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ARTE
Fotos Heudes Regis  |
| Da
esquerda para a direita, os bailarinos Patrícia de Simone, Fábio
Pinheiro e Demis Moretti, do Cisne Negro, as protagonistas de Chicago,
Adriana Garambone e Danielle Winits, e os cantores Luiz Antonio Doné e
Elisabeth Ratzersdorf, do Coral Lírico: time de talentos |
Histórias
de atores, cantores, bailarinos e instrumentistas que enfrentaram árduos
testes de seleção, superaram a acirrada concorrência e
integram hoje elencos de grande prestígio, como o do musical Chicago,
o da Sinfônica do Estado, o do Coral Lírico do Teatro Municipal
e o do balé Cisne Negro Lúcia
Monteiro e Mônica Santos A
partir de quinta-feira (29), quando o musical Chicago estréia no
Teatro Abril, os personagens interpretados pelos atores Daniel Boaventura, Danielle
Winits e Adriana Garambone irão protagonizar uma competição
alucinante por manchetes de jornais, prestígio e fortuna. Nos próximos
onze meses, duração prevista da temporada, eles vão encarnar
no palco três figuras o advogado Billy Flynn e as assassinas Velma
Kelly e Roxie Hart capazes de fazer qualquer negócio para alcançar
a fama. Transformado em filme, Chicago mereceu seis Oscar em 2003. A exemplo
de A Bela e A Fera, que atraiu 600.000 espectadores,
a peça deve rapidamente tornar-se uma atração turística
de São Paulo.
Seis meses atrás, na vida real, Daniel, Danielle e Adriana enfrentaram
uma batalha ainda maior para estrelar a famosa montagem da Broadway, que a CIE
Brasil produz na cidade ao custo de 5,8 milhões de reais. Como eles, 3.000
esperançosos artistas inscreveram-se para tentar um dos 24 papéis
do elenco. Ou seja, 125 candidatos por vaga, numa disputa duas vezes maior que
a do curso de publicidade e propaganda da USP, que no último vestibular
teve 62 candidatos por vaga. Para a orquestra do espetáculo, mais um sufoco:
500 instrumentistas brigaram por quinze lugares. Nas provas realizadas em outubro,
os 700 escolhidos na primeira etapa passaram uma tarde dançando para uma
banca de três americanos. Mais uma apertada no funil e... 150 deles voltaram
no dia seguinte para a performance vocal. "Fiquei tenso, esqueci a música,
foi um horror", lembra Daniel, que, com seu jogo de cintura, experiência
e tremendo vozeirão, acabou por conseguir o papel do advogado, pelo qual
receberá, pelo menos até março de 2005, um salário
mensal de cerca de 20.000 reais. Antes de saber de
sua vitória, ele sofreu ouvindo, com a orelha na porta, o desempenho dos
concorrentes.
As delicadas
mãos da global Danielle Winits ficaram igualmente geladas. "Depois de ter
feito cinco musicais, não achava que seria colocada à prova novamente",
confessa Danielle. Ela chegou prontinha para exibir-se como Roxie, mas, na última
hora, pediram-lhe um número de Velma, interpretada por Catherine Zeta-Jones
no cinema. "Quase desisti. Eles me mandaram cantar All That Jazz e eu nem
tinha preparado", afirma a atriz. "Danielle ficou com lágrimas nos olhos,
mas encarou o desafio e levou o papel", conta Jorge Takla, diretor da divisão
de teatro da CIE Brasil. Com Adriana Garambone, aconteceu o inverso. "Ensaiei
uma semana inteira para ser a Velma e na hora fui escalada como Roxie." Parece
crueldade da banca, certo? E não deixa de ser. "Mas não tem jeito,
é a única maneira que temos de avaliar todo o potencial do ator",
explica Scott Faris, diretor-geral do show. Seu colega Gary Chryst, responsável
pela coreografia, também não facilitou a vida dos candidatos. Pediu
que dançassem samba num espetáculo essencialmente jazzístico.
"Quis quebrar a tensão para enxergar melhor a expressão corporal
de cada um", diz.
Essas seleções extenuantes não são exclusivas de produções
como Chicago. Músicos, cantores e bailarinos enfrentam concorrência
acirrada e provas rigorosas para fazer parte de alguns dos mais prestigiados elencos
do país. Desde 1997, a Orquestra Sinfônica do Estado de São
Paulo (Osesp) promove concursos a cada seis meses. Considerada a melhor orquestra
brasileira, a Osesp é o sonho de quase todo instrumentista. Paga salários
acima da média nacional em torno de 7.500
reais e dá prestígio a seus integrantes. Duro é entrar
lá. Dos 150 profissionais que enviaram currículo para a última
seleção, neste mês, 33 foram chamados para uma audição.
