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CRÔNICA
Maus-tratos
Ivan Angelo
Com muita discrição
e envergonhado, o vizinho me procura para pedir ajuda. Talvez devesse
dizer: pedir socorro. É um homem que conheço de elevador
e de cachorro e aqui estou furtando graças de um narrador
de Machado de Assis, que fala de um Fulano que conhecia de vista
e de chapéu. Meu vizinho desce e sobe carregando um desses
cachorros pequenos de nariz achatado e olhos saltados. Ao entrarem
no elevador, conversam entre si com pequenos grunhidos cochichados,
e suspeito que se entendem, pois, após um ou dois grunhidos
no ouvido um do outro, portam-se como adultos bem treinados, até
o fim da viagem.
Ele já me havia dito que
sabia do meu trabalho. Ousadia que os discretos só cometem
quando estão apenas dois no elevador, ele e o interlocutor,
três com o cachorro, no caso. Eu vinha sentindo em seus bons-dias
e boas-noites um refreado desejo de aproximação; a
curta conversa no percurso de onze andares foi suficiente para ele
dizer que me conhecia bem, pelo que eu escrevia, e perguntar se
podíamos nos falar um dia desses. Podíamos, que fazer?
Apresentou-se à noitinha.
Era, resumindo, um pedido de socorro.
A introdução que
ele fez não foi longa, e acho que para abreviá-la
nem aceitou chá, café, refrigerante ou uísque.
Que era um homem de paz, garantiu, incapaz de levantar a mão
para uma pessoa. Jamais. Ele e a mulher estavam juntos havia mais
de dez anos, cada um tinha um filho casado, filhos esses de outro
casamento, não tinham netos. Casaram-se por amor, revelou
sem pudor. Já eram separados quando se conheceram. A idéia
do cachorro fora dele, ela não apreciava bichos. Temi por
um brevíssimo instante que ele fosse me pedir para ficar
com o cãozinho, mas não:
De uns tempos para cá,
ela começou a me agredir. Me bater!
Abri os olhos ante a revelação
inesperada. Só então reparei que sua mão direita
tremia e lamentei não ter reparado nisso antes. Ele deveria
estar muito desamparado para tratar daquilo com um quase desconhecido.
Entendi a solidão dele, não era coisa que pudesse
falar com o filho.
Ficamos parados, como se a revelação
fosse uma barreira, e não uma entrega. Talvez ele devesse
ter contado aos poucos, preparado nosso espírito esmiuçando
os pequenos sinais que desembocaram na situação. Não:
o que ele queria era se livrar daquilo.
Tentei visualizar a mulher, uma
pequenininha, grisalha, magra, e pensei como é que ela poderia
ter energia para as agressões. A pergunta que consegui fazer
"Bate como?" era meio idiota, e acho que ele a pôs
na conta da perplexidade:
Bate! Com a mão,
com a colher, com a frigideira, com a chinela, joga copo.
Falava como um ofendido, não
com raiva. Como se, apesar de tudo, o amor continuasse. Se eu perguntasse
por que ela batia, poderia parecer que eu julgava que havia uma
justificativa para a agressão dela, como se ele cometesse
faltas merecedoras ou a irritasse. Desconfiei que no entrave do
sofrimento ele estivesse procurando uma desculpa para continuar,
ou algo que a fizesse parar, não um interlocutor indignado
que dissesse vai à delegacia e dá queixa, pede separação
judicial, dá o troco.
Vergonha ou medo de piorar as
coisas trava a maioria dos agredidos, mulher, homem, criança.
Meu vizinho era uma raridade estatística, homem que apanha
de mulher, e na sofrida conversa que se seguiu entendi que a esperança
é que o impedia de agir, ou reagir.
Fiz o principal: ouvi. E, para
não ser apenas ouvidos, recomendei que desse a ela flores,
de preferência pela manhã, sempre, que mulher nenhuma
agride um homem que lhe dá flores.
Ontem entrou no elevador com
seu cachorro. Olhei a mão que abraçava o animal: não
tremia. A mão se fechou e o dedão subiu, a boca sorriu
de lábios cerrados, a cabeça acenou confirmando o
dedão. Estava indo tudo bem.
e-mail: ivan@abril.com.br
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