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CRÔNICA
Letra
morta
Leis
e programas que
os hábitos derrotaram
Ivan
Angelo
São
Paulo: altas horas da noite, nosso carro pára no sinal da
Avenida Paulista e surgem uns meninos esmolambados, há dias
sem banho, encardidos, caixinha na mão, pedindo para comprarmos
uma bala ou dar-lhes um trocado.
A mesma cena, sabemos, repete-se àquela hora em Salvador,
Recife, Rio, Belo Horizonte, Brasília ou Porto Alegre. Se
o programa Fome Zero der resultado, e se acreditarmos que os meninos
da madrugada recolhem dinheiro para que suas famílias possam
comer, ficaremos livres dessas cenas? São duas condicionais
muito pesadas numa pergunta só. Pedir tornou-se um hábito,
cultura.
Já se tentou de outro jeito, mais à bruta. Não
sei se vocês se lembram. Em 1996, foi aprovada no Congresso
e sancionada pelo presidente uma lei para punir com detenção
e processo os pais que explorassem os filhos como pedintes ou mesmo
os deixassem vadios pelas ruas. Chegaram a prender um casal em Brasília,
como exemplo do que iria acontecer dali para a frente com os pais
irresponsáveis de meninos vadios, e como demonstração
de que as autoridades estavam dispostas a fazer cumprir a lei. Quando
foi exibida a reportagem na televisão, no horário
nobre, o que os telespectadores viram foi o retrato da necessidade,
não o da esperteza e da safadeza, como se esperava. Pai e
mãe miseráveis, com trabalhos miseráveis, morando
em barraco miserável. Foi um bote errado. Não se falou
mais nessa lei.
O problema é antigo. O senador Alcindo Guanabara propôs
em 1917 uma lei sobre recolhimento de menores abandonados e delinqüentes.
Medidas que só tratam da superfície não resolvem,
não adiantam leis regulando a aparência, se o problema
está nos lares, na necessidade, nos hábitos.
Lembram-se daquela lei, aprovada também no ano de 1996, que
obriga todos os açougues e supermercados a vender somente
carne já pesada e empacotada? A intenção era
evitar contaminação. Maior destaque na imprensa, apoio,
"no Primeiro Mundo é assim". Quem ligou? Nem foi regulamentada.
Como é que pobre iria comprar seu pouquinho de carne? E o
aposentado que só quisesse dois bifes, como é que
ia fazer? E quem faz questão de carne moída na hora,
como ficaria? E quem gosta de comprar a peça inteira? Esquece...
Quem não se lembra da desburocratização, daquela
guerra contra os despachantes e cartórios e contra exigências
da própria administração pública? Lembram-se
do Beltrão, quixotesca figura dos anos 80 que tentava reduzir
a papelada da burocracia? Foi derrotado pelas cópias autenticadas,
firmas reconhecidas, certidões, nada-consta, atestados...
É cultura.
No país inteiro é proibido jogar lixo na rua. Quem
respeita? É hábito. As prefeituras têm de multar.
Quais multam? Têm de limpar. E limpam? O Código Nacional
de Trânsito proíbe estacionar em calçadas e
filas duplas. Ninguém respeita. Há cidades, como o
Rio, em que é regra estacionar nas calçadas.
Quem já ouviu falar de motorista multado por abuso de buzina?
Está no código. No entanto, usa-se a buzina de preferência
para alarmar ou insultar outros motoristas e pedestres. Houve um
tempo em que o direito do cidadão ao silêncio era sagrado.
Vejam a beleza e exatidão do texto do vereador paulistano
José de Alcântara Machado no projeto da Lei do Sossego,
de 1916. Os condutores de veículos só poderiam buzinar
na iminência de um perigo:
"(...)
usarão o sinal de alarme uma só vez. Se porém
o sinal for ineficiente para remover o perigo, deverão parar,
sem que lhes seja lícito substituir a parada pela repetição
dos sinais ruidosos".
Os maus hábitos derrotaram também essa preciosidade.
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