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CRÔNICA
Quatro
natais
Um
nascimento, uma lembrança,
um bom negócio e uma espera
Ivan
Angelo
Salvador
Assim que foi confirmada sua gravidez, Míriam fez as contas
e temeu um parto no Natal. Quando a barriga ficou óbvia,
perguntavam "para quando é?", e a data vinha-lhe à
cabeça com sons de sinos, mas respondia ampliando possibilidades:
"Pelas contas, entre 20 e 30 de dezembro". Não tinha uma
razão objetiva contra o dia, emaranhava-se em justificativas
longinquamente protetoras da criatura que se acrescentava de acabamentos
dentro de sua barriga. Pensava quase temerosa que nesse dia o obstetra
estaria envolvido numa ceia familiar, quem sabe duas taças
de vinho a mais o tornariam alegre e descuidado, imaginava o anestesista
vestido de Papai Noel, hospital vazio, pessoal com pressa para cair
fora. Teve até um pesadelo, no qual dava à luz uma
grande bola colorida de árvore de Natal. Modesta, Míriam
se perguntava se não achariam pretensão dela ter filho
na noite de Natal. Nossa, e se nascesse à meia-noite! Tanto
temeu, que não deu outra. Por via das dúvidas, botou
nele o nome de Salvador.
Outra
mãe
Julinha,
4 anos, canta sob o viaduto onde vive com a mãe a canção
que tem ouvido todos os dias: "Bate o sino pequenino, sino de
Belém". Lembra-se vagamente de ter ouvido aquela música
quando morava em uma casa. Luzes piscavam na árvore enfeitada.
Um cachorrinho branco peludo latia: o "Pipo". "Já nasceu
o Deus menino, para o nosso bem". Agora tem outro Pipo, pretinho,
e a música vem do lado de lá da avenida, do alto-falante
da loja. Pipo quer brincar, puxa-a pela barra do vestido, mas Julinha
o rejeita, distraída pelas lembranças. "Paz na
terra, pede o sino, alegre a cantar". Uma casa, outro Pipo,
luzes na árvore, a boneca Teimosa, mamãe. Outra mãe!
Julinha senta-se no colchão sob a viga do viaduto, põe
o Pipo no colo, olhos fixos numa cena da memória: a mãe
chega, arranca-a do carrinho rosa, foge entre ônibus e a voz
daquela outra mãe grita desesperada, já longe: "Julinha!
Cadê minha filha? Julinha!" "Abençoe, Deus menino,
esse nosso lar".
Negócio
sofrido
É
véspera de Natal, anoitece. Vado sobe de carro, um Gol 1000
ano 98, a ladeira que vai dar na avenida. Um cachorrinho late numa
caixa no banco de trás. Fim de ano complicado. Difícil
vender o carro, emprego prometido só para janeiro. Lá
adiante o sinal: amarelo, vermelho. Surgem dois caras; o de revólver,
à direita: "É assalto! Abre! Chega pra lá!".
O da esquerda toma o volante, o da direita senta-se atrás.
Vado nem pensa: "Ô cara, vocês não têm
folga de Natal?" O do revólver: "Folgado, é? Se piscar
leva bala, meu!" O cãozinho late. Vado tenta: está
sem emprego, duro, carro sem seguro, documentos na revenda, o cachorrinho
é presente para a namorada: "Vocês não querem
tentar outro cara?" O de trás dá-lhe com o cano do
revólver na cabeça ("Folgado!") e tomam-lhe tudo:
relógio, caneta, cartão do banco, 25 reais, óculos
escuros, jeans, tênis. "Vamos pro caixa eletrônico",
diz o que dirige. Vado, estressado: "Tá estourado o cartão!
Tô duro, desempregado, ferrado! Vão-se arriscar por
nada!" O cão late. "Quer saber? Enjoei desse cara. Diminui!"
Jogam Vado para fora, cachorro, roupas, o de trás dá
dois tiros na direção do vulto e arrancam. Vado recolhe
suas coisas e vê que veio junto uma pochete que não
é sua. Abre, conta: 5.000 dólares
e uns quebrados. Considerou que tinha vendido o carro para os caras
e deu risada.
A
espera
Bia vê todos os dias o pai pôr aquela roupa vermelha,
o capuz, a barba, os óculos, as botas e sair para o trabalho.
Não entende por que ele dá tantos presentes para todo
mundo e para ela até agora nada.
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