| |
| |  | |
FILANTROPIA
O balé da solidariedade Espetáculo de Pina
Bausch ajuda ONG que cuida de crianças e doentes mentais Marcella
Centofanti
Fotos
Fernando Moraes
 | | Anna
Schvartzman, na escola do Ciam: "Quero arrecadar 250 000 reais" | |
Enquanto o motorista dirige
pela Rodovia Anhangüera a caminho de Franco da Rocha, na região metropolitana,
o celular de Anna Schvartzman toca. Sentada no banco de trás do Vectra,
a assistente social atende: "Joããão! Vai querer comprar quantos
ingressos? Como é para você, vou escolher os melhores lugares". O
interlocutor é o empresário João Doria Jr., que retornava
sua ligação. Às vésperas de mais um espetáculo
beneficente promovido por ela, o celular de Anna não pára. Desta
vez, sua meta é lotar os 830 assentos que lhe foram reservados na primeira
noite de apresentação da companhia da bailarina alemã Pina
Bausch, no Teatro Alfa, nesta segunda (28). "Sabe o trabalho que dá vender
um teatro inteiro assim?", pergunta. Embora sua secretária dispare e-mails
e correspondências para um mailing repleto de nomes poderosíssimos,
o que funciona mesmo é o corpo-a-corpo, nos telefonemas de Anna para cada
convidado. "Quando eu ligo, a pessoa se sente na obrigação de ajudar
e acaba comprando." Anna ganhou os ingressos de
empresas patrocinadoras e os revende com ágio de 50 reais em relação
aos preços cobrados na bilheteria (entre 30 e 200 reais). Mas a causa é
nobre. Todo o dinheiro arrecadado com as entradas do espetáculo será
revertido para os projetos assistenciais do Centro Israelita de Apoio Multidisciplinar
(Ciam). A ONG, presidida por Anna há dezoito anos, atende 243 pessoas,
quase todas portadoras de deficiências mentais. Fundada em 1959, a entidade
promove diversas atividades, divididas em duas frentes. Na do Jaguaré funciona
uma pré-escola e um centro de reabilitação que oferece tratamentos
de fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional para pacientes de até
7 anos. Para jovens com mais de 16 anos, há um projeto que visa a sua inclusão
no mercado de trabalho. Cerca de 85% dos que são atendidos não pagam
nada.  | | Atendimento
na unidade do Jaguaré: 85% dos que são auxiliados não pagam nada |
O segundo braço do Ciam e verdadeiro xodó de Anna
é a Aldeia da Esperança, em Franco da Rocha. Trata-se de um condomínio
para 63 moradores. Todos são portadores de algum tipo de deficiência
mental. As casas, individuais, ficam distribuídas num terreno de 415 000
metros quadrados, rodeado por área verde. Elas seguem o mesmo padrão:
36 metros quadrados, com quarto, closet, banheiro, cozinha americana e varanda.
A aldeia tem quadra, academia, canil, centro de reabilitação, oficinas,
refeitório, área de lazer e uma piscina aquecida adaptada para deficientes.
Os moradores, com idade entre 21 e 62 anos, são monitorados 24 horas por
dia, mas têm liberdade de entrar e sair quando quiserem. Praticamente todos
trabalham, dentro ou fora de lá. Baseada num projeto israelense, a Aldeia
da Esperança criou um modelo pioneiro no Brasil. Ela representa um alívio
para uma grande preocupação de quem tem um filho com deficiência:
como será seu futuro após a morte dos pais? Por contrato, a ONG
assume responsabilidade vitalícia sobre todos os que vivem ali. A maioria
paga uma mensalidade, que varia de acordo com a possibilidade de cada um. E 33%
são isentos. Na Aldeia da Esperança,
os moradores conhecem Anna Schvartzman pelo nome. Saudada aonde quer que vá,
ela se orgulha em contar a história de cada um. Uma de suas preferidas
é a de Paulino Gorenstein, que chegou à aldeia quando o projeto
nasceu, há treze anos. Na época, ele tinha câncer no cérebro
e um prognóstico de seis meses de vida. Gorenstein mora no condomínio
até hoje. No ano passado, numa das quatro viagens anuais promovidas pela
ONG, ele, que anda de cadeira de rodas, conheceu a cidade de Bonito, em Mato Grosso
do Sul, e fez rafting. "São essas coisas que me dão energia", diz
a presidente.  | | Aldeia
da Esperança: condomínio para 63 moradores |
A principal missão de Anna é convencer benfeitores a ajudar a manter
os projetos da ONG. "Posso me concentrar nessa tarefa porque tenho a retaguarda
de uma diretoria voluntária." Por ano, o governo estadual destina ao Ciam
91.562 reais, que representam 2% de seus custos. O restante vem de 900 sócios,
que contribuem com quantias a partir de 20 reais, e dos eventos beneficentes.
Casada com o jornalista Salomão Schvartzman, Anna circula em diversos eventos
e tem as portas abertas na sociedade paulistana. "Minha vantagem é conhecer
muita gente", afirma ela. Uma dessas pessoas é o cantor Roberto Carlos,
que, sensibilizado com a causa, fez um show em prol do Ciam em agosto do ano passado
para 2 500 espectadores, no Credicard Hall. O espetáculo rendeu aos cofres
da entidade 500.000 reais. Com a apresentação da companhia de Pina
Bausch, Anna pretende conseguir mais 250.000 reais para ajudar a sustentar seus
projetos.
Centro Israelita de Apoio Multidisciplinar (Ciam). Rua Irmã
Pia, 78, Jaguaré,
3714-0688. www.ciam.org.br
|