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É terça-feira à noite e a passarela de uma grande butique de Alphaville está armada para o show. Nos bastidores, modelos magérrimas de bobs na cabeça e maquiagem pronta se entopem de café com adoçante enquanto esperam pelo começo do desfile em rodinhas desanimadas de carteado. De repente chega Daniela Cicarelli, quebrando a tensão, toda falante, sorridente, fazendo piadas. Está atrasada porque acaba de voltar de Belo Horizonte, onde fora fazer uma sessão de fotos. Dá abraços e beijos na dona da loja, cumprimenta os fotógrafos, agrada à maquiadora e pede ao produtor: Pelo amor de Deus, compra uma barra de chocolate para mim? Como assim, querida? Jura que você quer um chocolate agora? espanta-se o produtor, acostumado com o cardápio de fome das tops. Vamos combinar? Sou uma chocólatra assumida responde ela. E
logo trazem o chocolate. Uma barrona de 100 gramas e 500 calorias,
que ela devora com seus olhos verdes arregalados.
Aos 22 anos, Daniela Cicarelli é um fenômeno que desafiou a ditadura da fita métrica com seu tipão de garota saudável e se tornou a modelo mais requisitada da cidade. Mulheraça de 1,79 metro de altura, 62 quilos, 92 centímetros de quadris, 62 de cintura e 90 de busto, suas medidas extrapolam os padrões internacionais de beleza fashion. Tem 9 centímetros a mais de quadris e está 8 quilos acima do que pesa Gisele Bündchen. Revelada em um comercial de TV, aquele em que sorvia da boca de um adolescente a última gotinha de refrigerante (sim, meninos, o beijo foi de verdade), Daniela já era uma modelo de sucesso. "Nos últimos seis meses conseguiu uma coisa rara: migrar dos trabalhos mais comerciais para os mais fashions", diz Bruno Soares, agente da modelo, que vive grudado nela para lá e para cá. Com
as curvas saradíssimas pelos treinos como maratonista, Daniela
fez sua estréia na São Paulo Fashion Week em julho,
exibindo biquínis de grifes paulistanas. Foi uma das poucas
que posaram para os fotógrafos de costas, sem medo de os
flashes revelarem celulites (acreditem, ela não tem nenhuma!).
Aplaudida, ouviu gritinhos e urros da platéia. "Quando ela
entra, é um acontecimento. Perto das outras meninas muito
mais magras, Daniela parece, no bom sentido, uma estranha no ninho",
diz Gloria Kalil, consultora e editora de moda. "Ela ainda não
sabe caminhar direito, é meio dura", critica a também
consultora Fabiana Kherlakian. "Mas não tem jeito: o público
adora ver mulher bonita." A exuberância toda da modelo dá
um ibope e tanto. Quando há fotos dela no site Chic, por
exemplo, o número de visitantes por dia pula dos habituais
15.000 para 70.000.
Quase cinco vezes mais. "Fiz uma pesquisa com minhas clientes para
escolher a modelo que tivesse mais a cara da nossa moda praia",
conta o estilista Amir Slama, dono das marcas Rosa Chá e
Sais. "Daniela ficou em primeiro lugar, batendo a Ana Hickmann."
