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28 de abril de 2004
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Fotos Heudes Regis
Da esquerda para a direita, os bailarinos Patrícia de Simone, Fábio Pinheiro e Demis Moretti, do Cisne Negro, as protagonistas de Chicago, Adriana Garambone e Danielle Winits, e os cantores Luiz Antonio Doné e Elisabeth Ratzersdorf, do Coral Lírico: time de talentos

Histórias de atores, cantores, bailarinos
e instrumentistas que enfrentaram árduos
testes de seleção, superaram a acirrada
concorrência e integram hoje elencos de
grande prestígio, como o do musical
Chicago,
o da Sinfônica do Estado, o do Coral Lírico
do Teatro Municipal e o do balé Cisne Negro

Lúcia Monteiro e Mônica Santos

Veja também
Ouça a Orquestra Sinfônica do Estado
Assista a números do musical Chicago

A partir de quinta-feira (29), quando o musical Chicago estréia no Teatro Abril, os personagens interpretados pelos atores Daniel Boaventura, Danielle Winits e Adriana Garambone irão protagonizar uma competição alucinante por manchetes de jornais, prestígio e fortuna. Nos próximos onze meses, duração prevista da temporada, eles vão encarnar no palco três figuras – o advogado Billy Flynn e as assassinas Velma Kelly e Roxie Hart – capazes de fazer qualquer negócio para alcançar a fama. Transformado em filme, Chicago mereceu seis Oscar em 2003. A exemplo de A Bela e A Fera, que atraiu 600.000 espectadores, a peça deve rapidamente tornar-se uma atração turística de São Paulo.

Seis meses atrás, na vida real, Daniel, Danielle e Adriana enfrentaram uma batalha ainda maior para estrelar a famosa montagem da Broadway, que a CIE Brasil produz na cidade ao custo de 5,8 milhões de reais. Como eles, 3.000 esperançosos artistas inscreveram-se para tentar um dos 24 papéis do elenco. Ou seja, 125 candidatos por vaga, numa disputa duas vezes maior que a do curso de publicidade e propaganda da USP, que no último vestibular teve 62 candidatos por vaga. Para a orquestra do espetáculo, mais um sufoco: 500 instrumentistas brigaram por quinze lugares. Nas provas realizadas em outubro, os 700 escolhidos na primeira etapa passaram uma tarde dançando para uma banca de três americanos. Mais uma apertada no funil e... 150 deles voltaram no dia seguinte para a performance vocal. "Fiquei tenso, esqueci a música, foi um horror", lembra Daniel, que, com seu jogo de cintura, experiência e tremendo vozeirão, acabou por conseguir o papel do advogado, pelo qual receberá, pelo menos até março de 2005, um salário mensal de cerca de 20.000 reais. Antes de saber de sua vitória, ele sofreu ouvindo, com a orelha na porta, o desempenho dos concorrentes.

As delicadas mãos da global Danielle Winits ficaram igualmente geladas. "Depois de ter feito cinco musicais, não achava que seria colocada à prova novamente", confessa Danielle. Ela chegou prontinha para exibir-se como Roxie, mas, na última hora, pediram-lhe um número de Velma, interpretada por Catherine Zeta-Jones no cinema. "Quase desisti. Eles me mandaram cantar All That Jazz e eu nem tinha preparado", afirma a atriz. "Danielle ficou com lágrimas nos olhos, mas encarou o desafio e levou o papel", conta Jorge Takla, diretor da divisão de teatro da CIE Brasil. Com Adriana Garambone, aconteceu o inverso. "Ensaiei uma semana inteira para ser a Velma e na hora fui escalada como Roxie." Parece crueldade da banca, certo? E não deixa de ser. "Mas não tem jeito, é a única maneira que temos de avaliar todo o potencial do ator", explica Scott Faris, diretor-geral do show. Seu colega Gary Chryst, responsável pela coreografia, também não facilitou a vida dos candidatos. Pediu que dançassem samba num espetáculo essencialmente jazzístico. "Quis quebrar a tensão para enxergar melhor a expressão corporal de cada um", diz.

Essas seleções extenuantes não são exclusivas de produções como Chicago. Músicos, cantores e bailarinos enfrentam concorrência acirrada e provas rigorosas para fazer parte de alguns dos mais prestigiados elencos do país. Desde 1997, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) promove concursos a cada seis meses. Considerada a melhor orquestra brasileira, a Osesp é o sonho de quase todo instrumentista. Paga salários acima da média nacional – em torno de 7.500 reais – e dá prestígio a seus integrantes. Duro é entrar lá. Dos 150 profissionais que enviaram currículo para a última seleção, neste mês, 33 foram chamados para uma audição. Havia nove vagas, mas apenas quatro foram preenchidas.

