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CRÔNICA
Certos
ladrões
Ivan
Angelo
E
chegamos a este absurdo: alguns assaltos passaram a ser considerados
momentos de sorte das vítimas. Sorte, imagine! Há
tanta violência nas cidades que, se nada de muito ruim acontece
numa hora dessas, as pessoas se sentem aliviadas. Agradecem a Deus.
Há
dois anos um ladrão roubou nosso carro com pistola na mão
quando minha mulher chegava à igreja. Disse que só
queria o carro para fugir, se fosse "na boa" nada ia acontecer,
pois era "ladrão bom". Minha mulher pediu-lhe a bolsa que
estava no carro. Ele apanhou-a, jogou-a no chão sem tirar
nada e arrancou. Aquilo ficou na cabeça dela: ladrão
bom. Como, "bom"? Se é ladrão é do mal, embora
alguns estejam mais atolados do que outros.
Um
assaltante abordou num sinal de trânsito uma ex-colega dela,
revisora, aidética, cheia de dívidas, dona de um carro
estropiado, e anunciou o assalto: "Passa a bolsa senão te
mato". Ela reagiu aos berros: "Mata! Mata! Estou ferrada mesmo!
Não tenho dinheiro, estou com aids! Minha vida é uma
desgraça! Mata!" O ladrão se assustou com o desespero
dela: "Calma, dona. Calma!" Tirou um relógio do bolso, jogou
dentro do carro, disse: "Vende isso aí pra arrumar uma grana.
Fica calma, dona" e sumiu.
Caso
de "ladrão bom" não sai no jornal. Cenas de sangue
vendem mais. Quando se conversa com alguém, as histórias
aparecem. Minha filha conta-me o caso de um amigo da amiga. Roubaram
a pasta dele com documentos, conta de luz, cartões de visita,
talão de cheques e o celular. Bloqueou o talão e ligou
para o telefone roubado. Atenderam. O rapaz, cauteloso: "Oi, aqui
é o dono do celular". Silêncio. Choramingou, explicou
que o telefone era da firma, os números da memória
eram importantíssimos, ia dançar no serviço,
será que dava para devolver, podiam marcar um encontro? O
ladrão disse que ia ver e desligou. No dia seguinte o rapaz
recebeu o celular, via Sedex.
Um
amigo advogado conta-me o caso de um ladrão que não
cabe bem neste rol, mas mostra como certas cabeças criminosas
mantêm relação com o nosso mundo dos direitos.
O tal roubava relógios de luxo dos ricos e famosos que desembarcam
no aeroporto. Bonitão, vestido com roupas de grife, cabelo
repicado tipo David Beckham. Preso, a figura dele foi explorada
nos telejornais da noite, da manhã e da tarde seguintes.
Pois não é que ele chamou seu advogado querendo cobrar
direito de imagem da Globo?
Uma
dupla roubou um ônibus parado no ponto final. Um deles assumiu
o volante, o outro, a roleta. Em duas viagens no horário
de pico devem ter apurado uns 300 reais. Quem me conta e calcula
é um motorista da linha. Os passageiros nem desconfiaram.
Só estranharam a animação dos dois, que pareciam
se divertir e até pagode cantarolaram em dueto.
Outra
filha minha soube do caso de uma senhora, vítima de um seqüestro-relâmpago,
que pagou o próprio resgate com um cheque pré-datado
de 200 reais, após parcimoniosa negociação.
Não tinha jóias nem celular, seu relógio não
valia nada, o cartão do banco estava estourado, impossível
sacar, e um cheque não teria fundos. "O senhor não
aceitaria um cheque pré?" ela sugeriu timidamente.
O ladrão considerou mas desconfiou: "A senhora vai sustar
o cheque". Ela reagiu: "Uai, meu filho, você já remexeu
minha bolsa toda, sabe onde moro, onde que eu trabalho, meu telefone.
Se eu sustar, você vem atrás de mim, não é
não? Deus me livre!" Fechado o negócio, foi libertada.
No fim do mês, comentava: "Ai, meu Deus, tá chegando
o dia do cheque do ladrão". Que caiu na data certa. Trato
é trato.
Bom
ladrão? Arrepender-se na hora de morrer é fácil.
Difícil é viver aqui do nosso lado, correndo deles.
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