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O confronto entre Geraldo Alckmin, Paulo Maluf e José Genoíno começou a provocar, na semana passada, as emoções que estavam faltando na até então morna campanha para o governo do Estado. Ela ficou quente com a divulgação de uma nova pesquisa do Ibope. Pela primeira vez, o atual governador, Geraldo Alckmin (PSDB), ultrapassou Paulo Maluf (PPB) nas intenções de voto. A duas semanas do primeiro turno, os dois chegaram a um empate técnico, mas Alckmin ficou numericamente à frente (29 pontos porcentuais contra 28). Sua curva é ascendente, enquanto a de Maluf está em queda. Houve outra mudança importante. O deputado federal José Genoíno (PT), antes bem distanciado dos dois principais concorrentes, conquistou desde o início do mês 3 pontos percentuais por semana. Soma agora 19, que, embora sejam insuficientes para garantir sua passagem ao segundo turno, servem para colocá-lo no páreo. "O candidato do PT conta com um forte aliado no plano federal, que é o Lula", afirma o cientista político Rubens Figueiredo, do instituto Cepac Pesquisa e Comunicação. Nas projeções para o segundo turno, Alckmin ganharia de Maluf por 9 pontos e empataria com Genoíno. A
principal explicação para a queda de Maluf e a subida
de seus adversários é o alto índice de rejeição
do ex-prefeito. "Em todas as eleições Maluf perde
pontos à medida que aparece na TV e é criticado pelos
adversários", diz Figueiredo. Segundo o Ibope, seu índice
de rejeição, que em agosto era de 32%, atingiu 37%.
Uma enormidade. Significa que 9,5 milhões de eleitores não
votariam nele de jeito nenhum. A rejeição tanto a
Alckmin como a Genoíno é de 14%. "A tendência
é a intenção de votos em Maluf diminuir um
pouco mais, para algo em torno de 23% ou 25%, que é o atual
tamanho do malufismo em São Paulo", calcula o cientista político
Fernando Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas
(FGV). Sua alta rejeição poderá ser um terrível
obstáculo para ele em um eventual segundo turno. "Maluf só
tem condições de vencer caso aconteça um fato
novo relevante, na área de segurança pública,
por exemplo", acredita Abrucio.
Nas seis eleições majoritárias que perdeu, Paulo Maluf viveu quatro vezes a situação que pode se repetir: liderou as pesquisas por semanas a fio e morreu na praia, fulminado pela rejeição. Em 1996, ele deu a impressão de que deixaria essa sina no passado. Com uma gestão na prefeitura da capital que chegou a ser considerada boa ou ótima por 57% dos paulistanos, Maluf escolheu o anônimo Celso Pitta para ser seu sucessor. Pitta entrou na disputa com 2% das intenções de voto, mas Maluf ocupou a maior parte do horário político e soltou a frase: "Vote no Pitta e, se ele não for um bom prefeito, nunca mais vote em mim". Deu certo. Pitta foi eleito, com maciça transferência de votos de seu patrono. E deu errado. Pitta fez uma gestão desastrosa, marcada por denúncias de corrupção. "A frase foi um erro e me custou a eleição de 2000", diz Maluf, referindo-se a sua derrota para Marta Suplicy por perto de 1 milhão de votos. "Mas nossas pesquisas qualitativas indicam que o eleitor já me perdoou e está disposto a me dar uma segunda chance", acredita. Sua
rejeição, porém, não se deve unicamente
ao caso Pitta. A maior dificuldade de Maluf, em qualquer eleição,
é a lembrança pelo eleitor do envolvimento de seu
nome em várias denúncias. Ele é alvo de 65
processos em andamento, boa parte por mau uso do dinheiro público.
"Nunca tive uma condenação criminal", afirma Maluf.
Ele foi condenado em um processo cível que contestava a remessa
de 1 milhão de cartas a contribuintes sobre um projeto de
redução do IPTU, em 1993. O histórico de acusações
contra Maluf é extenso. Vai dos Fuscas que distribuiu com
recursos da prefeitura aos jogadores da seleção brasileira
em 1970 (recorreu depois de ser condenado a reembolsar o erário,
conseguindo a anulação da sentença) a denúncias
de superfaturamento na compra de frango para merenda escolar e em
obras milionárias, como o Túnel Ayrton Senna, a Avenida
Águas Espraiadas e a Avenida JacuPêssego. Desde
o ano passado, promotores do Ministério Público estão
investigando uma suposta conta no paraíso fiscal da ilha
de Jersey, onde Maluf teria depositado cerca de 200 milhões
de dólares. Ele nega todas as acusações. "Não
tenho nenhuma conta. Como no caso da filha que inventaram para mim,
é tudo mentira", afirma Maluf. Em 1999, ele foi acusado de
engravidar a filha adolescente de um funcionário público.
Um exame de DNA provou que ele não era o pai.
