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NEGÓCIOS Como
se dar bem nos leilões Todos os meses são
realizados cerca de 350 pregões em São Paulo. Pode-se comprar
quase tudo de bugigangas a imóveis por preços
até 50% menores que os de mercado. Mas é preciso abrir o
olho e ficar atento aos riscos Sandra Soares
Renata Ursaia  |
| Leilão de cavalos promovido pelo publicitário Eduardo
Fischer: convites esgotados |
O casal de comerciantes Luiz
Castilho e Márcia Cassiano tem um sonho inusitado. Eles querem dormir na
cama do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira. "Vimos na TV, é uma peça
de muito bom gosto", diz Márcia. "Se seus bens pessoais forem a leilão,
tentaremos comprá-la." Márcia e o marido são freqüentadores
de leilões há vinte anos. Vão a pelo menos três, todos
os meses. Em um deles, arremataram por 100 reais um conjunto de 150 porcelanas
do falido Banco Santos. Edemar, o antigo dono do banco, ainda está ameaçado
de perder sua deslumbrante mansão na Cidade Jardim, com tudo dentro, para
pagar dívidas da bancarrota. "O bacana de ir aos pregões é
conseguir peças assim, com história", afirma Castilho. "Dá
para comprar o mesmo que em feiras de antiguidades e de usados, mas com preços
melhores." Castilho e Márcia mobiliaram sua chácara de 700 metros
quadrados, em Bragança Paulista, com peças garimpadas em leilões.
Usam jóias compradas em eventos do gênero e decidiram colecionar
carros antigos depois que arremataram um Fusca 1972 por 1 000 reais. "Já
trouxemos de um pregão um estoque de 200 caixinhas de massa de modelar
para o nosso filho de 10 anos", conta Márcia.
Gladstone Campos  |
| Pregão de imóveis: preços mais baixos e melhores condições
de pagamento atraem compradores | De
sucata e quinquilharias a casarões e automóveis de luxo, vende-se
de tudo nos leilões. Quando uma empresa fecha as portas ou decide redecorar
suas instalações, por exemplo, pode se desfazer pelo melhor lance
do mobiliário, dos equipamentos ou dos produtos de seu estoque. O mesmo
acontece quando uma loja troca seu mostruário (geladeiras e TVs praticamente
novas são vendidas a preço de fábrica). Imóveis e
automóveis entregues a bancos e financeiras por pessoas que não
conseguiram honrar suas dívidas também vão a leilão
(veja outros exemplos).
Segundo a Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), na capital paulista
são realizados cerca de 350 pregões por mês. Informar-se das
datas não é tão difícil: a lei determina que elas
sejam anunciadas pelo menos três vezes em jornais de grande circulação.
A Jucesp rege e fiscaliza o trabalho dos 300 leiloeiros oficiais do estado (218
na capital). Cabe a esses profissionais intermediar transações entre
vendedores e compradores. Por esse serviço, ganham 5% sobre o valor do
arremate, pagos pelo comprador. Para quem quer vender um produto, a vantagem de
levá-lo a leilão é a rapidez de fechar negócio. Já
para quem compra o grande atrativo é o preço. Há lotes
assim são chamados os bens ou o conjunto de mercadorias oferecidos
que saem por até 50% de seu valor de mercado.
Que o diga o supervisor de vendas Cristiano
Dias, de 27 anos. Mesmo sem ter dinheiro no banco, ele arrematou em 2001 um apartamento
de 72 metros quadrados no Ipiranga. Desembolsou 54 000 reais pelo imóvel,
cujo preço de mercado na época era de 90 000 reais. Pôde pagar
80% desse valor em 48 prestações. Para arcar com a entrada e a comissão
do leiloeiro, vendeu o carro. "Eu tinha acabado de me formar em publicidade",
lembra. "Não fosse nessas condições, não teria comprado
um apartamento."
