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29 de maio de 2002
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Ser avô

O preparo psicológico para
assumir uma nova missão

Ivan Angelo


Estou me preparando para ser avô. É necessário, por sutis motivos.

Hoje em dia a gente é avô com certa antecedência. Não que os filhos se antecipem, não é isso. Antigamente, sabia-se que a filha ou a nora estava grávida, o bebê formava-se em lento e invisível acrescentar-se, percebia-se seu progresso traduzido em volume, sentiam-se seus primeiros movimentos, e isso era tudo, até que o nascimento revelava o resto e, de quebra, produzia os avós. Hoje, não. Aparelhos de última geração nos permitem ver o neto – não uma forma indefinida, e não o bebê, o feto, mas ele, o netinho – lá dentro da barriga. É um espanto. Vi as imagens e, imediatamente, tornei-me avô.

Inconsciente das emoções que provocava, o médico mostrava em detalhes o paciente trabalho da natureza, os lábios, os olhos, o cérebro, os dedinhos de cada mão, a coluna arqueada, a nuca, os pezinhos – epa! um se distende como se ele fizesse alongamento! –, o coração batendo veloz, o pipizinho, a bexiga cheia... O exame deu à luz um avô.

Procuro adaptar-me ao papel. Primeiro, situar-me, sem modelo. O avô que conheci envolvi numa névoa de pitoresco: ele trazia um saco de laranjas da chácara onde morava, dava risadas compridas, cheirava rapé, rezava o terço em voz altíssima, antes de dormir, e esbravejava à toa. Pretendo ser um avô mais gostoso.

Tenho pensado no todo dessa missão. Com relação aos pais do netinho, não deve o avô ser ostensivo. Melhor manter uma posição que no futebol se costuma chamar de "sobra". Se for preciso, ele está lá, na sobra. Não se pense que é uma função folgada, porque jogador na sobra não pode falhar.

Limites. Evitar muito palpite. Nada tão reservado que pareça distância nem tão manifesto que insinue invasão. Os filhos já não são filhos, no sentido de ouvir, se é que me entendem. São vontades, opiniões, escolhas, decisões à espera de cumplicidade. Opinião de avô valerá mais por vir da experiência? Ou menos, por escudar-se em receios? Melhor acatar as idéias dos moços, a não ser em caso de desastre iminente.

Certos pais exercem a paternidade corrigindo o pai que tiveram, lapidando a figura ideal, procurando dar o que não receberam quando eram crianças. Por sua vez, certos avós procuram dar ao neto o que não tiveram tempo de dar aos filhos, e se derretem de amores. Corrigem-se, docemente culpados. Outros, sem falsa modéstia, querem mais é reviver. Não têm a pretensão de ter sido perfeitos com os filhos, longe disso, mas foi tudo tão bom, e a tempo, e prazeroso, que consideram um prêmio a possibilidade de repetir, com os netos. Acho que estou nessa turma.

Não há estágio, entra-se direto na atividade. O problema é que avô não tem muito que fazer. Mulheres assumem tarefas; o carinho delas com as grávidas manifesta-se em roupinhas, mantas, travesseirinhos, óleos. Esperam junto, grávidas de cabeça. O afeto dos homens é mais desajeitado, braços caídos ao longo do corpo. O pai ainda pode descansar o rosto na barriga bojuda, pode abraçar dois em um, prover, fazer planos de levar o filho à Copa de 2010. Já ao avô em gestação só cabe ficar na sobra; na melhor das hipóteses torna-se um quebra-galho.

Espero o dia D. Que haverá para fazer? Ensaio manter uma postura entre a de orgulho e a de beatitude. Não dar muito na vista, se é que me entendem. Em caso de primeiro neto, como é o meu, dizem que olhos úmidos são comuns. Fantasio, passa pela minha cabeça a idéia ridícula de soltar foguetes. Algo com um toque chapliniano: subir num morro alto, soltar os foguetes, depois descer e recuperar a elegância. Como quem leva um escorregão, se apruma e sai fingindo que não foi com ele.

         
     
 
 
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