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CRÔNICA
Ser
avô
O
preparo psicológico para
assumir uma nova missão
Ivan
Angelo
Estou
me preparando para ser avô. É necessário, por
sutis motivos.
Hoje
em dia a gente é avô com certa antecedência.
Não que os filhos se antecipem, não é isso.
Antigamente, sabia-se que a filha ou a nora estava grávida,
o bebê formava-se em lento e invisível acrescentar-se,
percebia-se seu progresso traduzido em volume, sentiam-se seus primeiros
movimentos, e isso era tudo, até que o nascimento revelava
o resto e, de quebra, produzia os avós. Hoje, não.
Aparelhos de última geração nos permitem ver
o neto não uma forma indefinida, e não o bebê,
o feto, mas ele, o netinho lá dentro da barriga. É
um espanto. Vi as imagens e, imediatamente, tornei-me avô.
Inconsciente
das emoções que provocava, o médico mostrava
em detalhes o paciente trabalho da natureza, os lábios, os
olhos, o cérebro, os dedinhos de cada mão, a coluna
arqueada, a nuca, os pezinhos epa! um se distende como se
ele fizesse alongamento! , o coração batendo
veloz, o pipizinho, a bexiga cheia... O exame deu à luz um
avô.
Procuro
adaptar-me ao papel. Primeiro, situar-me, sem modelo. O avô
que conheci envolvi numa névoa de pitoresco: ele trazia um
saco de laranjas da chácara onde morava, dava risadas compridas,
cheirava rapé, rezava o terço em voz altíssima,
antes de dormir, e esbravejava à toa. Pretendo ser um avô
mais gostoso.
Tenho
pensado no todo dessa missão. Com relação aos
pais do netinho, não deve o avô ser ostensivo. Melhor
manter uma posição que no futebol se costuma chamar
de "sobra". Se for preciso, ele está lá, na sobra.
Não se pense que é uma função folgada,
porque jogador na sobra não pode falhar.
Limites.
Evitar muito palpite. Nada tão reservado que pareça
distância nem tão manifesto que insinue invasão.
Os filhos já não são filhos, no sentido de
ouvir, se é que me entendem. São vontades, opiniões,
escolhas, decisões à espera de cumplicidade. Opinião
de avô valerá mais por vir da experiência? Ou
menos, por escudar-se em receios? Melhor acatar as idéias
dos moços, a não ser em caso de desastre iminente.
Certos
pais exercem a paternidade corrigindo o pai que tiveram, lapidando
a figura ideal, procurando dar o que não receberam quando
eram crianças. Por sua vez, certos avós procuram dar
ao neto o que não tiveram tempo de dar aos filhos, e se derretem
de amores. Corrigem-se, docemente culpados. Outros, sem falsa modéstia,
querem mais é reviver. Não têm a pretensão
de ter sido perfeitos com os filhos, longe disso, mas foi tudo tão
bom, e a tempo, e prazeroso, que consideram um prêmio a possibilidade
de repetir, com os netos. Acho que estou nessa turma.
Não
há estágio, entra-se direto na atividade. O problema
é que avô não tem muito que fazer. Mulheres
assumem tarefas; o carinho delas com as grávidas manifesta-se
em roupinhas, mantas, travesseirinhos, óleos. Esperam junto,
grávidas de cabeça. O afeto dos homens é mais
desajeitado, braços caídos ao longo do corpo. O pai
ainda pode descansar o rosto na barriga bojuda, pode abraçar
dois em um, prover, fazer planos de levar o filho à Copa
de 2010. Já ao avô em gestação só
cabe ficar na sobra; na melhor das hipóteses torna-se um
quebra-galho.
Espero
o dia D. Que haverá para fazer? Ensaio manter uma postura
entre a de orgulho e a de beatitude. Não dar muito na vista,
se é que me entendem. Em caso de primeiro neto, como é
o meu, dizem que olhos úmidos são comuns. Fantasio,
passa pela minha cabeça a idéia ridícula de
soltar foguetes. Algo com um toque chapliniano: subir num morro
alto, soltar os foguetes, depois descer e recuperar a elegância.
Como quem leva um escorregão, se apruma e sai fingindo que
não foi com ele.
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