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26 de fevereiro de 2003
ESPECIAL
CIDADE
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CRÔNICA
   

CIDADE

Guerra aos helicópteros

Moradores querem restringir o
tráfego aéreo sobre os Jardins

Lúcia Monteiro

Do lado de dentro dos modernos edifícios de escritórios da Avenida Faria Lima, com vidros duplos nas janelas, praticamente não dá para ouvir sons externos – nem de buzinas nem de hélices. Quem mora por ali, no entanto, chega a enfrentar ruídos de até 95 decibéis provocados por helicópteros. A legislação estabelece o máximo de 55 decibéis na região. Essa barulheira foi medida pela Sociedade dos Amigos dos Jardins Europa e Paulistano (Sajep), numa sexta-feira, entre 16 horas e 17h30. Constatou-se ainda que, nos horários de pico, um helicóptero cruza a avenida a cada seis minutos. "Nosso objetivo é fechar os helipontos da região", afirma o arquiteto Roberto Saruê, diretor da Sajep.

Mario Rodrigues
"Sou piloto e proprietário de helicóptero. Vôo três vezes por semana, mas me recuso a decolar da Faria Lima, perto de onde moro e trabalho. Uso os helicentros."
Pedro Mellão, empresário

O problema se intensificou com o crescimento da frota aérea e com os congestionamentos gigantescos em terra firme. "Sou piloto e proprietário de helicóptero, vôo três vezes por semana, mas me recuso a decolar da Faria Lima, perto de onde moro e trabalho", diz o empresário Pedro Mellão. "Uso os helicentros." Restringir o tráfego sobre áreas residenciais a uma altura mínima de 5.000 pés (1.524 metros) é uma das principais reivindicações da associação. Hoje, o limite de circulação fica entre 500 e 2.800 pés (152 e 853 metros). "Não podemos agir se não houver mudança na lei. O pedido dos moradores não basta", afirma o coronel Helio Severino Filho, chefe do Serviço Regional de Proteção ao Vôo. "Entendo que incomoda, mas esta é uma área comercial e nosso heliponto foi aprovado", argumenta o empresário José Roberto Auriemo, um dos donos do Edifício Plaza Iguatemi, inaugurado no ano passado.

"É preciso que existam normas. Se a população não reclama, abusos acontecem. Emissoras de rádio e TV sobrevoam os Jardins por até uma hora. É ensurdecedor."
Cândido Malta, urbanista
Eduardo Albarello

Os moradores buscam a mesma tranqüilidade dos veranistas do Condomínio Laranjeiras, em Parati, que entraram num acordo e proibiram o sobrevôo de suas mansões. "Lá, os usuários são os próprios incomodados", diz o urbanista Cândido Malta, presidente da Sajep. "Em São Paulo, como isso não acontece, nossa briga é bem mais difícil." Teoricamente, só se pode sobrevoar São Paulo por dezoito corredores, em geral sobre rios e estradas. Nada impede, porém, que as aeronaves passem sobre bairros quando se dirigem a helipontos. Ou seja, o céu paulistano é uma espécie de terra de ninguém, diferentemente de metrópoles como Paris e Nova York, onde helicópteros circulam pela área urbana apenas em casos de emergência. "Aqui, se um piloto usa helicentros ou helipontos privados, não precisa informar a torre", afirma o coronel. Dos 172 helipontos da cidade, não mais que trinta foram aprovados pela prefeitura, de acordo com o secretário do Planejamento, Jorge Wilheim. "Queremos civilizar esse tráfego de helicópteros", diz ele, que pediu há um mês uma reunião com o DAC para discutir o assunto. Até agora, não ouviu resposta alguma – um contra-senso em se tratando de questão tão ruidosa.

Mario Rodrigues
"A Aeronáutica levou um ano para aprovar o heliponto do Plaza Iguatemi, que opera dia e noite. Até entendo que o barulho incomoda, mas esta é uma área comercial."
José Roberto Auriemo, empresário, sócio dos edifícios Plaza Iguatemi e San Paolo

 
Fotos Mario Rodrigues e Sajep/divulgação

Barulheira no ar

O que essas aeronaves fazem na região da Faria Lima

6 minutos é o intervalo entre os vôos nos horários de pico

16 helipontos operam na região, o que corresponde a 10% do total da cidade. Dos doze da Avenida Faria Lima, seis têm autorização da prefeitura

95 decibéis é o nível de ruído produzido pelas hélices (a lei permite 55 decibéis)

2 800 pés (ou 853 metros) é a altura máxima permitida para sobrevoar a Faria Lima

 

         
     
 
 
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