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30 de março de 2005
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CRÔNICA

Despedida de solteira

Walcyr Carrasco

Data de casamento marcada, uma amiga combinou a festa de adeus à vida de solteira. Distribuiu a listinha de presentes para as mais próximas: abridores, guardanapos... mil utilidades domésticas. Consegui ler alguns itens:

– Lingerie? – surpreendi-me.

Pois é. Lá constavam vários itens transparentes e rendados. A explicação: no tempo das vovós, as donzelas casadoiras bordavam o enxoval anos a fio. Atualmente, fica caríssimo rechear a mala com todos os apetrechos para uma perfeita lua-de-mel. Algumas convidadas se cotizaram. Uma reclamou, nervosa:

– Onde vou achar meia de liga com pompom?

No dia, mais uma novidade. A futura consorte me confidenciou:

– Meu noivo pensa que a festa vai ser em um lugar, mas será em outro.

– Ué! – comentei ingenuamente. – Ele não pode saber?

– Nãããooo! Ele disse que, se houver rapazes, vai ter briga!

– Convidou rapazes para a despedida de solteira?

Ela me encarou como se eu fosse um extraterrestre. Incapaz de compreender as verdades deste mundo.

– Claro que não! Só os go-go boys!

Assim foi. O futuro cônjuge e uns amigos fizeram plantão em frente ao suposto endereço, para fiscalizar. Enquanto isso, as espertas se divertiam, bem longe! Chegaram cedo. Quitutes, cervejas e caipirinhas de vodca. Bateram papo, tecendo comentários sobre os deveres do lar.

– Meu marido é o máximo – dizia uma veterana das lides domésticas. – Aspira o carpete, passa as próprias camisas e põe o jantar para descongelar no microondas!

– E você, o que faz?

– Eu existo. Não é suficiente?

Outra advertia:

– Reze para ele não roncar. É motivo de divórcio!

– Gosto de cuidar da casa. Odeio passar colarinho, mas cozinhar tudo bem! – explicava a noiva.

– Nesse caso, jamais toque em uma camisa, para ele não achar que você tem obrigação – aconselhava a veterana. – Depois de seis meses no fogão você vai ficar arrepiada com o simples fato de olhar uma panela. Faça um bom estoque de macarrão instantâneo!

– Macarrão de pacotinho?

– Atribuo boa parte do sucesso do meu casamento aos hambúrgueres e às latas de atum!

Lá pela terceira cerveja, o som da música aumentou. Três rapazes entraram pela sala. Um vestido de caubói, outro mascarado e o último de bombeiro. Dançaram. Todas gritavam. Arrancaram os trajes, com os trinados aumentando a cada peça. Finalmente, o mascarado ficou rebolando sozinho. Arrebitou o bumbum, arrancou a sunga-cueca e jogou para a noiva! Fugiu para dentro, antes de ser estraçalhado pelas mais entusiasmadas.

– Surpresa! Surpresa! – gritavam as amigas, enquanto a noiva ria com a cueca na cabeça.

Quanta alegria! No dia seguinte, o noivo foi avaliar os resultados da comemoração, às 11 da manhã. Ela estava torta na cama. A mãe a empurrou.

– Vá lá, senão ele vai desconfiar que você exagerou!

Arrastou-se até a sala, o corpo moído. As olheiras tomavam metade do rosto. O cabelo desgrenhado. Ainda falava mole.

– Chegou tarde? – ele, ameaçador.

– Que naaada, a gente só ficooou batendo papo!

Lépida, a mãe ofereceu um café. Sem açúcar. O noivo viu a bolsa no sofá. Abriu. Tirou a sunga-cueca de dentro.

– Mas o que é isto?

A futura esposa calou-se. Para que abrir a boca, quando qualquer palavra aumentaria a tragédia? Foi uma briga federal. Nem por isso o casamento despencou. Ela está providenciando o vestido branco e flores de laranjeira. Ele já se conformou.

As despedidas masculinas são lendárias. Se eles podem, por que elas não?

     
   
 
 
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