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30 de novembro de 2005
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O dândi de Higienópolis

Como vive o excêntrico editor
Charles Cosac, que mora recluso
em um apartamento de 1 200 metros
quadrados em Higienópolis, onde tem
treze telefones, 800 peças de roupa
e uma impressionante coleção
de arte brasileira

Orlando Margarido

 
Fotos Mario Rodrigues
Cosac, na sala do dúplex, ao lado de um Cristo de sua altura (1,84 metro): "Só consigo suportar minha vida porque tenho muita fé"


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A trajetória e os lançamentos da editora CosacNaify

Toda metrópole do mundo tem um personagem notório por caprichos, refinamentos e hábitos peculiares equivalentes à sua vultosa conta bancária. Em São Paulo, difícil imaginar alguém com esse perfil que não o editor e colecionador carioca Charles Cosac. Dono da CosacNaify, sofisticada editora de títulos de arte brasileira e literatura, ele vive solitário num dúplex recheado com uma impressionante coleção de obras brasileiras, desde imagens barrocas do século XVIII até trabalhos de artistas contemporâneos como Waltércio Caldas. Apesar de ter fobia de gente ("Três pessoas já me deixam em pânico") e raramente receber visitas, está sempre elegantemente trajado com algumas das 800 peças de seu closet – entre elas, leves túnicas feitas sob medida. Em cada canto do apartamento de 1 200 metros quadrados, em Higienópolis, esse filho de imigrantes sírios de 41 anos dá vazão às suas excentricidades.

Desde que se mudou para a cidade, em 1996, recém-chegado da Inglaterra, Cosac resolveu se isolar. Levou ao pé da letra o conselho do escultor Emanoel Araújo, então diretor da Pinacoteca do Estado, hoje um de seus amigos mais próximos: "Se você vem aqui para trabalhar, não aceite convites". Na verdade, ele já tinha um plano traçado. Herdeiro de uma fortuna vinda da mineração, sonhava em abrir uma editora de livros iguais aos que consumia em Londres. Instalou-se na Avenida São Luís, no centro da cidade, e em seis meses finalizou sua primeira edição, um volume sobre o artista plástico Tunga. Estava fundada a CosacNaify.

 
A suíte de 80 metros quadrados, com o closet envidraçado atrás e o retrato pintado pelo goiano Siron Franco: modelos de Dener, Saint Laurent e Herchcovitch

À medida que o negócio prosperava (leia-se prestígio, não dinheiro), a reclusão de seu proprietário aumentava. Na rota contrária à do mundinho dos culturetes, Cosac não comparece a eventos e jamais recebe para festas. Tem uma sala de jantar com dezesseis lugares praticamente intocada. O ambiente não conta nem com iluminação. Surpreendente, portanto, que no mês passado o empresário ermitão tenha subido ao palco da Sala São Paulo para receber o I Prêmio Bravo! Prime de Cultura de personalidade cultural do ano. "Ele fez de tudo para tirar seu nome da lista", conta um artista.

A reclusão não lembra em nada a clausura de um monge. Em seu imóvel, avaliado em 2 milhões de reais, o editor mora com o casal de pastores alemães "Odin" e "Farrah" – homenagem à atriz Farrah Fawcett – e três empregados. Eles cuidam, por exemplo, das roupas mantidas no closet envidraçado da suíte de 80 metros quadrados. Nele, é possível encontrar tanto terninhos dos anos 70 do francês Yves Saint Laurent como criações extravagantes do paulistano Alexandre Herchcovitch, de quem Cosac compra coleções inteiras. Muitos dos lançamentos da editora acontecem pelas paixões do dono, caso do livro do próprio Herchcovitch. Ele prepara neste momento um outro sobre o estilista Dener Pamplona de Abreu (1936-1978), um dos nomes mais importantes da história da moda brasileira e de quem também possui algumas criações.

 
Algumas das obsessões do colecionador: antidepressivos e imagens de Jesus O nome do psiquiatra bordado nas toalhas: "É a pessoa mais importante na minha vida"

Em matéria de roupa, Cosac gosta mesmo de túnicas. Tem quarenta, confeccionadas por um alfaiate. "Encomendei porque passei mal com o calor daqui quando voltei da Europa", explica. Entre os acessórios, figura um colar feito de ossos... dos dedos de seu avô! Com 1,84 metro de altura, uma calvície aparente e esguio, Cosac sabe que compõe um tipo improvável – como o escritor irlandês Oscar Wilde e seu estilo dândi que escandalizou a Inglaterra vitoriana. Em comum com ele, há ainda a homossexualidade assumida. "Isso incomodou muita gente quando me mudei para a cidade", afirma.

