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29 de junho de 2005
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A ciranda das Tops

Da Lumière para a Mega. Da Elite para
a Marilyn. Da Wired para a IMG. Da Mega
para a Ten. É a dança das cadeiras das
modelos, que batalham para conseguir
contratos gordos, ganhar projeção e tirar
proveito da crescente concorrência entre
as agências no período que antecede
a São Paulo Fashion Week

Lúcia Monteiro

 
Mario Rodrigues
As apostas da temporada: chamadas de new faces, essas modelos novatas foram selecionadas por Paulo Borges, o organizador da SPFW, para desfilar com cachês pagos por um patrocinador do evento. No sentido horário: Franciele Fritsche (de blusa rosa com a inscrição "Tô nem aí"), Karine Murie, Cinthia Heinzen, Amanda Santos, Erica Baade, Rebecca Gobbi, Marina Dreux, Stefani Lago e Patrícia Boldt



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- Agora um look bem mulherão. Isso, sorrindo. Mão na cintura. E pode requebrar um pouco.
Quem dá as instruções é Namie Wihby, 36 anos, magro, cabelos castanhos espetados e escarpim de oncinha com salto de 10 centímetros. Professor da escola Wannabe, ele prepara as estreantes das passarelas. Para esta edição da São Paulo Fashion Week, que começa na terça (28), Wihby ensinou 41 new faces a andar de salto alto. Com idade entre 12 e 18 anos, as meninas foram selecionadas por Paulo Borges, o organizador da SPFW, para formar o que ele chama de "dream team". Elas terão os cachês pagos por um dos patrocinadores do evento, e as grifes não desembolsarão nem um tostão para escalá-las. Além de caminharem quilômetros durante as aulas de passarela, as novatas passam por cabeleireiros, aprendem noções de etiqueta e dão duro em dezenas de testes. O objetivo é entrar no maior número possível de desfiles. Daqui a cinco anos, porém, no máximo duas delas poderão ser chamadas de top models. A maioria não vinga. Engorda, quer estudar, não agüenta ficar longe da família ou seu tipo de beleza simplesmente sai de moda.

 

André Nazareth
A top Ana Beatriz Barros: depois de passar pela Elite e pela Mega, ela fechou com a Lumière, inaugurada neste ano por seu cunhado, o francês Olivier Daube

Por isso, quando encontram um rosto promissor, as agências fazem de tudo para segurá-lo. Afinal, uma modelo de sucesso e com uma carreira longa significa milhões e milhões de reais para os cofres de quem detém seu passe. A concorrência logo cresce o olho. Ainda mais quando é véspera de Fashion Week. Olha só o que aconteceu na semana retrasada. No meio de mais de 100 adolescentes vindas de todo o Brasil para a seleção das tais new faces, Eli Wahbe, dono da Mega, encantou-se com a catarinense Marcella von Oerding. Dezesseis anos, olhos azuis, 1,76 metro, ela era contratada da Lumière, aberta há três meses nos Jardins. Isso não intimidou Wahbe. Ele descobriu o telefone da mãe da menina em Florianópolis e começou uma árdua negociação para conquistá-la. Pagou passagem de avião para Hirnia Wanderley até São Paulo, instalou-a num hotel de primeira linha e tratou de convencê-la a lhe ceder a filha. Contratempo básico: a menina não aprovou o plano. Pois à noite, acompanhada de dois seguranças, Hirnia entrou no apartamento da Lumière decidida a buscar Marcella.

 

Mario Rodrigues
Fidelidade há nove anos: Carol Ribeiro começou sua carreira em 1996 com Zeca de Abreu, que era booker da Elite, e o seguiu para a filial paulistana da francesa Marilyn, em 1998

O que se seguiu foi uma clássica cena de birra adolescente. Com direito a choro, ameaças ("Você não é mais minha mãe!") e até um certo embate físico. "Dei duas opções a Marcella: tu mudas para a Mega ou voltas comigo para Floripa", conta Hirnia. A contragosto, a modelo aceitou a troca. Como devia 2.000 reais à Lumière, que lhe adiantara o dinheiro da vinda para São Paulo, de ônibus, além de um mês e meio de hospedagem, Marcella teve de deixar sua mala com todas as roupas no apartamento da agência como garantia. Logo em seguida, o dono da Mega comprou-lhe roupas novas no Bom Retiro, reservou um quarto exclusivo num flat e prometeu um aquário com peixes de presente. "Ela tem potencial para ser uma top, é a cara da Isabeli Fontana", diz Wahbe. Aliás, para fisgar Isabeli, que agora é a segunda do mundo de acordo com o site americano models.com, ele valeu-se do mesmo expediente. Isabeli saiu da Elite por pressão da mãe (Wahbe teria pago 4.500 reais pelo passe de sua filha, nove anos atrás). "Eu era muito ligada ao Zeca de Abreu, meu booker na época, e às minhas amigas da Elite", diz Isabeli. "Mas o Eli conseguiu me convencer." Foi um ótimo negócio. Hoje, a top cobra 30.000 reais por desfile e até 1 milhão de reais por campanha.

