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CRÔNICA
Despedida de
solteira
Walcyr Carrasco
Data de casamento marcada, uma amiga combinou
a festa de adeus à vida de solteira. Distribuiu a listinha
de presentes para as mais próximas: abridores, guardanapos...
mil utilidades domésticas. Consegui ler alguns itens:
Lingerie? surpreendi-me.
Pois é. Lá constavam vários
itens transparentes e rendados. A explicação: no tempo
das vovós, as donzelas casadoiras bordavam o enxoval anos
a fio. Atualmente, fica caríssimo rechear a mala com todos
os apetrechos para uma perfeita lua-de-mel. Algumas convidadas se
cotizaram. Uma reclamou, nervosa:
Onde vou achar meia de liga com pompom?
No dia, mais uma novidade. A futura consorte
me confidenciou:
Meu noivo pensa que a festa vai ser
em um lugar, mas será em outro.
Ué! comentei ingenuamente.
Ele não pode saber?
Nãããooo! Ele disse
que, se houver rapazes, vai ter briga!
Convidou rapazes para a despedida de
solteira?
Ela me encarou como se eu fosse um extraterrestre.
Incapaz de compreender as verdades deste mundo.
Claro que não! Só os
go-go boys!
Assim foi. O futuro cônjuge e uns amigos
fizeram plantão em frente ao suposto endereço, para
fiscalizar. Enquanto isso, as espertas se divertiam, bem longe!
Chegaram cedo. Quitutes, cervejas e caipirinhas de vodca. Bateram
papo, tecendo comentários sobre os deveres do lar.
Meu marido é o máximo
dizia uma veterana das lides domésticas. Aspira
o carpete, passa as próprias camisas e põe o jantar
para descongelar no microondas!
E você, o que faz?
Eu existo. Não é suficiente?
Outra advertia:
Reze para ele não roncar. É
motivo de divórcio!
Gosto de cuidar da casa. Odeio passar
colarinho, mas cozinhar tudo bem! explicava a noiva.
Nesse caso, jamais toque em uma camisa,
para ele não achar que você tem obrigação
aconselhava a veterana. Depois de seis meses no fogão
você vai ficar arrepiada com o simples fato de olhar uma panela.
Faça um bom estoque de macarrão instantâneo!
Macarrão de pacotinho?
Atribuo boa parte do sucesso do meu
casamento aos hambúrgueres e às latas de atum!
Lá pela terceira cerveja, o som da
música aumentou. Três rapazes entraram pela sala. Um
vestido de caubói, outro mascarado e o último de bombeiro.
Dançaram. Todas gritavam. Arrancaram os trajes, com os trinados
aumentando a cada peça. Finalmente, o mascarado ficou rebolando
sozinho. Arrebitou o bumbum, arrancou a sunga-cueca e jogou para
a noiva! Fugiu para dentro, antes de ser estraçalhado pelas
mais entusiasmadas.
Surpresa! Surpresa! gritavam
as amigas, enquanto a noiva ria com a cueca na cabeça.
Quanta alegria! No dia seguinte, o noivo foi
avaliar os resultados da comemoração, às 11
da manhã. Ela estava torta na cama. A mãe a empurrou.
Vá lá, senão ele
vai desconfiar que você exagerou!
Arrastou-se até a sala, o corpo moído.
As olheiras tomavam metade do rosto. O cabelo desgrenhado. Ainda
falava mole.
Chegou tarde? ele, ameaçador.
Que naaada, a gente só ficooou
batendo papo!
Lépida, a mãe ofereceu um café.
Sem açúcar. O noivo viu a bolsa no sofá. Abriu.
Tirou a sunga-cueca de dentro.
Mas o que é isto?
A futura esposa calou-se. Para que abrir a
boca, quando qualquer palavra aumentaria a tragédia? Foi
uma briga federal. Nem por isso o casamento despencou. Ela está
providenciando o vestido branco e flores de laranjeira. Ele já
se conformou.
As despedidas masculinas são lendárias.
Se eles podem, por que elas não?
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