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Do
fashion ao pop
Astros
do prêt-à-porter faturam alto costurando
parcerias com grandes lojas de varejo
Maria
Rita Alonso
Fotos Heudes Régis

Alexandre
Herchcovitch, além
de criar peças para sua nova coleção,
como as vestidas por Marina Dias (à
dir.), faz modelos como este de Luciana
Curtis (à esq.) para a Cori |
Foi
mais um momento de glória em sua carreira de estrela.
De escarpins cor-de-rosa salto 4 e gravata-borboleta desamarrada,
Alexandre Herchcovitch recebeu em junho passado o Prêmio
Abit de melhor estilista sob aplausos esfuziantes da platéia
formada por jornalistas, consultores, empresários e
industriais da moda. Aos 30 anos, ele encabeça o grupo
de estilistas transgressores que transformaram seus nomes
em grifes poderosas no mundinho fashion. A fama, a independência
para costurar o que der na telha e as quatro lojas próprias,
no entanto, não são suficientes para Herchcovitch
sustentar seus luxos ele coleciona, por exemplo, bolsas
femininas de marcas caríssimas e, ocasionalmente, usa
a tiracolo uma Channel ou outra.

Marcelo
Sommer: contratado pela Estrela para desenhar roupas infantis |
No
dia-a-dia, nada de salto alto. Ele batalha com os pés
44 bem no chão. Por três anos, o paulistano trabalhou
para a Zoomp. Em novembro, assumiu o cargo de diretor de criação
da Cori, que há 45 anos veste executivas com modelos
clássicos. A marca produz 2 milhões de peças
por ano, 100 vezes mais que os 20.000
modelos arrematados pelas oito costureiras em seu pequeno
ateliê, nos Jardins. Para um corte e costura em escala,
ele não arrisca bolar nada tão chocante quanto
as peças que exibe na passarela. Herchcovitch jura
que não fica melindrado nem se sente "vendido" por
anestesiar esse lado, digamos, ultracriativo. "Acho incrível
pensar em um terninho que agrada a mil mulheres ao mesmo tempo",
diz.
A parceria
entre estrelas do prêt-à-porter e o varejo estourou
nesta temporada. É assim que sete dos 22 criadores
da São Paulo Fashion Week conseguem faturar alto. O
evento, cuja nova edição começa nesta
segunda no Parque do Ibirapuera (só para convidados),
é uma vitrine para os que querem ampliar seus negócios.
Foi assim com Mario Queiroz e André Lima, ambos novatos
no alto escalão da moda. O primeiro fechou neste mês
um contrato para desenhar pijamas masculinos para a Zorba.
Ele é também consultor de estilo da Renner.
Nas araras do magazine, no lugar de moletons, há jeans
escuros e detonados, roupas com detalhes de couro e estampas
ligadas a ícones do rock'n'roll. O paraense André
Lima, que vai participar pela segunda vez da semana da moda,
coordena há seis meses a produção da
loja Lila K, um braço de varejo de uma das maiores
fábricas do Bom Retiro, a Nutrisport. Ele diz que está
feliz se exercitando para criar roupas convencionais. "É
bem diferente fazer vestidos e ternos para modelos de 40 quilos
e para uma mulher comum que usa manequim 42", explica.

Mario
Queiroz: pijamas para a Zorba e consultoria para a Renner |
Estilistas
com mais anos de agulha e lugarzinho garantido nas passarelas
internacionais têm chances ainda maiores de costurar
parcerias com marcas grandes. Além de Herchcovitch,
Icarius de Menezes é o único brasileiro que
participa da semana de moda de Paris. Os dois passaram pela
faculdade de moda Santa Marcelina, em Perdizes (veja
quadro). "Hoje o estilista precisa ser um businessman",
diz Icarius, que estava morando em Paris e há um mês
veio exercer nas lojas TNG praticamente o mesmo papel de Herchcovitch
na Cori. "Queremos tratar com gente que dita a moda", afirma
o empresário Tito Bessa Jr., dono da empresa. Conhecida
marca de roupas masculinas de classe média, faz dois
anos que a TNG fabrica também roupas femininas e procurava
alguém capaz de dar cara nova às coleções.
A partir de março, peças de Icarius estarão
nas vitrines das 25 lojas da marca espalhadas na cidade. Tudo
bem diferente de seus vestidos esvoaçantes de seda,
vendidos por até 3.000 reais
na Daslu.

Fause
Haten: segunda marca nos manequins da Riachuelo |
A Riachuelo,
por sua vez, contratou o estilista Fause Haten para criar
uma grife exclusiva, a Haten.F. Há um ano, ele vende
versões baratas de seus modelinhos com babados, plumas
e brilhos a partir de 15 reais. "Para criar o pop ou o fashion
eu me baseio na mesma premissa: fazer roupa para mulher exuberante."
Filho de um mascate libanês da Rua 25 de Março,
Fause começou a pegar no batente com 17 anos. Costurou
umas roupinhas e foi tentar vendê-las às patrícias
Traudi Guida e Rahyja Calixto Afrange, sócias da loja
Le Lis Blanc. "Elas adoraram e pediram para que eu deixasse
as peças em consignação", lembra. "Topei
e fui correndo perguntar a meu pai o que significava aquilo."
Com tino para o comércio no sangue, Fause coordena
estilistas da Saad, butique do Itaim freqüentada por
madames, e licenciou seu nome para a produção
de bolsas, sapatos e óculos de sol. Sonha alto: quer
ficar rico como Christian Dior e Giorgio Armani, magos da
alta-costura internacional, que devem cerca de 60% de seu
faturamento à venda de acessórios.