Muitos músicos que tocam esporadicamente na Osesp fazem o concurso com o objetivo de conseguir a efetivação. Na Osesp desde 1998, o romeno Adrian Petrutiu conseguiu, após quatro tentativas, ser promovido de violino de fila (ou tutti) ao posto de violino de segunda categoria. "O fato de já estar na orquestra pode atrapalhar um pouquinho. É mais difícil tocar bem na frente de seus colegas e chefes", diz Petrutiu. "Ficava preocupado com o que as pessoas iriam pensar de mim se eu me saísse mal", admite o violista russo Semen Grinberg, que veio para São Paulo há quatro meses como convidado e também obteve a aprovação.

Atrás de um biombo, para que a banca não saiba quem está tocando, contrabaixistas, violinistas e flautistas executam seus acordes com o máximo de precisão a seu alcance. Seu principal desafio é superar o nervosismo. "No mestrado, fiz até um curso com o psicólogo da equipe olímpica americana de mergulho para aprender a usar a adrenalina em meu favor", revela o carioca Fábio Presgrave, violoncelista recém-contratado pela Osesp. "Um dos exercícios era subir cinco lances de escada e tocar em seguida. É a mesma sensação que temos na hora H." Se alguém erra uma nota, a apresentação é interrompida imediatamente. "Uns tocam 45 segundos e vão embora", explica John Neschling, o implacável diretor artístico da Osesp. "Quando percebo que o candidato não tem a qualidade desejada, bato palmas e digo 'muito obrigado'." Os aprovados ainda amargam o chamado período probatório, um ano crítico em que qualquer deslize pode render uma demissão. "Tocar na Osesp é tão difícil quanto ser presidente da República", exagera o maestro mão de ferro.

Esse rigor, semelhante ao adotado nos testes das principais orquestras do mundo, é fundamental para garantir o alto nível das apresentações que quase sempre lotam a Sala São Paulo, sede da Osesp. No Coral Lírico do Teatro Municipal, as exigências não são menores. A banca interrompe os candidatos no meio do exame, há um período de experiência e ocorrem provas-surpresa. Na hora do teste, o cantor é obrigado a interpretar um trecho composto pela banca e que ele, evidentemente, nunca tinha ouvido. Quando se fala de ópera, não existe posição mais cobiçada. O salário, de 4.554 reais, é superior ao do Coro da Osesp. Além disso, o Coral Lírico oferece a seus 97 integrantes a perspectiva de se desenvolverem como solistas. Foi ali que estrelas como Rosana Lamosa, Céline Imbert, Claudia Riccitelli e Paulo Szot iniciaram a carreira, sob a batuta do maestro Mario Valério Zaccaro.

No ano passado, nove cantores entraram para o grupo. O tenor Alex Flores é um deles. Na audição, estava todo empolgado com seu solo de La Traviata quando o maestro interrompeu e falou que já era suficiente. "Peguei minhas coisas para ir embora, crente que haviam me eliminado", diz ele, que na verdade fora aprovado. Rouquidões, de origem emocional ou não, são comuns às vésperas do exame. Esse imprevisto atrapalhou o tenor Dorival Bernardo de Medeiros, que tentou por sete vezes entrar para o coral. Capaz de cantar em árabe, hebraico, italiano, grego e latim, ele se apresenta em missas e casamentos, além de trabalhar como motorista de radiotáxi. "Uma hora dá certo", acredita Medeiros.

Para alguns candidatos, a reprovação pode significar a total mudança nos rumos profissionais. No fim de 2002, quando não foi escolhido para estagiar no Cisne Negro, Gabriel Tenório da Silva Filho, de 27 anos, praticamente pendurou as sapatilhas. "Fiquei frustrado. Resolvi ganhar a vida de outra forma", diz. Desde março do ano passado ele estuda na escola de cabeleireiros do Soho e, às vezes, faz apresentações de dança butô. Das três principais companhias da cidade, o Cisne Negro é a única a ter audições regulares – e não é para o ingresso no grupo, mas para o tradicional balé natalino O Quebra-Nozes. A cena lembra o filme Flashdance. Como Alex Owens, a personagem principal interpretada por Jennifer Beals, os candidatos passam um dia inteiro com os pés em ação. Das 100 pessoas que aparecem, dez são escolhidas. "Só mais tarde, com a convivência, analiso de perto o talento e a sociabilidade dos bailarinos", enfatiza a diretora Hulda Bittencourt, que chama os melhores do espetáculo para estagiar. Foi nessa etapa que Gabriel Tenório deu adeus à companhia.

