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29 de junho de 2005
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Chamando o doutor Ratão

A prefeitura convoca o veterinário
Angelo Boggio, o maior especialista
em ratos de São Paulo, para acabar
com esses roedores no centro

Rodrigo Brancatelli

Mario Rodrigues
Angelo Boggio: "Não tem segredo. Precisamos eliminar água, comida e esconderijos dos bichos"


O andar só não é mais vagaroso que a conversa, sempre entremeada de longos suspiros, pausas para coçar os cabelos grisalhos ou tragadas nos inseparáveis cigarros. De bengala na mão, o veterinário Angelo Boggio passa boa parte do dia contando histórias mirabolantes, fazendo piadas com seu carregado sotaque do norte da Itália e dando conselhos sobre todo e qualquer tipo de assunto a seus colegas no escritório central da Companhia do Metropolitano de São Paulo, em Cerqueira César. Poucos dos que convivem com ele sabem, no entanto, que aquela simpática figura de 66 anos é um dos maiores exterminadores de ratos de São Paulo. Profissional com especialização em higiene ambiental, Baggio conhece tudo sobre esses bichos asquerosos, desde o formato de suas pegadas, sua refeição preferida até seus esconderijos mais utilizados. "Meu trabalho é um verdadeiro jogo de xadrez", diz o veterinário, cuja reputação lhe rendeu o apelido de "doutor Ratão". "Não preciso ser forte ou jovem para caçar ratos. Tutto de que necessito está bem aqui, na minha cabeça."

Boggio trabalha nas tubulações do metrô há trinta anos. É o responsável por manter os roedores longe das estações. E vem desenvolvendo um bom trabalho. Impressionado com a fama do doutor Ratão, o subprefeito da Sé, Andrea Matarazzo, resolveu convidá-lo para acabar com os ratos da região central da cidade. O plano de ataque já está pronto. "Não tem segredo, os bichinhos precisam de água, comida e esconderijo para sobreviver", diz ele, que se especializou em higiene ambiental na Hungria e na Alemanha. "Se você retirar algum pilar dessa tríade, eles somem." Boggio pretende fazer um trabalho de educação para que a população se preocupe mais com a limpeza, principalmente entre os vendedores ambulantes. "Se der certo, quero ampliar para a città inteira." Segundo o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), a città, ou melhor, a cidade, estaria de fato precisando dos préstimos do doutor Ratão. O CCZ estima que existiriam cerca de 160 milhões de ratos em São Paulo, uma média de quinze por habitante. Em Nova York, conhecida pela superpopulação de ratazanas, esse índice seria de "apenas" sete por habitante.

As três espécies mais numerosas são aquelas que vivem nos esgotos, nos depósitos e nas ruas das cidades – a ratazana (Rattus norvegicus), o rato de telhado (Rattus rattus) e o camundongo (Mus musculus). São responsáveis por muitos problemas. O hábito de roer cabos causaria 31% dos rompimentos da rede elétrica e 20% dos danos em linhas telefônicas. Mais preocupantes são as 55 doenças possivelmente transmissíveis, como leptospirose e peste bubônica. Somente neste ano os hospitais paulistanos já registraram noventa casos de leptospirose, principalmente depois de enchentes. "É um problema de saúde pública", diz Boggio, entre uma baforada e uma pausa para reflexão coçando a cabeça.

Ele tem algumas dicas para quem sofre com a presença de parentes do Mickey em sua casa. Queijo na ratoeira, por exemplo, é uma lenda tão furada quanto a inimizade entre ratos e gatos. As melhores iscas são milho cru, toucinho defumado e chocolate – isso mesmo, os ratos também são chocólatras. Outra sugestão é colocar alimentos em potes fechados (eliminar a comida), acabar com as goteiras (água) e se livrar do entulho que estiver ocupando espaço em quintais ou despensas (esconderijos). Mas é impossível acabar com todos os bichos. "Eles fazem parte do equilíbrio ambiental", afirma o doutor Ratão. "Na minha chácara, os escorpiões matam e comem os ratos. As galinhas, por sua vez, comem os escorpiões. E eu janto as galinhas! É a vita!"

 

Uma praga urbana

• Pelas estimativas do Centro de Controle de Zoonoses, existiriam na cidade de São Paulo quinze ratos por habitante. Seria uma população de 160 milhões de roedores. Não há como comprovar esse cálculo. Na Suíça, o número não passa de 0,5 per capita. Nos Estados Unidos, de dois.  

• Quando adulto, um rato pode atingir 50 centímetros de comprimento e pesar quase 1 quilo.  

• Um casal de ratos é capaz de ter mais de 200 filhotes em um ano.  

• Pequenos, ágeis e extremamente flexíveis, os ratos conseguem entrar em tubulações inacessíveis até a máquinas especiais. Acabam ajudando na limpeza e escoamento de esgoto. Se fossem totalmente exterminados, a cidade sofreria com canos entupidos.  

• A cada ano, cerca de 1 500 pessoas são mordidas por ratos em São Paulo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, eles transmitem 55 doenças, direta ou indiretamente.  

• Somente neste ano os hospitais paulistanos já registraram noventa casos de leptospirose.  

• 45% dos incêndios de origem desconhecida, 31% dos rompimentos da rede elétrica e 20% dos danos em linhas telefônicas são atribuídos a ratos.

• Os ratos têm neofobia, ou seja, fobia ao novo. Quando entram em contato com objetos ou alimentos recém-introduzidos em sua área, enviam os doentes e os idosos de seu grupo para testar o produto. Por isso, nenhum novo raticida – ou nova ratoeira – tem efeito fulminante.

     
   
 
 
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