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MODA
A ciranda das Tops Da Lumière para a Mega. Da Elite
para a Marilyn. Da Wired para a IMG. Da Mega para a Ten. É a dança
das cadeiras das modelos, que batalham para conseguir contratos gordos,
ganhar projeção e tirar proveito da crescente concorrência
entre as agências no período que antecede a São Paulo
Fashion Week Lúcia Monteiro Mario
Rodrigues
 | | As
apostas da temporada: chamadas de new faces, essas modelos novatas foram selecionadas
por Paulo Borges, o organizador da SPFW, para desfilar com cachês pagos
por um patrocinador do evento. No sentido horário: Franciele Fritsche (de
blusa rosa com a inscrição "Tô nem aí"), Karine
Murie, Cinthia Heinzen, Amanda Santos, Erica Baade, Rebecca Gobbi, Marina Dreux,
Stefani Lago e Patrícia Boldt |
- Agora um look bem mulherão.
Isso, sorrindo. Mão na cintura. E pode requebrar um pouco. Quem dá
as instruções é Namie Wihby, 36 anos, magro, cabelos castanhos
espetados e escarpim de oncinha com salto de 10 centímetros. Professor
da escola Wannabe, ele prepara as estreantes das passarelas. Para esta edição
da São Paulo Fashion Week, que começa na terça (28), Wihby
ensinou 41 new faces a andar de salto alto. Com idade entre 12 e 18 anos,
as meninas foram selecionadas por Paulo Borges, o organizador da SPFW, para formar
o que ele chama de "dream team". Elas terão os cachês pagos por um
dos patrocinadores do evento, e as grifes não desembolsarão nem
um tostão para escalá-las. Além de caminharem quilômetros
durante as aulas de passarela, as novatas passam por cabeleireiros, aprendem noções
de etiqueta e dão duro em dezenas de testes. O objetivo é entrar
no maior número possível de desfiles. Daqui a cinco anos, porém,
no máximo duas delas poderão ser chamadas de top models. A maioria
não vinga. Engorda, quer estudar, não agüenta ficar longe da
família ou seu tipo de beleza simplesmente sai de moda. André
Nazareth
 | | A
top Ana Beatriz Barros: depois de passar pela Elite e pela Mega, ela fechou com
a Lumière, inaugurada neste ano por seu cunhado, o francês Olivier Daube |
Por isso, quando encontram um rosto promissor, as agências fazem de tudo
para segurá-lo. Afinal, uma modelo de sucesso e com uma carreira longa
significa milhões e milhões de reais para os cofres de quem detém
seu passe. A concorrência logo cresce o olho. Ainda mais quando é
véspera de Fashion Week. Olha só o que aconteceu na semana retrasada.
No meio de mais de 100 adolescentes vindas de todo o Brasil para a seleção
das tais new faces, Eli Wahbe, dono da Mega, encantou-se com a catarinense
Marcella von Oerding. Dezesseis anos, olhos azuis, 1,76 metro, ela era contratada
da Lumière, aberta há três meses nos Jardins. Isso não
intimidou Wahbe. Ele descobriu o telefone da mãe da menina em Florianópolis
e começou uma árdua negociação para conquistá-la.
Pagou passagem de avião para Hirnia Wanderley até São Paulo,
instalou-a num hotel de primeira linha e tratou de convencê-la a lhe ceder
a filha. Contratempo básico: a menina não aprovou o plano. Pois
à noite, acompanhada de dois seguranças, Hirnia entrou no apartamento
da Lumière decidida a buscar Marcella. Mario
Rodrigues
 | | Fidelidade
há nove anos: Carol Ribeiro começou sua carreira em 1996 com Zeca de Abreu, que
era booker da Elite, e o seguiu para a filial paulistana da francesa Marilyn,
em 1998 |
O que se seguiu foi uma clássica
cena de birra adolescente. Com direito a choro, ameaças ("Você não
é mais minha mãe!") e até um certo embate físico.
"Dei duas opções a Marcella: tu mudas para a Mega ou voltas comigo
para Floripa", conta Hirnia. A contragosto, a modelo aceitou a troca. Como devia
2.000 reais à Lumière, que lhe adiantara o dinheiro da vinda para
São Paulo, de ônibus, além de um mês e meio de hospedagem,
Marcella teve de deixar sua mala com todas as roupas no apartamento da agência
como garantia. Logo em seguida, o dono da Mega comprou-lhe roupas novas no Bom
Retiro, reservou um quarto exclusivo num flat e prometeu um aquário com
peixes de presente. "Ela tem potencial para ser uma top, é a cara da Isabeli
Fontana", diz Wahbe. Aliás, para fisgar Isabeli, que agora é a segunda
do mundo de acordo com o site americano models.com, ele valeu-se do mesmo expediente.
Isabeli saiu da Elite por pressão da mãe (Wahbe teria pago 4.500
reais pelo passe de sua filha, nove anos atrás). "Eu era muito ligada ao
Zeca de Abreu, meu booker na época, e às minhas amigas da Elite",
diz Isabeli. "Mas o Eli conseguiu me convencer." Foi um ótimo negócio.
