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CRÔNICA
Fantasma
Fiquei chocado. Antes, devo dizer
que compreendo o medo, sentimento em certa medida saudável.
Considero sábias as pessoas que se previnem contra a urucubaca
eu mesmo tomo cuidados na vida, embora não a ponto
de usar guarda-chuva. Sei que a possibilidade de dor física
e sofrimento prolongado é assustadora. Mas, ao ler no jornal
uma reportagem sobre mulheres sadias que retiram as mamas por medo
de vir a ter câncer, fiquei chocado.
Talvez seja um ponto de vista
de homem. A gente constrói, a partir da infância, uma
sagração do seio feminino. Sucessivamente, a nutrição,
o aconchego, o conforto do contato, a beleza da forma, a sensualidade
constroem um símbolo insubstituível no espírito
masculino, ao longo da vida. Mexer com símbolos complica.
Vejam, eu falo com inquietação,
não com oposição. Não questiono a decisão
delas, só me espanto, e busco razões para o meu espanto.
Será que elas mesmas,
as mulheres como gênero, se relacionam com essa parte do seu
todo e da sua beleza como os homens se relacionam? Embevecidos
será? Quer dizer, não exatamente como eles, mas com
um sentimento espelhado será?
"O primeiro sutiã a gente
nunca esquece" foi um slogan de propaganda profundamente feminino,
exibido anos atrás. Não falava para os homens, não
buscava o olhar masculino. Dirigia-se às mocinhas, hoje senhoras.
Tornou-se sucesso, ficou na memória de uma geração.
E por quê? Indo mais fundo do que a sua intenção
de vender uma peça de roupa, o comercial lidava com o encanto
de uma passagem na trajetória feminina. A idéia que
tocou a alma das mulheres e cravou o sucesso, creio, foi a de momento
inesquecível. Era (é) importante, lindo, maravilhoso
passar a precisar de um sutiã. Ter o que pôr
dentro dele. A propaganda flagrava a descoberta de que passavam
a guardar uma coisa preciosa, delas, de cada uma. Sim: preciosa.
Será? Esse pode ser, de
novo, um ponto de vista pessoal, uma maneira masculina meio deslumbrada
de ver um simples comercial. Voltando a elas: ao longo da vida,
descuidarão do tesouro? Diminuirão o seu apreço?
Senão, teriam de ser muito fortes os impulsos que levariam
uma mulher a mutilar defensivamente uma parte preciosa de si.
Diz a reportagem que se submetem
à extirpação, chamada mastectomia profilática,
mulheres com predisposição familiar e genética
para desenvolver tumores malignos nos seios. Grupo de risco. Nos
últimos dois anos, foram 120 casos só no Hospital
do Câncer, em São Paulo. Em um grande centro de oncologia
no Texas, nos Estados Unidos, de cada 1.000 mastectomias, 100 são
profiláticas.
O que as leva ao bisturi? O medo.
Visto por outro lado: a esperança. Quase todas viveram casos
dolorosos e repetidos na família. Uma diz que não
fez por medo da morte, mas do sofrimento prolongado que presenciou.
Outra confessa que se livrou de um fantasma. Ainda tentando entender,
busco informações: a doença atinge fatalmente
quem tem a mutação genética? Não, cerca
de 80% têm probabilidade de desenvolver câncer nos seios.
E a cirurgia livra-as do mal? Não, 10% ainda correm risco,
sem contar a possibilidade de ele aparecer em outros órgãos.
Adapto o poeta Mallarmé: um lance de dados não elimina
o acaso.
Não falo de longe. Minha
mãe penou e morreu. Meu irmão está penando.
Uma amiga, convívio de 37 anos, luta. O do meu irmão
começou na próstata. Não conheço, pode
haver mas não conheço, homens de grupos de risco que
por medo retirem a próstata. Há medos maiores.
Remédios podem fazer o
risco cair 40%. Terapias podem reduzir a angústia. Não
creio que saber disso adiante. O corte do bisturi é mágico.
Uma das operadas disse que os seios, preenchidos com silicone, ficaram
mais bonitos do que antes.
e-mail: ivan@abril.com.br
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