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26 de maio de 2004
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CRÔNICA

Certos ladrões

Ivan Angelo

E chegamos a este absurdo: alguns assaltos passaram a ser considerados momentos de sorte das vítimas. Sorte, imagine! Há tanta violência nas cidades que, se nada de muito ruim acontece numa hora dessas, as pessoas se sentem aliviadas. Agradecem a Deus.

Há dois anos um ladrão roubou nosso carro com pistola na mão quando minha mulher chegava à igreja. Disse que só queria o carro para fugir, se fosse "na boa" nada ia acontecer, pois era "ladrão bom". Minha mulher pediu-lhe a bolsa que estava no carro. Ele apanhou-a, jogou-a no chão sem tirar nada e arrancou. Aquilo ficou na cabeça dela: ladrão bom. Como, "bom"? Se é ladrão é do mal, embora alguns estejam mais atolados do que outros.

Um assaltante abordou num sinal de trânsito uma ex-colega dela, revisora, aidética, cheia de dívidas, dona de um carro estropiado, e anunciou o assalto: "Passa a bolsa senão te mato". Ela reagiu aos berros: "Mata! Mata! Estou ferrada mesmo! Não tenho dinheiro, estou com aids! Minha vida é uma desgraça! Mata!" O ladrão se assustou com o desespero dela: "Calma, dona. Calma!" Tirou um relógio do bolso, jogou dentro do carro, disse: "Vende isso aí pra arrumar uma grana. Fica calma, dona" – e sumiu.

Caso de "ladrão bom" não sai no jornal. Cenas de sangue vendem mais. Quando se conversa com alguém, as histórias aparecem. Minha filha conta-me o caso de um amigo da amiga. Roubaram a pasta dele com documentos, conta de luz, cartões de visita, talão de cheques e o celular. Bloqueou o talão e ligou para o telefone roubado. Atenderam. O rapaz, cauteloso: "Oi, aqui é o dono do celular". Silêncio. Choramingou, explicou que o telefone era da firma, os números da memória eram importantíssimos, ia dançar no serviço, será que dava para devolver, podiam marcar um encontro? O ladrão disse que ia ver e desligou. No dia seguinte o rapaz recebeu o celular, via Sedex.

Um amigo advogado conta-me o caso de um ladrão que não cabe bem neste rol, mas mostra como certas cabeças criminosas mantêm relação com o nosso mundo dos direitos. O tal roubava relógios de luxo dos ricos e famosos que desembarcam no aeroporto. Bonitão, vestido com roupas de grife, cabelo repicado tipo David Beckham. Preso, a figura dele foi explorada nos telejornais da noite, da manhã e da tarde seguintes. Pois não é que ele chamou seu advogado querendo cobrar direito de imagem da Globo?

Uma dupla roubou um ônibus parado no ponto final. Um deles assumiu o volante, o outro, a roleta. Em duas viagens no horário de pico devem ter apurado uns 300 reais. Quem me conta e calcula é um motorista da linha. Os passageiros nem desconfiaram. Só estranharam a animação dos dois, que pareciam se divertir e até pagode cantarolaram em dueto.

Outra filha minha soube do caso de uma senhora, vítima de um seqüestro-relâmpago, que pagou o próprio resgate com um cheque pré-datado de 200 reais, após parcimoniosa negociação. Não tinha jóias nem celular, seu relógio não valia nada, o cartão do banco estava estourado, impossível sacar, e um cheque não teria fundos. "O senhor não aceitaria um cheque pré?" – ela sugeriu timidamente. O ladrão considerou mas desconfiou: "A senhora vai sustar o cheque". Ela reagiu: "Uai, meu filho, você já remexeu minha bolsa toda, sabe onde moro, onde que eu trabalho, meu telefone. Se eu sustar, você vem atrás de mim, não é não? Deus me livre!" Fechado o negócio, foi libertada. No fim do mês, comentava: "Ai, meu Deus, tá chegando o dia do cheque do ladrão". Que caiu na data certa. Trato é trato.

Bom ladrão? Arrepender-se na hora de morrer é fácil. Difícil é viver aqui do nosso lado, correndo deles.

         
     
 
 
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