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28 de janeiro de 2004
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CRÔNICA

Guerra ao cliente

Walcyr Carrasco


Há muito tempo se diz que "os clientes sempre têm razão". Ultimamente tenho sido tratado como um criador de casos. Não que eu seja flor que se cheire, reconheço. Meu talento para a franqueza aterroriza a família inteira desde que sou criança. Recentemente, na praia, resolvi comprar um armário. Só tinha uma exigência: queria com chave. Para guardar coisas pessoais. Fui a uma loja na Praia de Juqueí e fiz o negócio. Não tinha chave, mas a dona se comprometeu a botar fechadura antes da entrega.

Dois dias depois, estou dormindo quando ouço chamarem meu nome. Estão descarregando o armário. Tateei em busca dos óculos, pisquei vinte vezes e me arrastei até a varanda. Olhei as portas. Nada de chave. Mandei levar de volta. Uma hora depois, pego um recado no celular. Era a dona, furiosa.

– Estou muito, muito chateada. Mas muito! Onde já se viu devolver o armário?

Dizia ter ligado para minha casa e falado com alguém que aceitara a entrega, para a chave ser colocada posteriormente. Ou seja: sabe-se lá quando. Quase liguei para perguntar:

"Se quem deu o cheque fui eu, por que combinou com outra pessoa?"

Resolvi nem telefonar. Se não entregasse, faria um boletim de ocorrência, porque ando farto de levar rasteira. Dali a dias o armário chegou, com chave. Sem mais telefonemas.

Outro dia, fui a um grande shopping de decoração da cidade, em uma loja especializada em coisas de cozinha. Comprei uma miniadega, além de algumas panelas. Em pleno domingo, a gerente me liga, pedindo para trocar o cheque. Não, não havia erro meu. Era deles, que queriam um para a adega, outro para as panelas. Expliquei que estava com visitas. Ficamos de nos ligar no dia seguinte. Chamei.

– Em que posso ajudá-lo? – perguntou a gerente.

– Quem está ligando para ajudar sou eu – expliquei. – Pagar, já paguei.

– Ou você troca ou não entregamos a adega – ela disse gentilmente.

– Mande alguém até aqui em casa buscar os cheques – retruquei.

Demorou dois dias. A entrega da tal adega atrasou. É minha sina. Fui acordado com os carregadores na porta. Levaram a dita-cuja até a copa.

– Assine aqui, por favor.

Era uma nota pela metade do valor. Recusei-me. Abrimos um envelope anexo. Havia outra nota, de serviço referente à instalação. Perguntei qual seria o trabalho de instalação, para valer a metade da compra.

– É só ligar na tomada – disse o carregador.

– Nesse caso, não assino. Não vou receber um produto pela metade do que paguei.

Ligaram para a gerência. Não podiam sair sem minha assinatura. A diretora perguntou:

– O senhor está tendo algum problema?

– Quem está tendo problema é você – respondi educadamente. – Ou me manda a nota exata ou chamo a polícia. E tem mais: daqui o produto não sai!

Um motoboy trouxe a nota correta às pressas. Pensei na agravante. Uma pessoa que trabalha comigo muitas vezes compra coisas a meu pedido. Dessa vez eu estava junto. Se não estivesse, teria desconfiado de má-fé ao ver a nota. A pessoa perderia o emprego, sem culpa.

Certa vez minha mãe comprou uma mesa redonda. Entregaram uma quadrada. Ela não queria receber. O rapaz lamentou-se:

– Se a senhora não aceitar, serei demitido. Depois troca.

Quando ela faleceu, a quadrada ainda estava lá.

Eu me pergunto: será a crise? A ética está sendo deixada de lado na pressa do lucro imediato? Como cliente, não aceito ser tratado dessa maneira. Mas fico pensando. Se quem discute já é maltratado, imagino o que sofrem os mais tímidos!

         
     
 
 
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