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29 de maio de 2002
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DECORAÇÃO

Casarão Cor

Ex-orfanato no Pacaembu abriga
a maior edição
da vitrine de arquitetura,
móveis e paisagismo

Marcella Centofanti


Fotos Leo Feltran
O misterioso prédio que já serviu de abrigo para crianças da Febem abre seu portão ao público pela primeira vez: dentro, há tendências como as raias de natação, presentes em quatro dos 89 ambientes (este é de Gilberto Elkis)

Quando foi fechado, em 1996, o orfanato do bairro do Pacaembu estava em petição de miséria. Com a pintura descascada, vidraças quebradas e madeiras devoradas por cupins, nem parecia o imponente imóvel projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo no fim do século XIX e tombado pelo Condephaat. Há dois meses, o decadente e quase inacessível prédio começou a ser restaurado para receber a maior edição da Casa Cor, principal vitrine da decoração no país. Será aberto nesta terça-feira (28) pela primeira vez ao público. Obras de arte, antiguidades, móveis com design contemporâneo e vestidos assinados pelo estilista Giorgio Armani ocuparão o espaço de 46 130 metros quadrados, transformado em cenário de um condomínio de luxo, com apartamentos, biblioteca, salão de festas, fumódromo, lavanderia, cozinhas e um barco. Pelos 89 ambientes, 122 arquitetos, decoradores e paisagistas exibem estilos diversos, egos infladíssimos e muita criatividade.


Brunete Fraccaroli assumiu seu apelido e expõe 120 bonecas Barbie no "apartamento da jovem executiva": roupinhas desenhadas por Clodovil, Glória Coelho e Alexandre Herchcovitch Nove das treze peças assinadas por Giorgio Armani, exibidas por Léo Shehtman, fizeram parte da exposição no Guggenheim de Nova York: à frente, um vestido criado para Claudia Cardinale

Nos corredores, a polêmica é a de sempre: quem ficou com os ambientes mais requisitados. Quando são convidados, os profissionais elegem três espaços em que gostariam de trabalhar. Nem sempre conseguem o que desejam. Os organizadores não dão conta de atender a todos os pedidos porque nove entre dez arquitetos querem o living ou o quarto do casal. Os critérios de desempate são experiência e histórico na Casa Cor. É aí que surgem os conflitos. No ano passado, Roberto Migotto se recusou a assumir o restaurante e ficou de fora. Queria o living, entregue a Jorge Elias. Desta vez se satisfez com o "apartamento do casal sênior" (os ambientes ganham sempre nomes desse tipo).

A volta mais aguardada deste ano é a da estrela Sig Bergamin. Ele não aceitou o convite para participar da última mostra por causa de um desentendimento em 2000, quando montou o "loft do deficiente físico". Bergamin, com toda a razão, ficou indignado ao ver que os organizadores haviam simplesmente esquecido de colocar no tal loft as rampas de acesso para cadeiras de rodas. Agora, criou o restaurante, um dos ambientes mais interessantes do evento. Nele serão servidos os almoços, comandados pelo bufê Badebec. A decoração tem influências árabes e indianas, com um toque inglês, nove espelhos venezianos e franceses do século XIX, três lustres e treze vasos de cristal Baccarat e nove luminárias. Juntas, as antiguidades somam cerca de 750.000 dólares, segundo Bergamin. Figuras do Kama Sutra estão expostas nas paredes do fundo. Ao lado do restaurante, há o lavabo de Elisabete Primati. Muito bonitinho, mas pouco prático: o gabinete sanitário destinado às mulheres é aberto na parte superior e tem um vão exposto na altura dos pés, impedindo que seja usado com a necessária privacidade.

 
De volta à Casa Cor após dois anos, Sig Bergamin projetou um dos espaços mais ousados do evento: influência árabe, indiana e inglesa no restaurante, que tem antiguidades avaliadas em 750 000 dólares e quadros do Kama Sutra

Quase tão original quanto o restaurante é o "estúdio do estilista", de Léo Shehtman. Ele reúne treze roupas de Giorgio Armani, nove das quais participaram da exposição realizada no Guggenheim de Nova York, quase dois anos atrás, em comemoração aos 25 anos da grife. Entre os destaques estão vestidos usados pelas atrizes Sophia Loren e Claudia Cardinale, estimados em até 90.000 reais. Estilistas brasileiros, como Glória Coelho, Alexandre Herchcovitch e Clodovil, estão presentes em forma de miniatura. Eles inventaram roupinhas para várias das 120 bonecas Barbie que ajudam a decorar o "apartamento da jovem executiva". Fazem parte da coleção particular da arquiteta Brunete Fraccaroli, apelidada justamente de Barbie pelos concorrentes. Parte delas foi penteada pelo cabeleireiro Wanderley Nunes e calçada por Fernando Pires.

 
Estreante na mostra paulistana, o baiano David Bastos usou truques como móveis baixos e luz indireta para deixar o "estúdio do esportista" menos claustrofóbico: clima aconchegante Maria Antonia Magalhães e Marina Teixeira decoraram a lavanderia com padrão americano: livros, jogo-da-velha e computadores para se distrair enquanto as máquinas cuidam de tudo

Raias de natação, um dos modismos do momento no mundo da arquitetura, estão presentes em quatro ambientes. A mais impressionante é a do spa projetado pelo paisagista Gilberto Elkis, com 2,20 metros de largura por 12,70 de comprimento. Fica no centro de um jardim contemporâneo, com Jacuzzi, cama para massagens e plantas exóticas. Outra grande atração é a capela, que coube a Gil Carvalho. Ela abrigará concertos diários de música sacra, corais e orquestra de câmara. Quem já pagou a entrada desembolsa apenas mais 1 real para assistir às apresentações.

 
Casa Cor 2002, Rua Angatuba, 756, Pacaembu, 3034-3707. Terça a domingo, 12h às 21h. R$ 1,00 (crianças de 6 a 10 anos), R$ 10,00 (estudantes), R$ 15,00 (pessoas com mais de 60 anos) e R$ 20,00. Grátis para menores de 6 anos. Até 9 de julho. A partir de terça (28). Estac. (R$ 10,00). www.casacor.com.br.

         
     
 
 
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