Hoje, a top cobra 30.000 reais por desfile e até 1 milhão de reais
por campanha. Mario
Rodrigues
 | | Gianne
Albertoni andava em baixa na Elite, mas Bruno Soares, dono da Wired, resolveu
contratá-la mesmo assim em 2002. Há um ano, ela se tornou garota-propaganda do
Shopping Iguatemi. Com o corpão impecável, vai desfilar de biquíni e cobrir o
evento para um canal de TV |
A briga por
Marcella von Oerding (que irá receber um cachê de 400 reais por desfile
da Fashion Week) é um retrato da elevada temperatura que esse mercado atingiu
ultimamente. "A concorrência nunca foi tão forte", avalia Liliana
Gomes, uma das donas da escola Wannabe. Do ano passado para cá, surgiram
ao menos três novas empresas para esquentar a disputa: Lumière, Ten
e One. As agências atuam como intermediárias e, assim, ganham duas
vezes. Quem contrata deve pagar 20% de comissão. A modelo, por sua vez,
dá outros 20% de seu cachê à agência-mãe. Dependendo
do poder de barganha, algumas conseguem reduzir esse porcentual, mas é
difícil. A briga é parecida com a disputa entre clubes por jogadores
de futebol. Com a diferença de que, no mundinho da moda, o vaivém
é facilitado por um detalhe: a maioria das modelos nem sequer faz contrato.
Elas pedem demissão quando bem entendem.
Mario
Rodrigues
 | | Laura
Vieira (à esq.) trabalhou por sete anos na Mega. Ao abrir a Ten,
em janeiro, arrastou Marcelle Bittar. Vantagens: a posição de número
1 na agência e um pôster na entrada |
"Quero
que trabalhem comigo por escolha própria", diz o francês Olivier
Daube, ex-diretor da Elite, que abriu a Lumière há três meses.
"Não compartilho os mesmos valores do pessoal da Mega e nunca vou comprar
ninguém." Daube perdeu Marcella para a Mega, mas tirou da Elite bookers
(profissionais responsáveis por marcar os trabalhos de cada modelo) e assessores,
além das tops Raica Oliveira, Adriana Lima e Ana Beatriz Barros, sua cunhada,
responsável por um faturamento de 5 milhões de reais por ano. "O
desfalque não foi tão grande assim. Em duas semanas a gente já
estava com todos os quadros preenchidos de novo", afirma Renato Sproviero Jr.,
booker da Elite. Outra concorrente que tem causado
tumulto e ciumeira é a Ten, aberta em janeiro por Décio Ribeiro,
também sócio da tradicional Ford Models. Laura Vieira, a diretora
do negócio, trabalhou sete anos como booker da Mega. Não foi difícil
continuar com Raquel Zimmermann e Marcelle Bittar na agência nova. "É
natural a modelo seguir a booker. Além do mais, eu e a Marcelle somos muito
amigas", diz Laura. Pelo poder que exercem sobre essas mulheres belas e valiosas,
os bookers podem ganhar mais de 6.000 reais por mês, com comissões.
Mas não é só a amizade que conta. Na Mega, Marcelle não
era o nome principal. Vivia à sombra de Isabeli Fontana e Ana Hickmann.
Ao se mudar para a Ten, tornou-se imediatamente a número 1 e mereceu um
pôster com sua imagem na entrada do escritório, no Itaim. André
Schiliró
 | | Conhecida
no mundinho como empresária de Gisele Bündchen, Mônica Monteiro
(à esq.) ganhou a direção da IMG Brasil: credencial para
atrair talentos como o de Letícia Birkheuer |
Com Gisele Bündchen a história foi parecida. Em 1999, Gisele trocou
a Elite pela IMG, mas manteve a parceria com Mônica Monteiro, que era sua
booker. Mônica tornou-se sua empresária na transição
e, por causa da übermodel, assumiu o cargo de diretora da IMG no Brasil.
Não se contentou só com ela. Dois meses atrás, pegou Michelle
Alves, que estava na Marilyn. Antes, havia fisgado Letícia Birkheuer, da
Mega. Michelle, Letícia, Isabeli, Ana Beatriz e Adriana, que têm
rendimentos acima de 2 milhões de reais por ano, são as galinhas
dos ovos de ouro de seus agentes. Isso para não falar de Gisele, que fatura
mais de 20 milhões de reais por ano e é capaz de sustentar sozinha
qualquer uma dessas empresas.
Heueds
Régis
 | Eli
Wahbe, dono da Mega, entre Marcella von Oerding (à esq.)
e Isabeli Fontana: para fisgar modelos promissoras, ele tenta conquistar
as mães. Se a menina for realmente linda, vale tudo argumentação,
promessas, passagens aéreas e diárias em hotéis
de primeira |
Além de organizar
compromissos e promover as modelos, os bookers também funcionam como conselheiros
sentimentais. "Quando são rejeitadas num trabalho, elas ficam com a auto-estima
lá embaixo e precisam de um apoio afetivo", explica Sonny Anderson, da
Marilyn. "Nunca desligo o celular e, no fim de semana, às vezes vou com
elas ao cinema." Mas o essencial mesmo é ser um cão de guarda. Ou
seja, não deixá-las sozinhas em castings seleções
em que os estilistas escolhem quem desfilará para sua marca. Como ali se
encontram representantes de todo o mercado, é o lugar propício para
investidas das raposas concorrentes. Bobeou, dançou. |