Icarius:
do ateliê de Paris para a direção de estilo da paulistana
TNG |
Em matéria
de contratos, Fause perde para Marcelo Sommer. Reverenciado
entre os clubbers por sua moda inspirada no universo infantil,
Sommer é outro que não brinca em serviço.
Primeiro fez uma série de jeans estilizados para a
Levi's (150 reais cada um). Depois, desenhou tênis para
a marca francesa Le Coq Sportif, comercializados por 120 reais.
Agora vai assinar uma linha de roupas infantis para a Estrela.
"Estamos investindo inicialmente 500.000
reais", conta o presidente Carlos Tilkian. Mas a idéia
é criar lojas exclusivas para a venda da marca de roupas,
batizada de Estrela's. Pode ser um negócio e tanto
para Sommer, que conquistou adultos com estampas de palhaços,
carrinhos, bonecas e discos voadores. A verve criativa, ele
confessa, tem relação com um trauma que carrega
por ser o caçula de quatro filhos. "Eles queimavam
meus brinquedos", lembra. Para fechar negócio com Tilkian,
o moderno Marcelo Sommer cobriu suas dezoito tatuagens com
uma camisa normalzinha.
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| Amir
Slama: chinelos para combinar com os biquínis da Rosa
Chá |
Como ele,
Amir Slama resolveu ampliar sua atuação lançando
uma linha de chinelos pela Vizzano, empresa do Rio Grande
do Sul que está entre as quatro principais do setor
de calçados no país. Até então,
sua grife, a Rosa Chá, trabalhava basicamente com caros
e coloridos biquínis. Só no ano passado, Slama
garante que exportou 28.000 peças
para a Europa e os Estados Unidos. Sua moda praia foi apresentada
lá fora em pleno brazilian moment, há
dois anos, época em que as top brasileiras estouraram
entre os manda-chuvas da alta-costura no rastro de Gisele
Bündchen. Na última coleção, ele
usou estampas da obra de Romero Brito, badalado artista plástico
pernambucano que é sucesso em Miami.

André
Lima: vestidos na Daslu e modelos em série no Bom Retiro |
Os estilistas
costumam reverter os lucros que conquistam com o varejo para
fortalecer as próprias marcas. Na próxima quinta,
a Cori, por exemplo, irá bancar com 50.000
reais a festa de lançamento do livro sobre os dez anos
de carreira de Herchcovitch. A confecção prometeu
ainda patrocinar parte de seus desfiles que custam
em torno de 120.000 reais cada
um. É uma bela ajuda, já que o grande objetivo
desses profissionais é lançar coleções
dando show na passarela. Para isso, fazem de tudo. Sommer
tentou, sem sucesso, levar o roqueiro Supla para seu desfile,
marcado para quinta. "A Bárbara Paz se ofereceu para
substituí-lo, mas eu ainda não decidi se ela
combina com o clima da coleção", desdenha ele.
Fause Haten, por sua vez, convocou as decoradoras que organizam
festas da alta sociedade, para dar um ar glamouroso às
roupas. As modelos vão andar entre arranjos de rosas
vermelhas e os convidados da primeira fila sentarão
em poltronas de veludo.

Reinaldo
Lourenço aposta nas jóias: "O negócio é se adaptar" |
"A cultura
de moda está disseminada no país, e a indústria
sentiu necessidade de se aliar a designers criativos", avalia
o produtor Paulo Borges, organizador da Fashion Week. Reinaldo
Lourenço, que é um dos mais festejados, acabou
de fechar negócio com a indústria de jóias
Denoir. Ele desenhará anéis, colares e brincos
de ouro, diamante, ônix e madrepérola. "O bom
estilista precisa se adaptar", afirma. A empresa fabrica jóias
há trinta anos, no centro da cidade, para mais de 1
200 clientes, incluindo redes, como a H. Stern. Decidido a
entrar no varejo em grande estilo, o dono, Ricardo Lerner,
fez questão de um nome poderoso como o de Reinaldo.
"Esse tipo de parceria é uma via de mão dupla",
diz ele. "A barata e o dinossauro têm a mesma idade.
Sobrevive quem tem capacidade para se adaptar aos novos tempos."
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Os
diplomados
Marcos Rosa
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Frederic Jean
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| Herchcovitch
e Icarius: nos tempos da Santa Marcelina |
Com
estilistas alcançando status de celebridade,
a procura por graduação em moda, design
e engenharia têxtil multiplicou-se nos últimos
anos. No semestre passado, 880 alunos foram matriculados
nos sete cursos que hoje existem na cidade. Em 1991,
a primeira classe da Universidade Anhembi Morumbi contava
com setenta estudantes. Neste ano, 1 100 candidatos
concorreram às 350 vagas. Até dezembro
será inaugurado mais um campus para acomodar
apenas as turmas do curso. As mensalidades na Unip,
FMU, Faculdade Santa Marcelina, Faculdade Paulista de
Artes e nas escolas técnicas Senac e Senai vão
de 375 a 755 reais. Para se formar, não basta
aprender a coser e empunhar agulhas. O currículo
inclui desenho, estamparia, vitrinismo, marketing, filosofia
e tecnologia, entre outras disciplinas. Alexandre Herchcovitch
e Icarius de Menezes freqüentaram as salas da Santa
Marcelina. No desfile de formatura, ambos arrasaram.
Herchcovitch, em 1993, e Icarius, em 1997. Por ter sido
reprovado em linguagem instrumental, Herchcovitch não
conseguiu o diploma até hoje. "Mais do que estudar,
é preciso ter aptidão para a coisa", diz
ele. Sua paixão por máquina de costura
vem desde os 8 anos. Foi nela que, ainda adolescente,
fez sua primeira criação, para a mãe:
um vestido de organza laranja com bolinhas de pingue-pongue
na barra.
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