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31 de maio de 2006
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CRÔNICA

De boca aberta

Walcyr Carrasco

Aconteceu. Dor de dente. Como sempre, no fim de semana. Nunca soube de alguém que reclamasse em um dia normal, quando é fácil achar socorro. Primeiro veio uma pontada, bem leve. Tentei me enganar:

– Ah, não deve ser nada.

Dali a algumas horas latejava. Eu fora convidado para um churrasco. Passei a tarde mal-humorado em um canto, enquanto os outros se divertiam. A cada cinco segundos alguém se aproximava:

– Nem um pedacinho de picanha?

Sorria. Explicava. Rosnava. O dia não acabava nunca! De noite, acordei várias vezes. Na segunda-feira, consegui hora. Só ao anoitecer, devido à agenda do dentista, repleta de sofredores como eu. Quando entrei no consultório, sorriu:

– Tudo bem?

– Se estivesse bem, não estaria aqui! – respondi francamente.

Deliciado, ele me apontou a cadeira. Ainda comentei:

– Por sorte você não é engenheiro nem político. Se pontes e viadutos dessem tantos problemas como minha boca, já estaria preso.

– Em que país você vive? – argumentou. – Há casos piores, e ninguém foi para a cadeia!

Mostrei o culpado, na frente. Depois de me adornar com um avental de chumbo, fez a chapa. Não deu outra: canal. A assistente entregou a seringa. Uma das piores coisas da vida é anestesia no céu da boca. Ele sorriu:

– Dói?

Resmunguei, enquanto ele espetava e espetava. Não canso de me espantar com a mania que os dentistas têm de conversar e fazer perguntas! Dali a pouco chegou a vez do motorzinho. Há ruído mais tenebroso? Algum que supere o "zimmmmmmm" do motorzinho de dentista? Dá nos nervos. Ficará milionário quem inventar uma broca capaz de tocar ópera. Nada me deixa mais tenso. Ele falava, falava e falava. Comentou um filme. Quis saber da minha vida. Fez piadas. Quando eu tentava responder, me avisava:

– Não mexe a boca!

Ah, que raiva! Confirmou:

– É o canal.

Gemi:

– Sei perfeitamente. Tive outros.

Ele olhou o dente e assumiu expressão dramática.

– Ihhhhhhh!

Também é terrível ouvir um "ihhhhh" de dentista, médico ou cabeleireiro. Tragédia, na certa. Emiti alguns ruídos angustiados.

– Pode estar trincado.

Tremi. Bem na frente, trincado? Eu, banguela? Abanou a cabeça, sério, não dizendo sim nem não. Enfiou as agulhas. Inquiriu:

– Dói?

Não bastava ouvir meus ais, uis, os? Consegui articular um "sim".

– Ótimo. Estou fazendo tração.

Mais agulhas e o aviso:

– Não feche a boca de maneira alguma!

Como se eu pudesse, com toda aquela parafernália! Finalmente retirou tudo.

– Sua dor deve diminuir. Mas a inflamação ainda não acabou totalmente.

– E se piorar? Onde o encontro?

– Bem, vou passar o fim de semana nas montanhas com uma amiga! – declarou amavelmente.

Ah, que bela perspectiva! Ele se divertindo, e eu gritando?

– Vamos marcar para a semana que vem! – continuou, abrindo a agenda. – Ih, estou lotado! Tenho duas cirurgias. Vamos ver... que tal na quarta-feira às 16h15? Mas não pode atrasar, é horário contado!

Aceitei, apesar de ser no meio da tarde. Ia me levantar, quando ele lembrou:

– Não se esqueça. Cobro 50% adiantado. Vamos ver...

Arranquei o talão de cheques. Deu o preço da demolição e do cimento. Se material de construção fosse cobrado na mesma proporção, ninguém teria casa própria! Revelou:

– Já estava com saudade!

Quase gritei que não tinha saudade nenhuma. Mas não seria verdade. Eis o grande dilema. Gosto dele, porque alivia meu sofrimento. É simpático. Fico histérico nas consultas. Que drama! Nenhum profissional desperta tanto amor e ódio quanto o dentista!

e-mail: walcyr@abril.com.br

     
   
 
 
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