Walcyr Carrasco

Férias da família

É mesmo uma delícia para o homem
quando a mulher e os filhos viajam?

Assim que as crianças entram no carro, ele sente-se em férias. Corre para a frente da televisão, tira os sapatos, embola as meias e atira no meio do tapete. Não há maior sensação de liberdade para um homem do que espalhar roupas pela casa sem o risco de ouvir reclamações. Comer e deixar os pratos empilhados na pia é outra delícia. Todas as conquistas femininas dos últimos anos, que levaram o sexo masculino a dividir as tarefas da casa, vão por água abaixo. Está para nascer quem sinta prazer em lavar pratos. Esfregar panelas. A invenção mais perfeita para um senhor em férias é o microondas. Em poucos minutos, qualquer gororoba já começa a soltar fumaça. Nesse instante, ele pensa:

– Como é boa a vida de solteiro!

É invadido por uma nostalgia imensa do tempo em que não era casado, não tinha filhos, responsabilidades e tantas despesas fixas. O dinheiro era, principalmente, para se divertir.

– Há quanto tempo não tomo um porre?

Nenhuma criança gritando. Devem estar infernizando os vizinhos na praia. Com tanta chuva, só podem estar fazendo barulho de um lado para o outro. Inveja apenas a mulher que foi "descansar", enquanto ficou dando expediente em um escritório cheio de pais de família esfuziantes com a perspectiva de alguns dias de folga familiar. Pressente que, de descanso, a cara-metade não tem nada. Passa os dias às voltas com as crianças, tratando de lautos cafés da manhã, almoços, merendas, refrescos, jantares, panelas, roupa para lavar, toalhas para secar. E a garganta seca de tanto gritar porque os filhotes se esmeram em deixar os lençóis cheios de areia, aparecer com queimaduras nos raros momentos de sol e arrancar as orelhas uns dos outros quando estão entediados. Nada deixa uma dona-de-casa mais exausta que uma boa temporada de férias na praia. ma boa temporada de férias na praia.

Mesmo assim, ele se acha um tanto injustiçado. Resolve que tem o direito de aproveitar. Decide abraçar uma nova vida. Logo de manhã, a fiel empregada de tantos anos pergunta:

– O que o senhor quer para o jantar?

E ele sabe? Pensa, não vem nenhuma idéia. Finalmente, decide:

– Bife à milanesa com arroz e batatas fritas.

É seu grito de liberdade. A esposa nunca faz nada à milanesa. Vive de regime e as frituras estão interditadas. Ele adora. Procura uma camisa. Restam três. Avisa a empregada para passar mais algumas. Ela o observa com o olhar vazio e distante, pois nunca recebeu ordens daquele homem, nem pretende. Só falou da comida para se ver livre de refletir sobre a questão. O resto é com ela mesma. Ele foge para o escritório.

Final de tarde, o grupo de recém-solteiros vai para uma happy hour. Todos se acham irresistíveis. Do outro lado do bar, um grupo de executivas conversa e ri bem alto. Trocam olhares. Não resiste a flertar.

– Você não viajou? – pergunta a uma loiríssima queimada de sol.

– Não, minha filha foi para a praia e fiquei tomando conta do bebê. Estou queimada porque faço bronzeamento artificial.

Descobre que é avó. O que uma boa plástica não faz? Tudo bem, é uma bonita senhora. Mas não era aquele seu sonho para as férias conjugais. Já pensou?

– Minha mulher foi para a praia e conquistei uma avozinha.

Conquista e orgulho caminham juntos. De fato, não queria ter nenhuma aventura, só se exibir diante dos colegas de trabalho. Apenas um saiu acompanhado da happy hour, com uma suspeitíssima mocinha de saia curta que garantia ser modelo. De mau comportamento, provavelmente. Ele volta solitário para casa, com a cabeça rodando. Lembra-se do bife à milanesa e das batatas. Bota no micro. Retira uma sola de sapato. As batatas, molengas. Vai para a cama, adormece com o estômago reclamando. Acorda e critica o bife para a empregada. O olhar não é mais vazio. Lança faíscas de ódio.

– O senhor pediu e eu fiz. Mas sabia que não ia ficar bom requentado.

Dali a dois dias, ela some. Avisa que a irmã está doente. Vai fazer café, e o pó acabou. Não há uma camisa de colarinho sequer. No caminho, deixa todas na lavanderia. Chega atrasado. Ao voltar, o apartamento está com cheiro de fechado, úmido, por causa das chuvas. As meias sujas brotam do tapete como cogumelos. Faz uma maleta às pressas e, no dia seguinte, sai mais cedo do expediente para se refugiar na praia.

As crianças gritam, como previa. A cozinha tem salsichas espalhadas para todo lado. A mulher pede ajuda. Ele reclama:

– Ei, afinal você está de férias e eu no batente.

Uma breve discussão, em que ela garante preferir extrair mármore de uma pedreira a passar férias sem levar a doméstica. Ele retruca:

– E agora vou gastar dinheiro em praia para empregada? Pensa que a grana cai do céu?

De noite, caem na cama exaustos. Ouve de longe o barulhinho das crianças cochichando no quarto, antes de dormir. Respira fundo e descobre. Mal passou uma semana e já está morrendo de saudade da boa vida de casado!

 

 

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