Ivan Angelo

Secretárias

Esquecer o dia 30 de setembro seria
uma falha imperdoável


Quem avisa os patrões e chefes da chegada do dia da secretária, se é ela quem lhes lembra de tudo? E quem compra o presentinho, se é ela quem se encarrega dessas coisas? Numa empresa maior, eles se viram, recorrem às secretárias uns dos outros, em ampla troca de favores, e comparecem com algumas flores, bombons, perfume ou licor. Mesmo que o 30 de setembro caia num domingo, como neste ano, é raríssimo ficarem esquecidas. Eles não se perdoariam.

Poucos profissionais têm data tão lembrada. Só me ocorrem o professor, o soldado e o funcionário público, que ganham o direito de descansar em seu dia. Não é o caso delas. Outros trabalhadores – pedreiro, taxista, padeiro, médico, engenheiro, enfermeiro, lixeiro, o que for – podem ter dia, mas não ganham bombons.

Qual é o segredo das secretárias? Mistério. Certamente não tem nenhuma influência o fato de estarem sempre muito próximas do poder, porque outro traço delas é não se aproveitarem. Já imaginaram se houvesse uma conspiração internacional de secretárias? A do Bush trocando figurinhas com a do Blair, esta com a do Jospin, aquela com a do FHC, todas com a de Bill Gates – e por aí vai? "Brigo com minha mulher, mas não brigo com minha secretária", diz o presidente de um dos maiores escritórios de advocacia de São Paulo.

Pensando bem, são como segunda esposa dos executivos. Elas é que sabem de seus compromissos, os particulares e os profissionais. Controlam cartões, emitem cheques, pagam contas. Sabem da Bolsa e do bolso. Conhecem os amigos deles pela voz, decidem quem pode ou não pode falar direto com eles. Trazem anotados ou na cabeça seus números de telefone, não raro o das amantes, quando há. Providenciam, checam, compram, conferem: a loteria, a agenda, a revisão do carro, a passagem aérea, o número dos sapatos dos entes queridos, os aniversários, o pagamento dos impostos, os presentes de fim de ano, a hora do café, os jornais, disquetes, seguranças, mensalidade do clube, ingressos para espetáculos. Têm acesso à gaveta do chefe, o que a maioria das esposas não tem. Sabem a senha do computador, do cartão de crédito, da conta bancária. Passam de oito a dez horas por dia ao lado dele, mais que as mulheres. Por isso que a relação tem de dar certo, como um casamento. As palavras usadas para comentar esses dois tipos de união são até parecidas: "Quando os santos não combinam, quando não existe confiança e respeito mútuos, é melhor acabar logo". Em alguns casos, pode-se dizer que nasceram um para o outro.

Já conversei com um marido de secretária, dessas antigas. Ele tem a impressão de ser o outro da história. Também já ouvi esposas de empresários dizerem que se sentem "a outra". E já ouvi secretárias dizerem que ficaram com a pior parte. É verdade que algumas, raras, ficam também com a melhor.

É uma profissão feminina. Mesmo as mulheres que chegaram aos altos cargos nas empresas preferem secretárias. Poderiam, numa espécie de repique do jogo de poder entre os sexos, contratar um rapagão e ficar ali mandando telefonar, pagar, agendar, conferir, anotar, contatar, buscar, enviar, providenciar. Mas não. Não dá certo.

Um amigo meu, dono de uma agência de publicidade, tentou. Achou que um secretário seria uma coisa criativa, um diferencial, outro estilo, e sem aquele "quem gostaria?" ao telefone. Publicitário adora coisas criativas. Não deu. Homem não confia em fidelidade de homem. Porque não há amor. Secretária, diz ele, tem de ter algo do amor feminino, da entrega, do martírio, do sacrifício e da resignação de que só são capazes as mulheres.

 

VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições Especiais | Especiais on-line | Estação Veja