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26 de janeiro de 2005
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CRÔNICA

Pequenas fatalidades

Ivan Angelo

Outro dia eu estava no chuveiro e assim que fechei a torneira escutei os três bips indicativos de que a secretária eletrônica havia acabado de gravar uma mensagem. Quando pude ouvi-la, as palavras eram incompreensíveis. Todas. Voltei a fita várias vezes, aumentei o volume, colei o ouvido ao aparelho: nada. Os ruídos e chiados da interferência só aumentaram. Fiz o contrário, não deu certo. Era uma mensagem meio longa, a pessoa queria dizer alguma coisa. A idéia de que alguém tentara entrar em contato comigo e uma circunstância qualquer o impedira a princípio me irritou e aos poucos me inquietou. Quem? A voz atrás dos ruídos eletrônicos era de homem, tom vagaroso. E se alguém estivesse pedindo ajuda e eu falhava involuntariamente? E se fosse um convite para trabalho nestes tempos bicudos? Alguém me deve dinheiro: quem sabe se dispunha a pagar? Ou explicava, coitado, por que ainda não podia pagar? Quem sabe um convite para falar no Canadá? Teria eu sido premiado em algum daqueles sorteios de fim de ano? Mais impressionado ficava a cada tentativa de decifrar a mensagem: a voz já não soava apenas vagarosa, pareceu-me que se arrastava. Meu Deus: um suicida desistindo? Fechei porta e janela, isolei-me dos barulhos, ouvi e reouvi. Julguei perceber algo como "Igor", e só. Fiz um esforço de memória, não conhecia nenhum Igor.

Pequenas fatalidades nos acontecem todos os dias. São parte da trama da própria vida. Talvez sejam feitas do mesmo intrincado tecido das grandes fatalidades, aquelas que nos encaminham para o avião que vai cair. Mas as pequenas nos permitem sorrir. Quando você está com pressa, a fila de carros ao lado sempre anda mais rápido. Se você muda de faixa, a outra é que anda. Você está sozinho em casa, entra no banho e o telefone ou a campainha da porta tocam. Você acaba de encher o tanque e no posto adiante a gasolina está bem mais barata. Você começa a dar ré no carro e materializa-se um pedestre atrapalhado passando atrás. Um dia desses fui ao oftalmologista e dilataram-me as pupilas. Eu havia esquecido os óculos escuros em casa, e fatalmente o dia resultou claríssimo, sol cruel, prédios e muros de um branco alucinado, tudo feria os olhos.

A idéia de uma engrenagem movendo todas essas coisas, as pequenas e as grandes, tem alimentado ficções e reflexões, séculos afora. "O que tem de ser tem muita força", resumiu Clarice Lispector. Um escritor angustiado como o checo Franz Kafka construiu contos inquietantes partindo de pequenos acasos. Fatalidades formam exércitos de pessimistas e de otimistas.

Entre os primeiros, ganharam espaço os aforistas da lei de Murphy, aquela cuja primeira máxima é "se alguma coisa pode dar errado, ela vai dar errado". A lei foi sintetizada por um engenheiro aeronáutico que procurava eliminar todas as possibilidades mecânicas de acidente de vôo. Ela fez sucesso, ganhou frasistas, até sentimentais: "Se você encontra a garota de seus sonhos, ela já encontrou o garoto dos sonhos dela". E humoristas: "Se alguma coisa que podia dar errado parece que está dando certo, é óbvio que você cometeu algum engano". Ou: "Não é possível criar alguma coisa à prova de trapalhões, porque os trapalhões são criativos".

Dois dias depois do telefonema, eu ia subindo a rua onde moro e encontrei um rosto ligeiramente conhecido:

– Oi! Eu sou o Igor.

Luz!

– Deixei uma mensagem na secretária do senhor.

Era o rapaz de uma agência de turismo que estava me procurando para devolver um cheque preenchido incorretamente.

     
   
 
 
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