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28 de agosto de 2002
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Última exposição

Colecionador francês morre em
São Paulo no
dia da abertura
da mostra que ajudou a montar

Lúcia Monteiro


Heudes Regis
egis
François Dautresme e duas de suas 1 600 peças chinesas que podem ser vistas na Faap: caixa de casamento de bambu e prato com a figura de Mao Tsé-tung


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Mais peças da exposição

Domingo passado foi dia de festa na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Estavam presentes à inauguração da mostra Tesouros da China – A Arte Imperial, a Arte do Cotidiano, a Arte Contemporânea 2 000 convidados. Grande colecionador de arte e objetos chineses, o francês François Dautresme encontrava-se exultante. Responsável pela curadoria do módulo Arte do Cotidiano, ele emprestou 1.600 das 1.800 peças expostas e, pela primeira vez, viu todas elas organizadas em um museu (normalmente, ficam num galpão na Porte de la Chapelle, no norte de Paris). No dia seguinte, a exposição abriu para o público. Já passava do meio-dia quando as assistentes do colecionador resolveram bater na porta do apartamento em que estava hospedado, num flat na Rua Alagoas, em frente à Faap. Como ele não atendia, as duas resolveram entrar. Encontraram-no morto em sua cama.


Porcelana da dinastia Qing, do século XVII: acervo do Museu Guimet, de Paris

Aos 75 anos, Dautresme sofreu um infarto enquanto dormia. Foi um choque para todos que trabalharam com ele durante a montagem da mostra. Os objetos que reuniu, em quarenta anos de pesquisa e mais de 150 viagens pela China, são fundamentais para a exposição. Desde 1963, Dautresme fez incontáveis incursões pelos vilarejos do interior chinês, recolhendo louças, roupas, brinquedos, jóias, calculadoras, estojos, amuletos e ferramentas, que encantam por suas formas originais e pelos materiais com que foram produzidos. Há tecidos belíssimos, cerâmicas e objetos de pedra, madeira e metal, mas eram as peças de bambu que mais o entusiasmavam. Ele chegou a chamar a China de "civilização do bambu". O material era usado para produzir tanto gaiolas de grilo como chapéus, peneiras, luminárias, panelas e embalagens para porcelana. Tudo cheio de pequenos detalhes, milimetricamente estudados.

Ao sair do salão onde estão esses utensílios do cotidiano, o visitante depara com o contrastante módulo de arte contemporânea: telas multicoloridas de grandes dimensões, avaliadas, no conjunto, em 2,5 milhões de dólares. "A arte chinesa está muito valorizada na Europa", afirma o curador das obras contemporâneas, Jean-Marc Decrop. Há ainda a parte dedicada à arte imperial, formada principalmente com o acervo do Museu Guimet, de Paris. Dividido cronologicamente em seis partes, esse módulo tem obras de até 6.000 anos e peças que foram de propriedade de dinastias chinesas entre o século XVIII a.C. e 1911. Já as roupas e os objetos adquiridos por Dautresme pertenceram, em geral, ao chinês comum. Além de manter sua coleção, Dautresme vendia utensílios, enfeites e roupas nas dez lojas da Compagnie Française de l'Orient et de la Chine, em Paris, Bruxelas e Barcelona. Em São Paulo, a decoradora Esther Giobbi é sua representante oficial. "Dautresme conhecia os melhores artesãos de cada vilarejo, que passaram a produzir para ele sob encomenda", conta Esther. "Eu agradeço aos chineses por ter uma cultura tão rica e tão bonita", disse-lhe o colecionador no domingo à noite, pouco antes de se despedir.

         
     
   
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