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26 de abril de 2006
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CRÔNICA

Maus-tratos

Ivan Angelo

Com muita discrição e envergonhado, o vizinho me procura para pedir ajuda. Talvez devesse dizer: pedir socorro. É um homem que conheço de elevador e de cachorro – e aqui estou furtando graças de um narrador de Machado de Assis, que fala de um Fulano que conhecia de vista e de chapéu. Meu vizinho desce e sobe carregando um desses cachorros pequenos de nariz achatado e olhos saltados. Ao entrarem no elevador, conversam entre si com pequenos grunhidos cochichados, e suspeito que se entendem, pois, após um ou dois grunhidos no ouvido um do outro, portam-se como adultos bem treinados, até o fim da viagem.

Ele já me havia dito que sabia do meu trabalho. Ousadia que os discretos só cometem quando estão apenas dois no elevador, ele e o interlocutor, três com o cachorro, no caso. Eu vinha sentindo em seus bons-dias e boas-noites um refreado desejo de aproximação; a curta conversa no percurso de onze andares foi suficiente para ele dizer que me conhecia bem, pelo que eu escrevia, e perguntar se podíamos nos falar um dia desses. Podíamos, que fazer?

Apresentou-se à noitinha. Era, resumindo, um pedido de socorro.

A introdução que ele fez não foi longa, e acho que para abreviá-la nem aceitou chá, café, refrigerante ou uísque. Que era um homem de paz, garantiu, incapaz de levantar a mão para uma pessoa. Jamais. Ele e a mulher estavam juntos havia mais de dez anos, cada um tinha um filho casado, filhos esses de outro casamento, não tinham netos. Casaram-se por amor, revelou sem pudor. Já eram separados quando se conheceram. A idéia do cachorro fora dele, ela não apreciava bichos. Temi por um brevíssimo instante que ele fosse me pedir para ficar com o cãozinho, mas não:

– De uns tempos para cá, ela começou a me agredir. Me bater!

Abri os olhos ante a revelação inesperada. Só então reparei que sua mão direita tremia e lamentei não ter reparado nisso antes. Ele deveria estar muito desamparado para tratar daquilo com um quase desconhecido. Entendi a solidão dele, não era coisa que pudesse falar com o filho.

Ficamos parados, como se a revelação fosse uma barreira, e não uma entrega. Talvez ele devesse ter contado aos poucos, preparado nosso espírito esmiuçando os pequenos sinais que desembocaram na situação. Não: o que ele queria era se livrar daquilo.

Tentei visualizar a mulher, uma pequenininha, grisalha, magra, e pensei como é que ela poderia ter energia para as agressões. A pergunta que consegui fazer – "Bate como?" – era meio idiota, e acho que ele a pôs na conta da perplexidade:

– Bate! Com a mão, com a colher, com a frigideira, com a chinela, joga copo.

Falava como um ofendido, não com raiva. Como se, apesar de tudo, o amor continuasse. Se eu perguntasse por que ela batia, poderia parecer que eu julgava que havia uma justificativa para a agressão dela, como se ele cometesse faltas merecedoras ou a irritasse. Desconfiei que no entrave do sofrimento ele estivesse procurando uma desculpa para continuar, ou algo que a fizesse parar, não um interlocutor indignado que dissesse vai à delegacia e dá queixa, pede separação judicial, dá o troco.

Vergonha ou medo de piorar as coisas trava a maioria dos agredidos, mulher, homem, criança. Meu vizinho era uma raridade estatística, homem que apanha de mulher, e na sofrida conversa que se seguiu entendi que a esperança é que o impedia de agir, ou reagir.

Fiz o principal: ouvi. E, para não ser apenas ouvidos, recomendei que desse a ela flores, de preferência pela manhã, sempre, que mulher nenhuma agride um homem que lhe dá flores.

Ontem entrou no elevador com seu cachorro. Olhei a mão que abraçava o animal: não tremia. A mão se fechou e o dedão subiu, a boca sorriu de lábios cerrados, a cabeça acenou confirmando o dedão. Estava indo tudo bem.

e-mail: ivan@abril.com.br

     
   
 
 
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