Gladstone Campos  |
| Os comerciantes Márcia e Castilho: sonho de arrematar
a cama de Edemar Cid Ferreira | Imóveis,
carros, equipamentos industriais e obras de arte são os bens leiloados
com maior freqüência. Nos últimos tempos, os leilões
rurais tornaram-se cada vez mais comuns. Acontecem na cidade pelo menos cinqüenta
pregões de cavalos e gado por mês, de acordo com a Federação
de Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp). Criar animais de raça
virou moda entre celebridades como a apresentadora Ana Maria Braga e o locutor
esportivo Galvão Bueno. Os pregões de animais com pedigree são
megaproduções e rendem notas nas colunas sociais. No sétimo
leilão do Haras Villa do Retiro, do publicitário Eduardo Fischer,
o preço médio de venda dos cavalos foi de 47 500 reais. Realizado
no fim de março na Hípica Paulista, o evento contou com coquetel,
jantar e apresentação de uma orquestra. Atraiu tanta gente (600
pessoas) que as mesas se esgotaram. O anfitrião teve de colocar cadeiras
extras na lateral do salão e cobrar pelo ingresso de não-convidados.
"Foi uma maneira de controlar a freqüência", diz Fischer. "Revertemos
a renda para uma instituição de caridade."
Gladstone Campos  |
| O colecionador de arte Benemar Guimarães: todo cuidado
é pouco com as falsificações | Como os
leilões rurais, os de arte e de antiguidades costumam ser marcados pela
sobriedade. Mas não se pode dizer o mesmo dos demais. Em boa parte deles
o clima é de programa de auditório. Os interessados normalmente
lotam a platéia e se acomodam em cadeiras pouco confortáveis. Em
alguns casos, a narração do leiloeiro, de tão rápida
e agitada, faz lembrar os locutores de futebol ou de rodeio. As vendas organizadas
por Luiz Fernando Santoro, o mais forte no mercado de automóveis, chegam
a reunir 1 200 pessoas. Boa parte delas são compradores profissionais,
que arrematam os lotes para revendê-los. "Setenta por cento de nosso público
tem esse perfil", afirma o leiloeiro, que comercializa 5 000 veículos por
mês. Principalmente nos eventos menos concorridos, os chamados ratos de
leilão fazem conchavos para estabelecer os preços. Combinam entre
si quem vai arrematar o lote, por quanto, e depois dividem as mercadorias e o
pagamento. "Durante muito tempo isso afastou as pessoas comuns desse negócio",
explica o leiloeiro Rodrigo Santoro, da Superbid, empresa que criou um mecanismo
para evitar a ação desse tipo de cartel. Os leilões realizados
ali acontecem simultaneamente pela internet. Um telão permite ao público
presente acompanhar os lances virtuais. No ano passado, 20 000 pessoas de todo
o país se cadastraram para dar lances no leilão do espólio
do Banco Santos. Antes de se aventurar num pregão,
recomenda-se comparecer a alguns eventos como espectador. Quando a disputa esquenta
e os lances aumentam com rapidez, é muito fácil fazer uma oferta
sem refletir. "Tem horas em que a competição domina", conta o leiloeiro
Mauro Zukerman, um ex-apresentador de TV acostumado a dominar platéias.
"Vi gente pagar por um produto mais do que ele vale." Os leiloeiros sabem estimular
a disputa. Depois das três marteladas, o negócio está fechado.
Não dá para voltar atrás. Por isso, ler com atenção
as regras e condições de pagamento impressas no catálogo
é essencial. Vistoriar com cuidado os lotes, também afinal,
eles serão entregues no estado em que se encontram e sem garantia.
Fernando Moraes  |
| O supervisor de vendas Cristiano Dias: apartamento próprio
aos 22 anos | No caso das obras de arte,
nem sempre a vistoria adianta. O colecionador de arte Benemar Guimarães
garante que comprou sete falsificações nos últimos três
anos, duas delas em leilões. "A mais cara custou 42 000 reais", diz ele.
A tela em questão era uma natureza-morta do pintor paulista Aldo Bonadei,
datada de 1946. Uma análise da tinta mostrou que havia sido pintada nos
anos 70. "Consegui recuperar o dinheiro todas as vezes", afirma Guimarães.
"Tenho certeza de que os leiloeiros foram enganados."
