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CRÔNICA
Filando
a bóia
Como
quem não quer nada,
eles aparecem bem na hora
do almoço ou do jantar
Walcyr
Carrasco
Quem
gosta de antiguidades sabe muito bem. Muitas mesas de jantar do
passado tinham uma gaveta correspondente a cada lugar. Serviam para
esconder a comida de visitas inoportunas! A família toda
estava jantando. Ouvia-se bater na porta. Alguém olhava pela
janela. Dava o alarme.
É ele!
Toca
a esconder os pratos na gaveta. O jantar desaparecia. Todo mundo
ficava sentado, disfarçando. O comilão entrava, ávido
para filar a bóia. Aspirava o cheirinho.
Daqui a pouco servem pensava.
Conversa
vem, conversa vai. Nada! Saía um cafezinho. A visita fugia.
Todos abriam as gavetas e terminavam a refeição, calmamente.
Tive
um tio especialista. Vendedor, corria a cidade inteira. Na hora
do almoço, avaliava a distância até o parente
mais próximo. Tinha instinto. Chegava no instante em que
mamãe botava os pratos na mesa. Qualquer dona-de-casa sofre
com isso. Quer oferecer uma coisinha melhor para a visita. Ou estar
mais arrumada. O comilão conhece a natureza humana. Se telefonar,
corre o risco de ouvir desculpa. Melhor chegar como quem não
quer nada.
Estava passando aqui por perto, resolvi ver como vocês estão.
Mal
fala, já vai se acomodando na mesa.
Brasileiro
gosta de oferecer hospitalidade. Quem morou no exterior sabe. Aparecer
na hora da refeição é gafe. E também
inútil. Uma amiga, estudante e sem grana, tentou o golpe
no interior da França. Foi abandonada no sofá. Ao
fim do jantar, cada membro ainda pegou seu fio dental e passou na
boca. Generosamente, a dona da casa ofereceu:
Aceita um pedaço de fio dental?
Como
não tinham ofertado nem as coxinhas de frango nem a torta
de maçã, minha amiga declinou da gentileza. Fio dental
para quê?
Quando
era novinho, trabalhei em pesquisa de mercado. Tentei a estratégia.
Sempre me dei mal. O motivo foram as regras de cortesia ensinadas
por minha mãe.
Se oferecerem alguma coisa, não aceite.
Só
devia aceitar depois de muita insistência. O problema era
que ninguém insistia!
Chegava
em casa de conhecidos ou de parentes distantes. Sentava, já
sentindo o aroma do macarrão, do bife acebolado. Engolia
em seco. A dona da casa cravava o olhar na minha cara-de-pau. Eu
fingia não ver. Às vezes, demoravam um pouco conversando,
na esperança de que eu fosse embora. Finalmente, vinha o
convite.
Aceita almoçar com a gente?
Eu
tentava ser educado:
Não, não se incomodem.
Em
vez de insistir, todos se levantavam apressadamente. Corriam para
a mesa. Eu ficava com o estômago rosnando e dizendo a mim
mesmo:
Asno, asno!
Ultimamente,
tenho tentado a estratégia com minha amiga Lalá. Chego
e recebo dois beijinhos.
Que saudade!
Aguardo.
Quando os dois estão prestes a desmaiar de fome, ela vai
para a cozinha. Dali a pouco aparece com uma saladeira repleta de
folhas verdes.
Fiz uma salada para a gente.
Sento.
Como a salada, pensando que é entrada. Ela sai e... volta
com o café! Quase morro de susto. Antes que eu abra a boca,
ela explica:
Estou de regime!
E
pronto, acabou-se o jantar! Vôo para a pizzaria mais próxima.
Acreditaria totalmente na frugalidade da salada se a malvada emagrecesse.
Só engorda. Deve ter um pernil escondido no forno, para devorar
assim que eu saia! Não é o único caso. Nos
últimos tempos, já me ofereceram canja leve de galinha
e queijo de soja como jantar!
Acabaram-se
as gavetas na mesa. A desculpa do regime tornou-se mais efetiva!
A tradição de filar bóia está chegando
ao fim. Seja dita a verdade. Comilões fora de hora, ou melhor,
sempre na hora exata até que tinham um certo charme!
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