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A
guerra dos papéis
Prefeitura
causa polêmica ao proibir e logo depois
autorizar
a distribuição de folhetos nas ruas
Erika
Sallum
Epitacio Pessoa
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| Entregadoras
de panfleto: atividade proibida e, depois de um mês, liberada |
A
cena virou rotina para o motorista: mal o carro pára
em um grande cruzamento, várias moças uniformizadas,
muitas vezes mais ágeis que os camelôs de farol
e os flanelinhas, começam a entregar folheto de propaganda
de imóveis. Para quem não procura apartamento,
o destino dos papéis indesejáveis é quase
sempre o chão do automóvel. Isso quando não
são atirados pela janela por motoristas porcalhões.
Desde o dia 17 de agosto, no entanto, as garotas que
ganham em média 25 reais por dia de trabalho
pararam de ser vistas nas ruas. Um decreto da prefeita Marta
Suplicy proibiu a distribuição de panfletos
nas vias públicas, assim como a colocação
de faixas, cavaletes e banners (plaquetas). A medida deverá
ter vida curta. Após reclamações do setor
imobiliário, a prefeitura avisou que vai publicar,
dentro de alguns dias, outro decreto autorizando novamente
a distribuição. A diferença é
que as regras deverão ser mais rígidas.
Mario Rodrigues
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"Pagamos
licença para a prefeitura, damos emprego para muita gente
e limpamos os papéis jogados nas ruas. Não podemos ser
confundidos com quem polui a cidade distribuindo propaganda
de cartomante e pizzaria."
ROBERTO ESTORINO, presidente da associação das empresas
que distribuem folhetos de imobiliárias |
A
discussão não inclui os que espalham por toda
a capital papéis de cartomantes, dentistas e lanchonetes.
Nem os que a infestam com faixas de "Foi multado?" ou "Computador
a 1 099 reais". Esses desrespeitam a Lei nº 10315, de
1987, que impede tal tipo de publicidade e prevê multas
de 537,40 a 1.612,20 reais a quem infringi-la. A decisão
da prefeita atinge as empresas que seguem as determinações
de um decreto assinado em 1998. Segundo ele, com o pagamento
de uma licença, os folhetos podem ser distribuídos,
mas apenas nos fins de semana e desde que contenham frases
educativas, como "Mantenha a cidade limpa". Para fazer a propaganda
em dois pontos da capital, com direito a utilizar dez cavaletes
e cinco banners, cada interessado deveria pagar à prefeitura
4.250 reais por mês. Por causa do valor, apenas as imobiliárias,
construtoras e incorporadoras respeitavam o decreto.
Mario Rodrigues
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"Essas
empresas se apropriam do espaço público e ganham muito
com isso. Deveriam pagar uma porcentagem dos lucros, não
uma taxa fixa. É má-fé dizer que geram emprego. Elas prestam
é um desserviço à cidade."
MINORU NARUTO, arquiteto e professor da USP especializado
em comunicação visual |
"Não
é todo mundo que pode comprar jornal para ler nossos
anúncios", diz Roberto Estorino, presidente da associação
das empresas que promovem a distribuição dos
papéis imobiliários, a Apepe. "Mais de 60% das
pessoas que visitam um prédio à venda chegam
com os panfletos nas mãos, principalmente em bairros
menos favorecidos." Ele conta que cerca de 8.000 pessoas são
contratadas nos fins de semana para distribuir até
5,6 milhões de papéis. A Câmara dos Vereadores
promete para outubro a votação de uma lei de
publicidade que vai regularizar a atividade. "Não podemos
ignorar a quantidade de empregos gerados com ela", diz a vereadora
Myryam Athiê, integrante da subcomissão que estuda
a nova lei. "Concordo que havia gente demais nas ruas, mas
é apenas uma questão de colocar algumas regras."
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5,6
milhões de panfletos
de
imóveis são distribuídos
por fim de semana
8
000 pessoas são contratadas
para
entregar esses folhetos nos cruzamentos
4
250 reais por mês é quanto
a
prefeitura cobra pela licença de
divulgação
em dois pontos da cidade
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A
verdade é que os panfletos sujam as ruas, enfeiam a
cidade e chateiam quem não pede para recebê-los.
O arquiteto Minoru Naruto, especialista em comunicação
visual e professor da Universidade de São Paulo, acredita
que as empresas se apropriam erroneamente do espaço
público. "Elas pagam um preço fixo e lucram
milhões usando nossas ruas", diz. Para ele, não
passa de má-fé o argumento de que a prática
gera emprego. "Não é uma justificativa aceitável.
Ela apenas tenta camuflar o desserviço que presta à
cidade." O arquiteto e urbanista Paulo Bastos chama de invasão
de privacidade quando um grupo de meninas se aproxima dos
carros com seus folhetos. "É insuportável",
afirma. "O veículo ideal para a divulgação
não é a esquina mais próxima.
Depois
de um mês de polêmica, a prefeitura decidiu rever
o decreto, que deverá sofrer alterações.
O texto ainda está sendo preparado, mas a secretária
de Negócios Jurídicos, Anna Emília Cordelli,
adianta que desta vez haverá novas exigências,
entre elas a utilização de papel reciclável
e a determinação de que, no fim do dia, o lixo
seja recolhido pelos responsáveis. Mesmo com a mudança,
tudo indica que a papelada continuará incomodando os
paulistanos.
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Porcalhões
impunes
Sergio Saraiva
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| Jogar
lixo na rua: multa de 1 074,80 reais |
Não
infringe a lei apenas quem distribui folhetos nas ruas
sem autorização. Aquele que recebe o papel
e o joga em uma via pública está desrespeitando
uma lei criada em 1987. Ela estabelece que o porcalhão
pagará ao município 20 UFMs (unidade fiscal
do município), ou 1 074,80 reais, se "lançar
ou atirar, nas vias, praças, jardins, escadarias
e quaisquer áreas e logradouros públicos,
papéis, invólucros, cascas, restos, resíduos,
lixo de qualquer natureza, bem como confetes e serpentinas,
exceto, estes dois últimos, em dias de comemorações
especiais".
Apesar desses deliciosos detalhes, a lei quase nunca
é aplicada. Na prática, vigora a impunidade.
A Secretaria de Implementação das Subprefeituras
e as 28 administrações regionais contam,
juntas, com apenas 360 fiscais, denominados agentes
vistores. Seu papel, além de em tese vigiar os
sujões, é fiscalizar estabelecimentos
comerciais, verificar as condições de
calçadas e muros, retirar outdoors clandestinos...
"A lei serve principalmente para conscientizar as pessoas",
afirma Oscar Nogueira Jr., chefe de apreensão
da Administração Regional do Butantã.
"Confesso que nunca multamos ninguém por causa
disso."
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