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30 de março de 2005
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Viciada em escovar os dentes

 

Fotos Mario Rodrigues
Valquíria, da Unilever: pastas ficam até três anos em teste

Você é capaz de reconhecer sabores salgados, doces, florais e picantes no seu creme dental? A farmacêutica Valquíria Seixas da Silva é uma das poucas profissionais com esse inusitado dom. Ela coordena um grupo de cerca de trinta pessoas treinadas para testar os cremes dentais da linha Close Up, da Unilever. Valquíria chega a usar a escova até dez vezes ao dia. "Quando desenvolvemos um novo produto, precisamos prever qual será a aceitação do público para os diversos ingredientes que o compõem", diz. Os técnicos podem levar de dois meses a três anos provando um creme dental até que ele chegue às prateleiras. Cada um dos especialistas realiza os testes em cabines individuais equipadas com uma pia. Ali, anotam as sensações de olfato e paladar que tiveram. Esses dados são usados na comparação das diversas fórmulas desenvolvidas pela empresa e ajudam na decisão de qual será lançada no mercado. "Hoje sou uma viciada em higiene bucal. Mesmo quando estou de folga, escovo os dentes pelo menos cinco vezes ao dia", afirma Valquíria, que vai regularmente ao dentista. Sempre a passeio. O paladar tão apurado levou a farmacêutica a desenvolver como hobby a degustação de vinhos. "Alguns dos aromas frutados e florais da bebida também estão presentes nos cremes dentais", explica.

 

Ele bebe em serviço

 
Ennio Federico: visão, olfato e paladar para avaliar bebidas

O gourmet e enólogo Ennio Federico ainda não abandonou o trabalho como empresário (tem uma importadora de válvulas industriais) para dedicar-se exclusivamente às degustações. Mas devota um tempo cada vez maior a elas. Pelo menos três vezes por semana, Federico reúne-se com amigos em confrarias. Também faz parte do time de degustadores da revista Gula e atua como consultor de empresas de bebidas que pretendem trazer novidades ao mercado nacional. Opina sobre a qualidade de vinhos, uísques, conhaques e cachaças. Primeiro, observa se o líquido em questão é límpido e cristalino. Depois, usa o olfato para apreciar o aroma. Só então leva a bebida à boca. Nem sempre, no entanto, ela é ingerida. "Há degustações com mais de trinta tipos de cachaça", diz. "Se beber tudo, o sujeito não agüenta." E por que degustações de cervejas são raras? "É um produto muito difícil de ser avaliado", explica. "Os consumidores sempre levam mais em conta suas preferências pessoais que os critérios técnicos."

 

Será que é ele ou é ela?

 

Marina, com codornas recém-nascidas: campeã na arte de identificar o sexo de aves

Pode parecer inusitado – e é mesmo –, mas no universo dos profissionais que usam os sentidos para ganhar a vida há quem apalpe o sexo de pintinhos, codornas e outras aves. Na adolescência, Marina Kobayashi levou dois anos para aprender a técnica japonesa de identificar pelo tato machos e fêmeas um dia após o nascimento. "Os machos têm uma saliência quase imperceptível entre as pernas, como se fosse uma bolinha", explica, com risinhos envergonhados. Essa diferenciação precoce serve para que as granjas criem as fêmeas em separado. Marina é uma expert. Ela ganhou sete vezes o campeonato brasileiro de eficácia dos sexadores. Na última edição do torneio, em 1998, conseguiu a façanha de separar 100 pintinhos em exatos 2 minutos e 59 segundos – menos de dois segundos para identificar o sexo de cada um deles.

 

Test-drive de sabonete

 

Roseli, da Lush: laboratório no banheiro de casa

Sempre que a fabricante de cosméticos artesanais de origem inglesa Lush lança um novo produto no Brasil – e são dois a cada mês –, a engenheira química Roseli Grossmann leva serviço para casa. Gerente de controle de qualidade da empresa no país, ela é responsável por testar sabonetes em formato de chocolate, espumas de banho, xampus e hidratantes sólidos que chegarão às lojas. "Quando falo qual é minha profissão, as pessoas pensam que só manipulo fórmulas químicas", diz ela. "E aí se surpreendem com a maciez das minhas mãos." Antes de transformar o banheiro de sua casa em laboratório, Roseli confere se as misturas nos tanques, feitas com flores, frutas ou legumes frescos, seguem rigorosamente os padrões determinados pela matriz. Também faz parte de suas atribuições checar se as cores do que é fabricado aqui são idênticas às dos catálogos ingleses e se os produtos exalam aroma suficiente para deixar os clientes com vontade de morder o que está exposto nas prateleiras. "O grande segredo do controle de qualidade dos cosméticos é a utilização dos cinco sentidos", afirma. "Mas é o olfato que faz você viajar pelas essências."

 

A sommelière do azeite

 

Maria Luiza: "Para mim, azeitona servia apenas para colocar na salada"

Ela dava aulas em faculdades de nutrição, mas cansou-se das "picuinhas entre os professores". Abriu uma consultoria e começou a degustar azeites quando foi contratada, há oito anos, pela Casa do Azeite Espanhol, entidade ligada a uma associação de produtores. Para Maria Luiza de Brito Ctenas, a visão é tão importante quanto o paladar quando se trata de atestar a qualidade do óleo extraído das azeitonas. "Se o líquido for bem verde, significa que o fruto é jovem e o resultado, mais amargo e picante", afirma. Em jejum, basta Maria Luiza colocar um pouco de azeite na boca por cinco segundos para identificar sutilezas como teor de pureza e acidez. "E pensar que, para mim, azeitona servia apenas para colocar na salada", brinca.

     
   
 
 
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