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CRÔNICA Bons
olhos Ivan Angelo De
um dia para o outro percebo a cidade mais clara. O ar mais limpo, os prédios
mais brancos, a luz mais intensa, as cores mais vivas, o verde das árvores
mais luminoso. Como se a paisagem tivesse sido lavada. Mudou como um automóvel
que vemos entrar e sair do lava-a-jato. Da minha janela, voltada para o oeste,
distingo morros ao longe, em seqüência, bem para lá do Pico
do Jaraguá, para os lados de Jundiaí.
Explico: fiz uma cirurgia de catarata, substituí o cristalino avariado
dos olhos por lentes implantadas e constato que uma parte da poluição
da cidade, daquela névoa de tom sépia que dava à paisagem
da minha janela uma aparência de foto antiga, era dos meus próprios
olhos. A fuligem era minha. A língua portuguesa
tem uma expressão que agora ficou mais rica para mim: "ver com bons olhos".
Significa concordar, apoiar, receber bem uma coisa, um fato. Vejo com bons olhos
a saída do ministro Fulano. Vejo com bons olhos o namoro de vocês.
Bons olhos são pró, a favor. A expressão não indica
apenas a simpatia do olhar, ou olhar com aprovação, boa vontade.
Indica também que aquilo que se vê com bons olhos se revela, mostra
o que tem de bom. Há aí embutida uma alusão à qualidade
do olhar, ao enxergar melhor. Com bons olhos, o mundo melhora. "Bons
olhos o vejam!" se diz (ou se dizia, pois a língua vai perdendo
poeira pelo caminho, como os cometas) a uma pessoa querida que não se vê
há algum tempo. Quando dizemos que alguém "tem um bom olho" significa
que é perspicaz, sabe das coisas, enxerga longe, tem talento para negócios,
visão. Quem tem "olho clínico" acerta o ponto, enxerga exatamente
o que é relevante. E o outro lado? "Ele
não me vê com bons olhos" é o mesmo que "não gosta
de mim". O pessimista e o mal-humorado vêem com maus olhos. É verdade
que os olhos quando melhoram enxergam pequenos defeitos que antes não eram
percebidos. Ah, se são mesmo pequenos os defeitos, que bons olhos os vejam.
Em conversa com o oftalmologista, viajamos eu e
ele para um futuro sem óculos. Ai de mim, na última vez que toquei
no assunto óculos, há cinco anos, ousei dizer que eram jurássicos
e recebi uma saraivada de mensagens ofendidas do mercado óptico. Que havia
nessa área uma lentidão tecnológica, eu dizia, o avanço
não fora grande coisa nos 750 anos da invenção. Vários
problemas. Os de acrílico são facilmente riscados, os de cristal
partem-se quando caem, a visão com o rabo do olho é sempre ruim,
as hastes e o apoio desajustam-se com o uso, as lentes ficam embaçadas
com o suor e também quando se desliga o ar-condicionado do carro, namorar
é complicado pois antes de você tirar os óculos a maquiagem
da parceira ou a pele do parceiro já embaçaram as lentes, crianças
adoram pegá-los, arreganhá-los, babá-los, lambê-los,
chuva vira um transtorno maior para quem não pode andar sem eles, a gente
vive procurando-os em casa ou no escritório ("Alguém viu onde eu
deixei meus óculos?") ou eles se perdem definitivamente.
Eu e o doutor falávamos de um mundo que se avizinha, o das lentes implantadas,
ou intra-oculares, LIOs, como eles chamam. E tínhamos a certeza de que
assim que se tornassem inúteis os óculos virariam enfeite, um adereço
da moda, um luxo. |