ordenei ao caseiro.

Deitei-me, pronto para desfrutar o calor. A sala ficou cheia de fumaça.

– É lenha verde! – explicou ele – Não queima, só...

– ...faz fumaça! – completei tossindo, enquanto corria para a varanda.

O pobre Mano ficou abanando a sala. Duas noites depois, encontramos lenha seca. Convidei uns amigos.

– Vamos tomar um vinho diante da lareira.

Sentamos. O fiel Mano botou fogo. As chamas se elevaram, majestosas.

Imediatamente, ouvi... piu piu!

– Morcegos de novo? Mas morcego pia?

Um bando de andorinhas voou para dentro da sala. Tinham tomado posse da chaminé, que devia estar obstruída no alto! Uma delas queimou algumas penas no fogo e caiu. Minha amiga Vera gritou:

– Salvem, salvem! Apaguem o fogo!

Pegou a andorinha na mão. Gorjeou, para fazer amizade. A pobre ave parecia mais aterrorizada. Atravessar as chamas e ainda ter de ouvir uma mulher daquele tamanho piando devia ser demais.

– Como você pode acender a lareira com as andorinhas dentro? – brigou Vera.

– Mas eu... eu... – quis argumentar.

Pegou o marido pelo braço e partiu com a andorinha. Soube que está sendo tratada melhor que um beija-flor. Já foi ao veterinário. Acabará em um cabeleireiro para arrumar as penas queimadas. Quem sabe vai botar peruca!

Quanto à lareira, desisti. Continuo olhando as cinzas. Leio romances policiais e ouço ruídos aterrorizantes. Minha chaminé foi invadida outra vez. O que pode sair voando se eu acender de novo? Um Pterodactylus kochi? Melhor não saber. Que vença a vida natural.

         
     
 
 
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