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29 de março de 2006
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CRÔNICA

Fantasma

Fiquei chocado. Antes, devo dizer que compreendo o medo, sentimento em certa medida saudável. Considero sábias as pessoas que se previnem contra a urucubaca – eu mesmo tomo cuidados na vida, embora não a ponto de usar guarda-chuva. Sei que a possibilidade de dor física e sofrimento prolongado é assustadora. Mas, ao ler no jornal uma reportagem sobre mulheres sadias que retiram as mamas por medo de vir a ter câncer, fiquei chocado.

Talvez seja um ponto de vista de homem. A gente constrói, a partir da infância, uma sagração do seio feminino. Sucessivamente, a nutrição, o aconchego, o conforto do contato, a beleza da forma, a sensualidade constroem um símbolo insubstituível no espírito masculino, ao longo da vida. Mexer com símbolos complica.

Vejam, eu falo com inquietação, não com oposição. Não questiono a decisão delas, só me espanto, e busco razões para o meu espanto.

Será que elas mesmas, as mulheres como gênero, se relacionam com essa parte do seu todo e da sua beleza como os homens se relacionam? Embevecidos – será? Quer dizer, não exatamente como eles, mas com um sentimento espelhado – será?

"O primeiro sutiã a gente nunca esquece" foi um slogan de propaganda profundamente feminino, exibido anos atrás. Não falava para os homens, não buscava o olhar masculino. Dirigia-se às mocinhas, hoje senhoras. Tornou-se sucesso, ficou na memória de uma geração. E por quê? Indo mais fundo do que a sua intenção de vender uma peça de roupa, o comercial lidava com o encanto de uma passagem na trajetória feminina. A idéia que tocou a alma das mulheres e cravou o sucesso, creio, foi a de momento inesquecível. Era (é) importante, lindo, maravilhoso passar a precisar de um sutiã. Ter o que pôr dentro dele. A propaganda flagrava a descoberta de que passavam a guardar uma coisa preciosa, delas, de cada uma. Sim: preciosa.

Será? Esse pode ser, de novo, um ponto de vista pessoal, uma maneira masculina meio deslumbrada de ver um simples comercial. Voltando a elas: ao longo da vida, descuidarão do tesouro? Diminuirão o seu apreço? Senão, teriam de ser muito fortes os impulsos que levariam uma mulher a mutilar defensivamente uma parte preciosa de si.

Diz a reportagem que se submetem à extirpação, chamada mastectomia profilática, mulheres com predisposição familiar e genética para desenvolver tumores malignos nos seios. Grupo de risco. Nos últimos dois anos, foram 120 casos só no Hospital do Câncer, em São Paulo. Em um grande centro de oncologia no Texas, nos Estados Unidos, de cada 1.000 mastectomias, 100 são profiláticas.

O que as leva ao bisturi? O medo. Visto por outro lado: a esperança. Quase todas viveram casos dolorosos e repetidos na família. Uma diz que não fez por medo da morte, mas do sofrimento prolongado que presenciou. Outra confessa que se livrou de um fantasma. Ainda tentando entender, busco informações: a doença atinge fatalmente quem tem a mutação genética? Não, cerca de 80% têm probabilidade de desenvolver câncer nos seios. E a cirurgia livra-as do mal? Não, 10% ainda correm risco, sem contar a possibilidade de ele aparecer em outros órgãos. Adapto o poeta Mallarmé: um lance de dados não elimina o acaso.

Não falo de longe. Minha mãe penou e morreu. Meu irmão está penando. Uma amiga, convívio de 37 anos, luta. O do meu irmão começou na próstata. Não conheço, pode haver mas não conheço, homens de grupos de risco que por medo retirem a próstata. Há medos maiores.

Remédios podem fazer o risco cair 40%. Terapias podem reduzir a angústia. Não creio que saber disso adiante. O corte do bisturi é mágico. Uma das operadas disse que os seios, preenchidos com silicone, ficaram mais bonitos do que antes.

e-mail: ivan@abril.com.br

     
   
 
 
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