Muitos fracassos e poucas vitórias. Assim é o mundo do showbiz. Não há fórmula mágica que garanta um lugar sob holofotes privilegiados. Ao lado de talento e preparo, os eleitos precisam ter disciplina, controle emocional, obstinação – e sorte. "Testes exigentes ajudam a criar uma geração de bons profissionais", afirma Maurício Silva, chefe do naipe de contrabaixos da Amazonas Filarmônica, que em sua primeira tentativa não passou pelo crivo da Osesp. "Não há outro jeito. Para ganhar, você tem de perder bastante. O segredo é sempre continuar tentando."

 

Eles passaram

Heudes Regis
O elenco de Chicago: 3 000 candidatos para 24 papéis


Eles tentaram

Ronaldo Ceravolo
"Desde que não existam cartas marcadas, os testes são uma forma justa de seleção. Não passei para Chicago, mas fui escolhida para o musical Cabaret e para o filme Amores Possíveis por meio deles."
Beth Goulart, atriz


"Perder faz parte do jogo. Atuei em A Bela e a Fera e também queria participar de Chicago, mas não tinha o perfil desejado. Agora estou no México, com Les Misérables."
Saulo Vasconcelos, ator


Manoel Marques
"Com os testes aprendi muito e já faturei bons trabalhos. Mandei meu currículo e fiz o workshop de Chicago. Só não continuei na seleção por falta de tempo."
Adriana Lessa, atriz


Veja também
Assista a números do musical

Abertura

  56K | 100K | 200K
 Mamma Morton
  56K | 100K | 200K
 Roxie Hart
  56K | 100K | 200K
 Billy Flinn
  56K | 100K | 200K

 

Eles passaram

Heudes Regis
O romeno Adrian Petrutiu e o russo Semen Grinberg, aprovados neste mês para a Osesp: das nove vagas disponíveis na orquestra, apenas quatro foram preenchidas


Eles tentaram

Fotos Heudes Regis
gis
"Acho certo haver tanto rigor na seleção. Estimula o estudo. Meu principal objetivo na vida é tocar na Osesp. Por isso tentei quatro vezes e vou insistir quanto for preciso."
Tálita Capra, oboísta da Orquestra Sinfônica do Paraná
"Toquei na Osesp como temporário por quase dez anos. Participei das turnês aos Estados Unidos e à Europa. Na hora do concurso, fico nervoso. Mas todas essas tentativas ajudaram no meu desenvolvimento."
Anselmo Vanderlei Melosi, professor de contrabaixo do Conservatório de Tatuí


Veja também
Ouça a Orquestra Sinfônica do Estado. Regência: John Neschling.

Camargo Guarnieri - Sinfonia nº 2, Uirapuru (1945)
I. Energico
II. Terno
III. Festivo
Abertura Concertante (1942)
Enérgico e ritmando
Sinfonia nº 3 (1952)
I. Lento - Energico e violento
II. Serenamente - Vivo
III. Decidido


Eles passaram

Heudes Regis
Os novos integrantes do Coral Lírico do Teatro Municipal: depois de enfrentar até provas-surpresa, salário de 4 554 reais


Eles tentaram

Fotos Heudes Regis
gis
"Passei em vários testes, mas no Coral Lírico só consegui uma vaga de suplente. Acabei concluindo que gosto mais do trabalho do Coro da Osesp."
Gustavo Quaresma, tenor do Coro da Osesp
"Canto em árabe, grego, latim, hebraico e italiano, em igrejas e sinagogas. Também trabalho como motorista de táxi. Tentei o concurso sete vezes. Estou progredindo. Uma hora dá certo."
Dorival Bernardo de Medeiros, tenor da Igreja Ortodoxa do Paraíso


Eles passaram

Heudes Regis
Bailarinos do Cisne Negro: companhia faz audições regulares para o balé natalino O Quebra-Nozes


Eles tentaram

Fotos Heudes Regis
gis
"Foi frustrante ser dispensado pelo Cisne Negro. Tenho alma de bailarino, continuo dançando, mas decidi ganhar a vida de outra forma."
Gabriel Tenório da Silva Filho, cabeleireiro
"Acabei usando a dificuldade para ingressar num grupo como tema da minha monografia na faculdade. A dança virou meu hobby, mas mantenho a esperança."
Michele Tonasso Linares, professora de educação física

 

     
   
 
 
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