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CRÔNICA
De boca aberta
Walcyr Carrasco
Aconteceu. Dor de dente. Como
sempre, no fim de semana. Nunca soube de alguém que reclamasse
em um dia normal, quando é fácil achar socorro. Primeiro
veio uma pontada, bem leve. Tentei me enganar:
Ah, não deve ser
nada.
Dali a algumas horas latejava.
Eu fora convidado para um churrasco. Passei a tarde mal-humorado
em um canto, enquanto os outros se divertiam. A cada cinco segundos
alguém se aproximava:
Nem um pedacinho de picanha?
Sorria. Explicava. Rosnava. O
dia não acabava nunca! De noite, acordei várias vezes.
Na segunda-feira, consegui hora. Só ao anoitecer, devido
à agenda do dentista, repleta de sofredores como eu. Quando
entrei no consultório, sorriu:
Tudo bem?
Se estivesse bem, não
estaria aqui! respondi francamente.
Deliciado, ele me apontou a cadeira.
Ainda comentei:
Por sorte você não
é engenheiro nem político. Se pontes e viadutos dessem
tantos problemas como minha boca, já estaria preso.
Em que país você
vive? argumentou. Há casos piores, e ninguém
foi para a cadeia!
Mostrei o culpado, na frente.
Depois de me adornar com um avental de chumbo, fez a chapa. Não
deu outra: canal. A assistente entregou a seringa. Uma das piores
coisas da vida é anestesia no céu da boca. Ele sorriu:
Dói?
Resmunguei, enquanto ele espetava
e espetava. Não canso de me espantar com a mania que os dentistas
têm de conversar e fazer perguntas! Dali a pouco chegou a
vez do motorzinho. Há ruído mais tenebroso? Algum
que supere o "zimmmmmmm" do motorzinho de dentista? Dá nos
nervos. Ficará milionário quem inventar uma broca
capaz de tocar ópera. Nada me deixa mais tenso. Ele falava,
falava e falava. Comentou um filme. Quis saber da minha vida. Fez
piadas. Quando eu tentava responder, me avisava:
Não mexe a boca!
Ah, que raiva! Confirmou:
É o canal.
Gemi:
Sei perfeitamente. Tive
outros.
Ele olhou o dente e assumiu expressão
dramática.
Ihhhhhhh!
Também é terrível
ouvir um "ihhhhh" de dentista, médico ou cabeleireiro. Tragédia,
na certa. Emiti alguns ruídos angustiados.
Pode estar trincado.
Tremi. Bem na frente, trincado?
Eu, banguela? Abanou a cabeça, sério, não dizendo
sim nem não. Enfiou as agulhas. Inquiriu:
Dói?
Não bastava ouvir meus
ais, uis, os? Consegui articular um "sim".
Ótimo. Estou fazendo
tração.
Mais agulhas e o aviso:
Não feche a boca
de maneira alguma!
Como se eu pudesse, com toda
aquela parafernália! Finalmente retirou tudo.
Sua dor deve diminuir.
Mas a inflamação ainda não acabou totalmente.
E se piorar? Onde o encontro?
Bem, vou passar o fim
de semana nas montanhas com uma amiga! declarou amavelmente.
Ah, que bela perspectiva! Ele
se divertindo, e eu gritando?
Vamos marcar para a semana
que vem! continuou, abrindo a agenda. Ih, estou lotado!
Tenho duas cirurgias. Vamos ver... que tal na quarta-feira às
16h15? Mas não pode atrasar, é horário contado!
Aceitei, apesar de ser no meio
da tarde. Ia me levantar, quando ele lembrou:
Não se esqueça.
Cobro 50% adiantado. Vamos ver...
Arranquei o talão de cheques.
Deu o preço da demolição e do cimento. Se material
de construção fosse cobrado na mesma proporção,
ninguém teria casa própria! Revelou:
Já estava com saudade!
Quase gritei que não tinha
saudade nenhuma. Mas não seria verdade. Eis o grande dilema.
Gosto dele, porque alivia meu sofrimento. É simpático.
Fico histérico nas consultas. Que drama! Nenhum profissional
desperta tanto amor e ódio quanto o dentista!
e-mail: walcyr@abril.com.br
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