 

Mario Rodrigues
Gianne Albertoni andava em baixa na Elite, mas Bruno Soares, dono da Wired, resolveu contratá-la mesmo assim em 2002. Há um ano, ela se tornou garota-propaganda do Shopping Iguatemi. Com o corpão impecável, vai desfilar de biquíni e cobrir o evento para um canal de TV

A briga por Marcella von Oerding (que irá receber um cachê de 400 reais por desfile da Fashion Week) é um retrato da elevada temperatura que esse mercado atingiu ultimamente. "A concorrência nunca foi tão forte", avalia Liliana Gomes, uma das donas da escola Wannabe. Do ano passado para cá, surgiram ao menos três novas empresas para esquentar a disputa: Lumière, Ten e One. As agências atuam como intermediárias e, assim, ganham duas vezes. Quem contrata deve pagar 20% de comissão. A modelo, por sua vez, dá outros 20% de seu cachê à agência-mãe. Dependendo do poder de barganha, algumas conseguem reduzir esse porcentual, mas é difícil. A briga é parecida com a disputa entre clubes por jogadores de futebol. Com a diferença de que, no mundinho da moda, o vaivém é facilitado por um detalhe: a maioria das modelos nem sequer faz contrato. Elas pedem demissão quando bem entendem.

Mario Rodrigues
Laura Vieira (à esq.) trabalhou por sete anos na Mega. Ao abrir a Ten, em janeiro, arrastou Marcelle Bittar. Vantagens: a posição de número 1 na agência e um pôster na entrada


"Quero que trabalhem comigo por escolha própria", diz o francês Olivier Daube, ex-diretor da Elite, que abriu a Lumière há três meses. "Não compartilho os mesmos valores do pessoal da Mega e nunca vou comprar ninguém." Daube perdeu Marcella para a Mega, mas tirou da Elite bookers (profissionais responsáveis por marcar os trabalhos de cada modelo) e assessores, além das tops Raica Oliveira, Adriana Lima e Ana Beatriz Barros, sua cunhada, responsável por um faturamento de 5 milhões de reais por ano. "O desfalque não foi tão grande assim. Em duas semanas a gente já estava com todos os quadros preenchidos de novo", afirma Renato Sproviero Jr., booker da Elite.

Outra concorrente que tem causado tumulto e ciumeira é a Ten, aberta em janeiro por Décio Ribeiro, também sócio da tradicional Ford Models. Laura Vieira, a diretora do negócio, trabalhou sete anos como booker da Mega. Não foi difícil continuar com Raquel Zimmermann e Marcelle Bittar na agência nova. "É natural a modelo seguir a booker. Além do mais, eu e a Marcelle somos muito amigas", diz Laura. Pelo poder que exercem sobre essas mulheres belas e valiosas, os bookers podem ganhar mais de 6.000 reais por mês, com comissões. Mas não é só a amizade que conta. Na Mega, Marcelle não era o nome principal. Vivia à sombra de Isabeli Fontana e Ana Hickmann. Ao se mudar para a Ten, tornou-se imediatamente a número 1 e mereceu um pôster com sua imagem na entrada do escritório, no Itaim.

 

André Schiliró
Conhecida no mundinho como empresária de Gisele Bündchen, Mônica Monteiro (à esq.) ganhou a direção da IMG Brasil: credencial para atrair talentos como o de Letícia Birkheuer

Com Gisele Bündchen a história foi parecida. Em 1999, Gisele trocou a Elite pela IMG, mas manteve a parceria com Mônica Monteiro, que era sua booker. Mônica tornou-se sua empresária na transição e, por causa da übermodel, assumiu o cargo de diretora da IMG no Brasil. Não se contentou só com ela. Dois meses atrás, pegou Michelle Alves, que estava na Marilyn. Antes, havia fisgado Letícia Birkheuer, da Mega. Michelle, Letícia, Isabeli, Ana Beatriz e Adriana, que têm rendimentos acima de 2 milhões de reais por ano, são as galinhas dos ovos de ouro de seus agentes. Isso para não falar de Gisele, que fatura mais de 20 milhões de reais por ano e é capaz de sustentar sozinha qualquer uma dessas empresas.

Heueds Régis

Eli Wahbe, dono da Mega, entre Marcella von Oerding (à esq.) e Isabeli Fontana: para fisgar modelos promissoras, ele tenta conquistar as mães. Se a menina for realmente linda, vale tudo – argumentação, promessas, passagens aéreas e diárias em hotéis de primeira


Além de organizar compromissos e promover as modelos, os bookers também funcionam como conselheiros sentimentais. "Quando são rejeitadas num trabalho, elas ficam com a auto-estima lá embaixo e precisam de um apoio afetivo", explica Sonny Anderson, da Marilyn. "Nunca desligo o celular e, no fim de semana, às vezes vou com elas ao cinema." Mas o essencial mesmo é ser um cão de guarda. Ou seja, não deixá-las sozinhas em castings – seleções em que os estilistas escolhem quem desfilará para sua marca. Como ali se encontram representantes de todo o mercado, é o lugar propício para investidas das raposas concorrentes. Bobeou, dançou.

 

 

Eles não largam dos pés delas

 
Heudes Régis
O motorista Joel Sartori, da Mega, roda 150 quilômetros por dia com oito meninas a bordo de seu Doblò, seja para fazer compras, seja para participar de um teste. "Minha mulher liga no celular o tempo todo só para me vigiar"
Fotos Mario Rodrigues
A psicóloga Paula Slemian (à dir.) com Nathalie Paola, da Ten: "Muitas têm problema de auto-estima. Acham que são gordas e feias, acredita?"
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Sonny Anderson, booker da Marilyn: "Ajudo em crises de solidão de madrugada e levo as meninas para o cinema"
Renata Ursaia
Nada de refrigerante nem de sair depois das 8 da noite: a governanta Maria d'Ajuda põe ordem no apê da Lumière

     
   
 
 
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