Para encontrar um bom leiloeiro, o caminho é informar-se com quem freqüenta
pregões. "Alguém vai ao médico sem pedir referências?",
pergunta Aloisio Cravo, um dos mais conhecidos do mercado de arte paulista. "Deve-se
fazer o mesmo nesse meio." Não faltam histórias sobre leiloeiros
que simulam falsos lances ou fingem que uma obra pela qual ninguém se interessou
foi vendida por um valor astronômico, para apresentá-la novamente,
em outro evento, com um lance inicial alto. O melhor conselho que os conhecedores
do mercado podem dar é abrir o olho. Sinta o clima, segure a ansiedade,
mantenha a calma, espere a boa oportunidade aparecer. Sem ficar atento, até
mesmo compradores experientes se enganam. O habitué Luiz Castilho está
às voltas com um problema: desvencilhar-se de um lote de 100 foices que
arrematou por engano. "Ouvi o anúncio de cortadores de grama e pensei que
fosse uma única máquina", lamenta ele. O jeito é tentar revender
o lote. Em um leilão, claro.
| Faça o lance certo Como
funcionam os diversos tipos de pregão e dicas para não se arrepender
na hora de fechar negócio Arte
Gladstone Campos  |
As principais casas de leilão realizam apenas
três ou quatro eventos por ano. Entre um e outro, os leiloeiros reúnem
obras, checam sua autenticidade e definem sua cotação no mercado.
O catálogo do leilão geralmente traz o lance inicial para cada peça.
Alguns leiloeiros colocam à direita desse valor uma segunda cifra, que
indica a variação prevista para a disputa. Três ou quatro
dias antes do pregão, as obras são expostas para os interessados.
Fique atento!
A oportunidade de adquirir uma obra única pode tornar emocionante (e perigosa)
a disputa nos leilões de arte. Por isso mesmo é importante estabelecer,
antes de os lances começarem, o valor máximo que se pretende pagar
por um determinado lote. Muita gente se entusiasma e acaba gastando mais do que
se propunha inicialmente. Dependendo da peça em vista, é recomendável
contratar a assessoria de um marchand para garantir sua autenticidade e verificar
se vale o investimento. Imóveis
São organizados por imobiliárias ou por instituições
financeiras que comercializam imóveis entregues como pagamento de dívida.
A compra pode ser parcelada em até sessenta vezes, geralmente com entrada
de 20%. Não é preciso comprovar renda. Os lotes ficam disponíveis
para visitação no mínimo dez dias antes do pregão.
No catálogo é informado se o imóvel está desocupado,
se o IPTU foi quitado e se há dívidas de taxa de condomínio.
Fique atento! Para
saber o valor de mercado do imóvel pelo qual se interessou consulte imobiliárias
do bairro, o síndico ou o porteiro. Vistorie suas instalações
hidráulicas e elétricas e faça uma previsão dos gastos
com eventuais reformas. A desocupação de um imóvel habitado
(quando quem não conseguiu pagar o financiamento ao banco se recusa a deixá-lo,
ou se tem inquilino) é de responsabilidade do comprador. Antes de arrematar
um lote nessas condições, consulte um advogado para saber o tamanho
do problema. Rurais
Os leilões de cavalo e gado de raça são
superproduções com direito a jantares e shows. Por isso, muitas
vezes atraem gente que não está interessada nos animais e sim na
badalação. Alguns promotores cobram ingresso. Para os criadores,
leilões são a oportunidade de adquirir animais cuja árvore
genealógica ou o desempenho em competições impressiona. O
sêmen de garanhões célebres é sempre muito disputado.
Uma ou duas semanas antes do pregão os compradores podem visitar os animais.
Alguns leiloeiros promovem ainda desfiles e apresentações dos lotes
dias antes do evento. Fique atento!
O catálogo do leilão deve informar as condições
de saúde dos animais. Alguns criadores disponibilizam no site de seu haras
até mesmo radiografias. Por causa do preço dos lotes a compra costuma
ser parcelada. O valor do lance informado pelo leiloeiro é sempre referente
a uma única prestação, ou seja, é preciso multiplicá-lo
pelo número de parcelas previstas nas regras do leilão. Geralmente
um painel apresenta os resultados dessa conta.