Para estrelar campanhas comerciais, estima-se que ela fature de 20.000 a 40.000 reais. Por desfile, chega a ganhar 8.000 reais, enquanto a maioria não consegue nem 1.000 reais. "Eu não acreditava que teria espaço entre essas loiras, magrinhas, sem bumbum", diz ela. "Mas quem não arrisca...", emenda com um biquinho, que repete cada vez que solta uma gracinha. É justamente para esse seu estilão sexy que os fashionistas torcem o nariz. "Ela sofre preconceito no universo da moda porque é gostosa", afirma Marcelo Sebá, diretor de criação de algumas marcas bacanas da cidade. Foi ele quem trouxe o fotógrafo americano Terry Richardson, mestre do estilo batizado de pornô-fashion, e convidou Daniela para estrelar um ensaio de moda. A turma se alvoroça quando Daniela aparece. Na primeira fila dos desfiles, rolam cochichos. Ela deve ter colocado silicone nos seios. E no bumbum então? Daqui a pouco alcança a Feiticeira. E essa bocona? Parece o Coringa. Deve ser mais silicone. "Fico chateada quando começam a inventar essas coisas", lamenta ela. "Tadinha da Daniela, a boca é de verdade", atesta o maquiador Carlos Carrasco. Nascida
em escorpião (mandem os chocolates no próximo dia
6 de novembro), com ascendente em escorpião e lua em escorpião,
Daniela tem personalidade forte. "Faço só o que quero",
avisa a fera. No começo do mês disse não à
revista Playboy pela segunda vez e rejeitou o papel de vilã
numa trama do SBT. No ano passado fez uma pontinha na novela As
Filhas da Mãe, da Globo. Convidada para entrar no ar
em apenas três capítulos, acabou participando de quarenta.
Depois disso tentou seguir um curso de teatro e contratar uma professora
particular de interpretação. Ficou na vontade, por
falta de horário para ir às aulas. Entre suas prioridades
está manter a forma. Para tanto, dá-lhe musculação,
natação e boxe. Treina para maratonas e anda com patins
no banco de trás do carro. Quando acha uma brecha, lá
vai ela patinar no Parque do Ibirapuera. "Daniela não tem
parada, não sossega um minuto e por isso não engorda",
conta seu personal trainer, Christian Antoniazzi. "Em três
meses ela aprendeu a nadar", diz o preparador físico Marcos
Paulo Reis, que, entre outros atletas conhecidos, treina o empresário
João Paulo Diniz, ex-namorado de Daniela.
A modelo recorre às origens mineiras recupera até um pouco do sotaque perdido para desconversar com educação quando o papo cai na vida pessoal. Confirma que namorou João Paulo por seis meses e que teve um "casinho" com Arnon Collor, filho do ex-presidente Fernando Collor. Diz que prefere homens não famosos. No momento namora um engenheiro, cujo nome não revela. "Sempre fui namoradeira, mas não gosto muito de ficar por ficar. Gosto é de ter compromisso." Filha de uma família de classe média alta de Belo Horizonte, abandonou a faculdade de administração e deixou de lado o sonho de se casar na igreja de véu e grinalda. "Hoje em dia me preocupo mais em comprar uma casa do que em arrumar marido", explica. Está em dúvida se quer morar em um dúplex ou num loft. Pode ser em Moema, no Ibirapuera, no Itaim ou nos Jardins. Desde que chegou à cidade, há dois anos, já precisou mudar três vezes de flat. "Os fãs descobrem onde ela mora e armam brigadas para conquistá-la", exagera o agente Bruno Soares. Há poucos meses, um admirador teria mandado para sua agência, a Next, a chave de um Mercedes e um celular. "Ele queria que eu aceitasse o carro e ligasse de volta para marcar um encontro", jura. "Mandei devolver na hora, nem quis saber de quem era." Dois amigos confirmam a história. A bordo de um jipão da BMW, Daniela pode ser vista pela cidade. É comum carregar com ela "Gucci", seu cachorrinho maltês. Está decidida a comprar um Fuscão 79, ano de seu nascimento, para circular durante o rodízio. Quer estofar os bancos com um tecido de oncinha. "Eu sou consumista!", assume. Não deixa dúvida quando abre seu armário repleto de roupas de grife. Ou quando mostra suas coleções de dezoito relógios, trinta pares de tênis, quatro celulares e quatro crucifixos cravejados de pequenos diamantes que usa pendurados em colares. O último deles, ela acabou de comprar. Tem diamante branco e negro, que dizem ser ótimo para espantar a inveja. "Xô, olho gordo!", diverte-se, soltando uma de suas maravilhosas gargalhadas.
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