Havia nove vagas, mas apenas quatro foram preenchidas.
Muitos músicos que tocam esporadicamente na Osesp fazem o concurso com
o objetivo de conseguir a efetivação. Na Osesp desde 1998, o romeno
Adrian Petrutiu conseguiu, após quatro tentativas, ser promovido de violino
de fila (ou tutti) ao posto de violino de segunda categoria. "O fato de
já estar na orquestra pode atrapalhar um pouquinho. É mais difícil
tocar bem na frente de seus colegas e chefes", diz Petrutiu. "Ficava preocupado
com o que as pessoas iriam pensar de mim se eu me saísse mal", admite o
violista russo Semen Grinberg, que veio para São Paulo há quatro
meses como convidado e também obteve a aprovação.
Atrás de
um biombo, para que a banca não saiba quem está tocando, contrabaixistas,
violinistas e flautistas executam seus acordes com o máximo de precisão
a seu alcance. Seu principal desafio é superar o nervosismo. "No mestrado,
fiz até um curso com o psicólogo da equipe olímpica americana
de mergulho para aprender a usar a adrenalina em meu favor", revela o carioca
Fábio Presgrave, violoncelista recém-contratado pela Osesp. "Um
dos exercícios era subir cinco lances de escada e tocar em seguida. É
a mesma sensação que temos na hora H." Se alguém erra uma
nota, a apresentação é interrompida imediatamente. "Uns tocam
45 segundos e vão embora", explica John Neschling, o implacável
diretor artístico da Osesp. "Quando percebo que o candidato não
tem a qualidade desejada, bato palmas e digo 'muito obrigado'." Os aprovados ainda
amargam o chamado período probatório, um ano crítico em que
qualquer deslize pode render uma demissão. "Tocar na Osesp é tão
difícil quanto ser presidente da República", exagera o maestro mão
de ferro.
Esse rigor, semelhante ao adotado nos testes das principais orquestras do mundo,
é fundamental para garantir o alto nível das apresentações
que quase sempre lotam a Sala São Paulo, sede da Osesp. No Coral Lírico
do Teatro Municipal, as exigências não são menores. A banca
interrompe os candidatos no meio do exame, há um período de experiência
e ocorrem provas-surpresa. Na hora do teste, o cantor é obrigado a interpretar
um trecho composto pela banca e que ele, evidentemente, nunca tinha ouvido. Quando
se fala de ópera, não existe posição mais cobiçada.
O salário, de 4.554 reais, é superior
ao do Coro da Osesp. Além disso, o Coral Lírico oferece a seus 97
integrantes a perspectiva de se desenvolverem como solistas. Foi ali que estrelas
como Rosana Lamosa, Céline Imbert, Claudia Riccitelli e Paulo Szot iniciaram
a carreira, sob a batuta do maestro Mario Valério Zaccaro.
No ano passado, nove cantores entraram para o grupo. O tenor Alex Flores é
um deles. Na audição, estava todo empolgado com seu solo de La
Traviata quando o maestro interrompeu e falou que já era suficiente.
"Peguei minhas coisas para ir embora, crente que haviam me eliminado", diz ele,
que na verdade fora aprovado. Rouquidões, de origem emocional ou não,
são comuns às vésperas do exame. Esse imprevisto atrapalhou
o tenor Dorival Bernardo de Medeiros, que tentou por sete vezes entrar para o
coral. Capaz de cantar em árabe, hebraico, italiano, grego e latim, ele
se apresenta em missas e casamentos, além de trabalhar como motorista de
radiotáxi. "Uma hora dá certo", acredita Medeiros.
Para alguns candidatos, a reprovação pode significar a total mudança
nos rumos profissionais. No fim de 2002, quando não foi escolhido para
estagiar no Cisne Negro, Gabriel Tenório da Silva Filho, de 27 anos, praticamente
pendurou as sapatilhas. "Fiquei frustrado. Resolvi ganhar a vida de outra forma",
diz. Desde março do ano passado ele estuda na escola de cabeleireiros do
Soho e, às vezes, faz apresentações de dança butô.
Das três principais companhias da cidade, o Cisne Negro é a única
a ter audições regulares e não é para o ingresso
no grupo, mas para o tradicional balé natalino O Quebra-Nozes. A
cena lembra o filme Flashdance. Como Alex Owens, a personagem principal
interpretada por Jennifer Beals, os candidatos passam um dia inteiro com os pés
em ação. Das 100 pessoas que aparecem, dez são escolhidas.