A mudança de panorama perto da reta final das eleições expõe uma característica de Alckmin que ele não gosta de admitir: sua sorte. Em diversos momentos de sua vida, ela o ajudou. Alguns deles: Há quatro anos, o agora favorito na disputa pelo governo do Estado era praticamente desconhecido dos paulistas. Com estilo discreto e ar monástico, ele foi visto durante muito tempo apenas como um pupilo e a leal sombra de Covas. "Alckmin é o mais mineiro dos candidatos ao governo", afirma Abrucio. "Mantém-se na dele, não entra em briga e, assim, comendo pelas bordas, vai fortificando sua candidatura." O que sobra em sorte falta em carisma. O colunista José Simão, da Folha de S.Paulo, chegou a apelidá-lo de picolé de chuchu. "José Simão é muito engraçado", diz o governador. Alckmin atribui a Covas, a quem mesmo na intimidade chamava de "senhor", muito do que aprendeu na política. Nascido em Pindamonhangaba, a 140 quilômetros da capital, Alckmin começou sua carreira política aos 19 anos, quando foi eleito vereador. Aos 23, já era prefeito. Nessa época, pensava em seguir a profissão de médico anestesista. Com o mandato prorrogado, tomou gosto pela política. Foi deputado estadual e depois deputado federal. Sua subida nas pesquisas vem num momento em que tenta passar uma imagem mais segura e firme, principalmente em seus programas de TV. Entre o fim do ano passado e o começo deste ano, uma série de crimes abalou São Paulo e quase abortou seu projeto de reeleição. O assassinato dos prefeitos de Campinas e de Santo André e a banalização dos seqüestros que atingiu tanto pessoas comuns quanto a filha do apresentador Silvio Santos e o publicitário Washington Olivetto fizeram com que o paulista se sentisse cada vez mais amedrontado. Para mudar esse quadro, Alckmin tem mostrado na TV algumas de suas ações, como a troca do secretário de Segurança Pública, as megablitze e a desativação do Carandiru. "Passamos por um momento difícil, mas tivemos coragem de pôr o dedo na ferida", diz ele. Outro
ponto em que seu governo vem sendo atacado é o que trata
dos pedágios nas rodovias sob concessão. "Dos 33.000
quilômetros de rodovias de São Paulo, só 3.000
são pedagiados", afirma Alckmin. "O mais justo é que
pague pela utilização e conservação
das estradas quem passa por elas." Maluf anunciou que irá
liberar o pagamento nos pedágios das 23 às 6 horas.
"Sabe por que o Alckmin viaja para o interior de helicóptero?",
ironiza Maluf. "É porque ele também detesta pagar
pedágio." Segundo o cientista político Fernando Abrucio,
a campanha contra o pedágio não está funcionando
eleitoralmente. "Isso até surte algum resultado na classe
média durante certo tempo, mas o eleitor logo vê que
não passa de demagogia", afirma.
Com sua corrida por fora, José Genoíno é o único dos três principais candidatos que jamais exerceu um cargo executivo. Aliás, esta é a primeira vez que se lança em uma eleição majoritária. Ele fez toda a sua carreira na Câmara dos Deputados, onde liderou o PT e participou de CPIs importantes, e há vinte anos é considerado um dos parlamentares mais influentes de Brasília. Em 1998 recebeu 306.988 votos, tornando-se o deputado federal mais votado do país naquelas eleições. Hábil negociador, Genoíno teve de engolir a revelação, apresentada no horário eleitoral do PSDB, de que, em duas décadas no Congresso Nacional, aprovou apenas um projeto de sua autoria. "O papel do parlamentar é ser articulador, encaminhar idéias e fazer do processo legislativo uma alternativa para as pessoas", diz. "Não é só aprovar projetos." Conhecido pela facilidade com que transita no Parlamento, o cenário democrático por excelência, ele começou sua vida política no lado oposto, pegando em armas contra o regime militar. Participou da guerrilha do Araguaia e ficou preso durante cinco anos. "A gente lutava pelo direito de sobreviver", afirma Genoíno. "Mas aprendi que a democracia é um valor fundamental, que inclui regras, liberdade de imprensa, rotatividade no poder e combate a qualquer forma de preconceito." Genoíno conta com o trabalho dos militantes e a identificação de seu nome com o de Lula para subir mais nas pesquisas. "Vou para o segundo turno se conquistar os 30% da população que aprovam o governo da Marta Suplicy", aposta. Com candidatos de perfis tão diferentes, a eleição para governador é importantíssima. No próximo dia 6, os 25,6 milhões de eleitores do Estado escolhem junto com o presidente, dois senadores, setenta deputados federais e 94 deputados estaduais um dos homens mais poderosos da República. Do Palácio dos Bandeirantes, ele irá comandar um orçamento de 49,7 bilhões de reais por ano, o terceiro do país, atrás apenas do da União e da Previdência. No Estado cujo PIB é de 240 bilhões de dólares, equivalente ao da Bélgica, ele administra uma máquina colossal. São 24 secretarias, sessenta empresas e 880.000 funcionários. Para qualquer lado que se olhe, os números do governo impressionam. Na educação, eles englobam 6.100 escolas, espalhadas pelos 645 municípios do Estado, com 220.000 professores e 6,1 milhões de alunos. As dificuldades também são imensas. A mais grave delas, de responsabilidade inerente ao governador, é enfrentar a criminalidade e criar políticas públicas que garantam a segurança dos 37 milhões de paulistas. A Polícia Civil e a Polícia Militar reúnem um efetivo de 173.000 pessoas, ou mais da metade de todas as Forças Armadas, mas no ano passado foram cometidos 17.000 homicídios, registrados 350.000 roubos e realizados 307 seqüestros. Cabe ao eleitor paulista decidir qual dos candidatos é o mais apto para cuidar desse gigante, aumentar sua riqueza e enfrentar seus enormes problemas. |
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