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26 de junho de 2002
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Outros tempos

Cenas paulistanas de um século atrás
voltam em livro sobre pintores paisagistas

Eduardo Lima

 

Fotos reproduções
Rua 25 de Março, de Antonio Ferrigno: antiga várzea, casario e lavadeiras



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Acredite. São Paulo já foi uma cidade muito tranqüila. Quem tem curiosidade de ver cenas desse passado de calmaria – tempos em que sair de casa não representava ameaça – encontra farto material em um livro organizado pela pesquisadora Ruth Sprung Tarasantchi – Pintores Paisagistas: São Paulo – 1890 a 1920 (Edusp, 389 páginas, 120 reais). O volume reúne 140 pinturas e desenhos de 62 artistas. Todos viveram e trabalharam no Estado durante os trinta anos focalizados pela publicação. Cerca de um terço das obras reproduz lugares da capital. Traz, por exemplo, registros da Rua 25 de Março na época em que o Porto Geral era porto mesmo, do Jardim da Luz freqüentado por famílias ricas, de uma Avenida Paulista arborizada, do Rio Tietê limpo, do mercado de flores da Praça Ramos de Azevedo e da Igreja do Cambuci. Cada pintor conta com uma curta biografia. Não espere encontrar nenhuma Tarsila do Amaral ou outro representante da arte nacional. Em sua maioria, são pintores acadêmicos obscuros, lembrados apenas por especialistas. Ao lado dos reconhecidos Almeida Júnior, Benedito Calixto e Oscar Pereira da Silva, que assina painéis da Igreja da Consolação, estão os quase anônimos Georgina de Albuquerque, Antonio Ferrigno, Nicola Fabricatore e Enrico Vio. "Uma intenção da pesquisa foi trazer à luz a obra de artistas ignorados ou esquecidos", afirma Ruth. Boa parte das imagens não tem nenhum valor artístico. Elas são importantes apenas pelo teor documental.

 

Avenida Paulista: era assim em 1904, retratada por Oscar Pereira da Silva

O trabalho começou há mais de dez anos como tese de doutorado em história da arte, na Escola de Comunicação e Artes da USP. Para localizar parte dos quadros, a autora teve de bater muita perna. "Quase nenhum deles estava em exposição pública. Alguns se encontravam perdidos em corredores sombrios." Outros foram achados em reservas técnicas de museus, especialmente o Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, e na Pinacoteca do Estado. A investigação passou também por insistentes visitas a leilões e coleções particulares. Se, por um lado, a autora deparou com quem a ajudasse na missão, por outro surpreendeu-se com a pouca atenção de algumas famílias com o legado de seus antepassados. Ruth chegou a comprar um quadro, Casamento Caipira, de Adolfo Fonzari (1880-1959), apenas para utilizar em aulas de restauração. A tela estava escura e rasgada. Durante o trabalho de recuperação, descobriu que se tratava de uma obra significativa. A autora acredita que muitas outras imagens paulistanas do início do século passado ainda vão aparecer. "Continuarei atrás delas", diz.

 

Museu do Ipiranga: um dia festivo de 1912, na tela de Agustin Salinas

 

Igreja do Cambuci: de José Wasth Rodrigues, que registrou vários pontos do país Mercado de Flores da Praça Ramos de Azevedo: por José Marques Campão

 

Viaduto do Chá: óleo sobre madeira de Georgina de Albuquerque Ponte da Casa Verde: vista da região em 1910, numa pintura de Felisberto Ranzini
         
     
 
 
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