"Só mais tarde, com a convivência, analiso de perto o talento e a
sociabilidade dos bailarinos", enfatiza a diretora Hulda Bittencourt, que chama
os melhores do espetáculo para estagiar. Foi nessa etapa que Gabriel Tenório
deu adeus à companhia.
Muitos fracassos e poucas vitórias. Assim é o mundo do showbiz.
Não há fórmula mágica que garanta um lugar sob holofotes
privilegiados. Ao lado de talento e preparo, os eleitos precisam ter disciplina,
controle emocional, obstinação e sorte. "Testes exigentes
ajudam a criar uma geração de bons profissionais", afirma Maurício
Silva, chefe do naipe de contrabaixos da Amazonas Filarmônica, que em sua
primeira tentativa não passou pelo crivo da Osesp. "Não há
outro jeito. Para ganhar, você tem de perder bastante. O segredo é
sempre continuar tentando."
| Eles
passaram
Heudes Regis  |
| O
elenco de Chicago: 3 000 candidatos para 24 papéis |
Eles tentaram
Ronaldo Ceravolo  | "Desde
que não existam cartas marcadas, os testes são uma forma justa de
seleção. Não passei para Chicago, mas fui escolhida
para o musical Cabaret e para o filme Amores Possíveis por
meio deles." Beth Goulart, atriz |
 | "Perder
faz parte do jogo. Atuei em A Bela e a Fera e também queria participar
de Chicago, mas não tinha o perfil desejado. Agora estou no México,
com Les Misérables." Saulo Vasconcelos, ator
|
Manoel Marques  | "Com
os testes aprendi muito e já faturei bons trabalhos. Mandei meu currículo
e fiz o workshop de Chicago. Só não continuei na seleção
por falta de tempo." Adriana Lessa, atriz |
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Veja
também
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Assista
a números do musical | | | | |
Eles
passaram
Heudes Regis  |
| O romeno
Adrian Petrutiu e o russo Semen Grinberg, aprovados neste mês para a Osesp:
das nove vagas disponíveis na orquestra, apenas quatro foram preenchidas
| Eles
tentaram
Fotos Heudes Regis  | gis
 |
"Acho
certo haver tanto rigor na seleção. Estimula o estudo. Meu principal
objetivo na vida é tocar na Osesp. Por isso tentei quatro vezes e vou insistir
quanto for preciso." Tálita
Capra, oboísta da Orquestra Sinfônica do Paraná | "Toquei
na Osesp como temporário por quase dez anos. Participei das turnês
aos Estados Unidos e à Europa. Na hora do concurso, fico nervoso. Mas todas
essas tentativas ajudaram no meu desenvolvimento." Anselmo
Vanderlei Melosi, professor de contrabaixo do Conservatório de Tatuí
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Veja
também
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Ouça
a Orquestra Sinfônica do Estado. Regência: John Neschling. |
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Eles
passaram
Heudes Regis  |
| Os novos
integrantes do Coral Lírico do Teatro Municipal: depois de enfrentar até
provas-surpresa, salário de 4 554 reais |
Eles tentaram
Fotos Heudes Regis  | gis
 |
"Passei
em vários testes, mas no Coral Lírico só consegui uma vaga
de suplente. Acabei concluindo que gosto mais do trabalho do Coro da Osesp."
Gustavo
Quaresma, tenor do Coro da Osesp | "Canto
em árabe, grego, latim, hebraico e italiano, em igrejas e sinagogas. Também
trabalho como motorista de táxi. Tentei o concurso sete vezes. Estou progredindo.
Uma hora dá certo." Dorival
Bernardo de Medeiros, tenor da Igreja Ortodoxa do Paraíso |
Eles
passaram
Heudes Regis  |
| Bailarinos
do Cisne Negro: companhia faz audições regulares para o balé
natalino O Quebra-Nozes |
Eles tentaram
Fotos Heudes Regis  | gis
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"Foi frustrante
ser dispensado pelo Cisne Negro. Tenho alma de bailarino, continuo dançando,
mas decidi ganhar a vida de outra forma." Gabriel
Tenório da Silva Filho, cabeleireiro | "Acabei
usando a dificuldade para ingressar num grupo como tema da minha monografia na
faculdade. A dança virou meu hobby, mas mantenho a esperança."
Michele
Tonasso Linares, professora de educação física |
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