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CRÔNICA
Aniversário
no parque
Uma
tarde inesquecível ao lado
de três anjinhos em festa
Walcyr
Carrasco
Ir
ao parque de diversões com três anjinhos de 12 anos
é uma experiência inesquecível. Suficiente para
aumentar em cerca de 30% o número de meus cabelos brancos.
Tudo começou quando telefonei para minha amiga Márcia.
É aniversário da minha filha! Ela quer comemorar no
parque!
Ofereci
uma carona à mãe e às convidadas. Há
tanto tempo não ia a um parque de diversões! Logo
que os anjinhos entraram no carro, descobri que, se dois corpos
não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, certamente
três vozes infantis podem! Falavam sem parar, sempre nos mais
altos decibéis, cutucando-se o tempo todo. Tive esperança:
devia ser só o entusiasmo inicial. No parque, melhoraria.
Mal chegamos, fomos para um carrinho que atravessava uma montanha
cenográfica, para depois despencar na água. Impus
uma condição: nenhuma podia molhar a outra... Foi
sentar, e começaram a atirar água sobre mim! Enquanto
eu gritava, era ensopado por todos os lados. Elas, é claro,
morriam de rir. Saí do brinquedo com um indisfarçável
cheiro de cachorro molhado.
Espertamente,
evitei o brinquedo seguinte. Um tal de barco viking, que balançava
de um lado para o outro. Os três anjinhos conseguiram berrar
mais que as 150 pessoas que estavam no barco. Não pude evitar
o próximo. Enquanto girávamos e chacoalhávamos,
um DJ engraçadinho, em uma cabine de som, soltava de forró
a rock pauleira. A galera gritava. Tive certeza: o apocalipse estava
próximo!
Fomos
comer hambúrguer. A aniversariante pediu o dela sem maionese.
Levou o dobro do tempo e veio... com maionese! Ela foi reclamar.
Filosoficamente, ficamos devorando batatinhas mais salgadas que
a água do Mar Morto. Séculos depois, ela voltou vitoriosa
com o hambúrguer. Eu me lamentava em silêncio. Por
que ela não preferiu um aniversário bonitinho, em
que eu poderia me fartar de bolo e brigadeiros?
Mal
terminado o lanche, foi a vez da roda-gigante. Tenho pânico
de altura, mas me controlei para não dar mau exemplo. Na
cadeira havia uma roda que girava. Como convencer uma criança
a não girar uma coisa que gira? Uma delas começou
a passar mal:
Páááára, gente, pára!
As
outras duas passaram a girar a cadeirinha mais depressa. A mãe
berrou:
Vamos parar de girar essa...
Após
tão salutar apelo democrático, pararam. Tarde demais.
A outra estava verde!
Um
detalhe. Antes, havíamos feito uma parada em uma loja de
suvenires. Uma delas comprou um tridente vermelho. Adivinhem quem
carregou aquele tridente o resto da tarde, enquanto elas giravam
e tremelicavam nos brinquedos? O cavalheiro aqui, é claro!
Tornei-me uma atração do parque. A criançada
passava por mim e não resistia.
E aí, diabão?
Tá quente lá no inferno?
Assim
que pude, entreguei o tridente a uma delas, que correu atrás
da outra, espetando. Um garotinho de 3 anos viu a fera e começou
a gritar. Fui explicar à mãe que ninguém pretendia
espetar o filho dela. O anjinho aproveitou para dar uma tridentada
no meu traseiro. Quando me virei, as três saíram correndo
às gargalhadas. Só me salvei porque as luzes diminuíram.
Começava a Noite do Terror, uma promoção do
parque, na qual atores fantasiados de monstros passeiam entre o
público fazendo buuuu para as crianças. Os anjinhos
perseguiram um vampiro, que teve de sair correndo!
As
meninas voltaram felicíssimas para casa. Meu corpo doía.
Minhas pernas estavam em pandarecos. Meus ouvidos latejavam. A aniversariante
me sapecou um beijo.
Valeu! Foi o melhor aniversário da minha vida. Você
me leva de novo no Dia das Crianças?
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