Sedentário mas vaidoso, troca a atividade física pela lipoaspiração, a que recorreu duas vezes. Incrustou pedras preciosas nos dentes e depois as tirou por questão de saúde. A relíquia atual é um anel de brilhante desenhado pelo goiano Siron Franco, o artista mais venerado em sua coleção. Teve sessenta pinturas dele. "Generoso, Charles vendeu algumas obras para pagar a conta do hospital de um amigo", conta Siron. Distanciado do pai e da mãe, que moram no Rio de Janeiro, Cosac é próximo de sua irmã, Simone. Ela e o marido, o americano Michael Naify, sócio da editora, atualmente vivem em Florença. Por causa da amizade com o marchand Marcantonio Vilaça, morto em 2000, o editor considera os pais do amigo sua segunda família. Na sala de casa, certa vez, instalou uma lápide com o nome do galerista ao lado da sua (sim, ele tem uma). "Cosac é um bem cultural que deveria ser tombado", diz o acadêmico Marcos Vilaça, pai de Marcantonio e ministro do Tribunal de Contas da União.

 
Os pastores alemães Farrah e Odin dividem o apartamento com Cosac e mais três empregados: carpete vermelho "para deixar as pessoas com aparência saudável" Obras coloridas de Geraldo de Barros são algumas das poucas peças da equipada cozinha: como não gosta de cheiro de comida, Cosac proíbe os empregados de cozinhar. Para as raras visitas, só serve água e refrigerante

Do suntuoso dúplex e do conforto de seu vestuário, Cosac só sai por obrigação, movido a calmantes, antidepressivos, Coca-Cola e três maços de cigarros por dia. Quando esse coquetel não resolve, liga para o psiquiatra que o atende há sete anos. "Ele é a pessoa mais importante para mim", atesta o paciente, que mandou bordar o nome do médico nas toalhinhas do lavabo. Normalmente, Cosac só sai de casa para passear com os cães – única situação em que será visto de jeans. Vai até a sede da editora, a poucas quadras dali, quando é absolutamente necessário. Para cuidar dos interesses da CosacNaify e de seus 45 funcionários, sem somar os colaboradores, conta com o professor de literatura Augusto Massi, na prática o editor há quatro anos e por quem tem tanta devoção quanto tem por uma imagem de Cristo do século XVIII, seu xodó no acervo. "Sou obsessivo por trabalho e pela perfeição."

 
Lustre americano feito em homenagem ao astronauta Neil Armstrong. Segundo Cosac, há três exemplares no mundo: "Me encantam a delicadeza e o kitsch juntos" Objeto de parede da fluminense Lygia Pape: a primeira peça de uma fantástica coleção de arte brasileira, paixão dividida com amigos como Emanoel Araújo e a galerista Raquel Arnaud

Para tanto, Cosac despacha de um dos treze aparelhos telefônicos da casa. Vez ou outra atende um perseverante amigo que insiste em convidá-lo para jantar. Amável, aceita. Mas invariavelmente dá o cano. "É preciso ter muita paciência com as esquisitices do rapaz. Cansei de comer sozinho esperando por ele", diz Emanoel Araújo, vítima de seu próprio conselho no passado. Embora disponha de uma cozinha equipadíssima, devido a outra de suas fobias Cosac opta por entregas em domicílio ou vai a restaurantes. "Detesto cheiro de comida e barulho de panelas", explica enquanto acende o cigarro na boca do fogão. No elegante e caro La Tambouille, ele aparece às 8 da noite, dispensa o cardápio e pede um polpettone ou um hambúrguer.

 

O Anjo de Hiroshima, objeto do mineiro Farnese de Andrade, para quem o editor organizou uma retrospectiva: assim como ele, o artista também foi uma figura solitária e arisca à convivência social Instalação de Tunga, nome estreante nas refinadas edições da CosacNaify, em um dos três salões do apartamento: ao fundo, a mesa de jantar com dezesseis lugares nunca ocupados

Sem dúvida não é por economia que Cosac prefere um menu trivial. Milionário, "vive de pensão", como diz. Foi esse dinheiro de família que lhe permitiu estudar história da arte na Europa, onde viveu por oito anos, e manter a editora, que apenas em 2002 saiu do vermelho mas não é uma empresa lucrativa. Os 460 títulos publicados, com preço médio de 70 reais, destinam-se a um público restrito. "Levo esse desafio adiante porque é a minha maior determinação", diz ele. Cristão ortodoxo e freqüentador nos fins de semana da catedral do Paraíso, afirma que buscou conforto extra na religião. "Eu só consigo suportar minha vida porque tenho muita fé."

     
   
 
 
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