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25 de dezembro de 2002
GENTE
AS BOAS COMPRAS
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

CRÔNICA

Quatro natais

Um nascimento, uma lembrança,
um bom negócio e uma espera

Ivan Angelo

Salvador

Assim que foi confirmada sua gravidez, Míriam fez as contas e temeu um parto no Natal. Quando a barriga ficou óbvia, perguntavam "para quando é?", e a data vinha-lhe à cabeça com sons de sinos, mas respondia ampliando possibilidades: "Pelas contas, entre 20 e 30 de dezembro". Não tinha uma razão objetiva contra o dia, emaranhava-se em justificativas longinquamente protetoras da criatura que se acrescentava de acabamentos dentro de sua barriga. Pensava quase temerosa que nesse dia o obstetra estaria envolvido numa ceia familiar, quem sabe duas taças de vinho a mais o tornariam alegre e descuidado, imaginava o anestesista vestido de Papai Noel, hospital vazio, pessoal com pressa para cair fora. Teve até um pesadelo, no qual dava à luz uma grande bola colorida de árvore de Natal. Modesta, Míriam se perguntava se não achariam pretensão dela ter filho na noite de Natal. Nossa, e se nascesse à meia-noite! Tanto temeu, que não deu outra. Por via das dúvidas, botou nele o nome de Salvador.

 

Outra mãe

Julinha, 4 anos, canta sob o viaduto onde vive com a mãe a canção que tem ouvido todos os dias: "Bate o sino pequenino, sino de Belém". Lembra-se vagamente de ter ouvido aquela música quando morava em uma casa. Luzes piscavam na árvore enfeitada. Um cachorrinho branco peludo latia: o "Pipo". "Já nasceu o Deus menino, para o nosso bem". Agora tem outro Pipo, pretinho, e a música vem do lado de lá da avenida, do alto-falante da loja. Pipo quer brincar, puxa-a pela barra do vestido, mas Julinha o rejeita, distraída pelas lembranças. "Paz na terra, pede o sino, alegre a cantar". Uma casa, outro Pipo, luzes na árvore, a boneca Teimosa, mamãe. Outra mãe! Julinha senta-se no colchão sob a viga do viaduto, põe o Pipo no colo, olhos fixos numa cena da memória: a mãe chega, arranca-a do carrinho rosa, foge entre ônibus e a voz daquela outra mãe grita desesperada, já longe: "Julinha! Cadê minha filha? Julinha!" "Abençoe, Deus menino, esse nosso lar".

 

Negócio sofrido

É véspera de Natal, anoitece. Vado sobe de carro, um Gol 1000 ano 98, a ladeira que vai dar na avenida. Um cachorrinho late numa caixa no banco de trás. Fim de ano complicado. Difícil vender o carro, emprego prometido só para janeiro. Lá adiante o sinal: amarelo, vermelho. Surgem dois caras; o de revólver, à direita: "É assalto! Abre! Chega pra lá!". O da esquerda toma o volante, o da direita senta-se atrás. Vado nem pensa: "Ô cara, vocês não têm folga de Natal?" O do revólver: "Folgado, é? Se piscar leva bala, meu!" O cãozinho late. Vado tenta: está sem emprego, duro, carro sem seguro, documentos na revenda, o cachorrinho é presente para a namorada: "Vocês não querem tentar outro cara?" O de trás dá-lhe com o cano do revólver na cabeça ("Folgado!") e tomam-lhe tudo: relógio, caneta, cartão do banco, 25 reais, óculos escuros, jeans, tênis. "Vamos pro caixa eletrônico", diz o que dirige. Vado, estressado: "Tá estourado o cartão! Tô duro, desempregado, ferrado! Vão-se arriscar por nada!" O cão late. "Quer saber? Enjoei desse cara. Diminui!" Jogam Vado para fora, cachorro, roupas, o de trás dá dois tiros na direção do vulto e arrancam. Vado recolhe suas coisas e vê que veio junto uma pochete que não é sua. Abre, conta: 5.000 dólares e uns quebrados. Considerou que tinha vendido o carro para os caras e deu risada.

 

A espera

Bia vê todos os dias o pai pôr aquela roupa vermelha, o capuz, a barba, os óculos, as botas e sair para o trabalho. Não entende por que ele dá tantos presentes para todo mundo e para ela até agora nada.

         
     
 
 
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