Automóveis
É possível adquirir desde carros
zero-quilômetro provenientes, por exemplo, de caminhões-cegonha
acidentados, cujas cargas foram pagas pelo seguro até lotes que
são pura sucata. Os automóveis pertencem a bancos (são produto
de financiamentos que não foram quitados), seguradoras (veículos
envolvidos em sinistros ou roubo) ou empresas que decidem renovar sua frota. O
catálogo deve informar se o veículo tem defeitos mecânicos,
multas pendentes e IPVA quitado. Pode-se vistoriá-lo, mas às vezes
apenas três ou quatro horas antes do pregão. Apesar de nem sempre
ser possível ligar o carro, os leiloeiros geralmente informam o estado
do câmbio e do motor. Fique atento!
Os automóveis são vendidos na condição
em que se encontram e sem nenhum tipo de garantia. Por isso, se fechar o negócio
e encontrar um defeito que o catálogo não mencionava, apresente
a reclamação antes de deixar o local. Há quem vá ao
pregão acompanhado de um mecânico e teste o carro no ato da compra,
já que depois da retirada fica mais difícil provar que havia problema.
É comum que os melhores lotes sejam guardados para o fim do leilão,
justamente para estimular a permanência dos compradores.
Materiais e equipamentos
Muitas empresas que decidem fechar as portas ou
trocar o mobiliário, equipamentos de informática e eletroeletrônicos
levam seus materiais usados a leilão. Nesse tipo de pregão se vende
de tudo, de badulaques de escritório e peças de decoração
a aparelhos de ar-condicionado e computadores de último tipo. É
comum encontrar também produtos do mostruário de lojas, como TVs
expostas em hipermercados. As casas leiloeiras indicam onde as mercadorias podem
ser vistoriadas e a procedência delas. No geral, não se pode testar
os equipamentos. Os bens são vendidos no estado em que se encontram, em
lotes que costumam reunir grande quantidade de produtos. Fique
atento! Em alguns casos os lotes combinam várias
unidades do mesmo tipo de equipamento ou mercadoria. Por isso, é comum
que grupos se organizem para arrematar o conjunto, que depois é dividido
entre os participantes. Como não há garantia, preste atenção
à descrição, no catálogo, de seu estado e condições
de funcionamento. Receita
Federal
Perfumes, cosméticos, bebidas,
eletroeletrônicos, motocicletas e até automóveis importados
apreendidos nas alfândegas ou em blitze entram nesses leilões. Os
de cargas, direcionados para pessoas jurídicas, são mais freqüentes:
neste ano estão previstos seis. Já os pregões para pessoas
físicas serão apenas dois, em julho e outubro, ainda sem data definida.
Nesse caso, os lotes reúnem um menor número de produtos, de diferentes
tipos (por exemplo: um videogame, uma calculadora, doze garrafas de vodca e três
frascos de perfume). Os editais informam o endereço onde as mercadorias
ficarão expostas. Eles são publicados no Diário Oficial e
no site www.receita.fazenda.gov.br.
Fique atento!
O pagamento dos bens arrematados deve ser efetuado em, no máximo, 48 horas
após o leilão. Normalmente deixa-se um cheque como garantia do negócio,
mas a liberação das mercadorias só é feita após
a compensação bancária. O comprador tem de arcar também
com os impostos estaduais e federais dos produtos. |
| Leilão judicial: cuidado!
Quem quiser se aventurar no mundo dos leilões deve ter especial atenção
com aqueles determinados pela Justiça quando os bens oferecidos
foram tomados para o pagamento de dívidas, por exemplo. Nesse caso, o lance
mínimo para os lotes é estipulado pelo juiz, assim como o local
de realização do evento e suas regras. Ao participar de leilões
judiciais, é recomendável informar-se, com a ajuda de um advogado,
de eventuais riscos. Há situações em que, apesar de o bem
ter ido para o martelo, cabe recurso ao proprietário. Ou seja, o comprador
pode ter dificuldade em tomar posse da mercadoria ou imóvel que arrematou.
Por esse motivo, e também por serem anunciados quase sempre apenas no Diário
Oficial, os pregões judiciais costumam ser pouco freqüentados.
"Normalmente, há de cinco a dez pessoas na platéia", diz o leiloeiro
Renato Moysés. "E são sempre as mesmas." Quando o evento é
transmitido pela internet, a participação é maior. "Varia
de 1 000 a 3 000 inscritos", conta Moysés. | |