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24 de setembro de 2003
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O amor é lindo e faz milagres

Apaixonada e sete quilos mais magra,
Marta Suplicy faz de seu casamento
uma festança para a qual convidou
400 pessoas, do presidente Lula
às velhas amigas

Erika Sallum, Lúcia Monteiro e Maria Rita Alonso

 
Ernesto Rodrigues/Folha Imagem
Agliberto Lima/AE
Afagos e beijinhos: demonstrações de carinho em público, como no Carnaval, são freqüentes entre Marta e Luis Favre

Marta Suplicy, a prefeita de São Paulo, arranjou um gatão para chamar de seu. Neste sábado (20), aos 58 anos, a prefeita, decidida como ela só, mete um guizo no dedo anular do gato. O noivo que agora recebe a mão da prefeita e faz a ela juras de amor eterno é o franco-argentino Luis Favre, quatro anos mais jovem. Com seus olhos azuis e um poder de sedução comprovado em quatro casamentos anteriores e numa rede de ótimos contatos no circuito chique da esquerda internacional, Favre começou a influir na vida de Marta tanto com palpites políticos quanto com sugestões, devidamente aceitas, em assuntos referentes ao guarda-roupa e à dieta. Ela o ouve sobre tudo. "Depois que conheceu Luis, ela passou a escolher vestidos mais adequados e com cores certas", observa uma amiga, lembrando os modelitos vermelho-PT e verde-bandeira exibidos pela prefeita no início do mandato. Marta Suplicy tem um dos maiores guarda-roupas do Brasil.

E assim começa a história de um amor em fase nova. O namoro e o noivado chegam ao fim e, agora, tem início o período em que, nas cerimônias matrimoniais, os noivos prometem permanecer unidos para sempre (bem, não é preciso exagerar), amando-se e respeitando-se, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza... Marta, apaixonadérrima, sente-se nas nuvens. E está vencendo sua luta contra a balança. O manequim encolheu de 42 para 40. O ponteiro da balança, que andava subindo, despencou dos 67 para os 60 quilos, peso bastante adequado para quem tem 1,64 metro. No rosto, bem mais lisinho (efeito também das aplicações de Botox, é verdade), o sorriso tornou-se quase permanente. Não dá para negar. Marta Teresa Smith de Vasconcellos Suplicy, prefeita de São Paulo, psicanalista, sexóloga, ex-deputada federal, mãe de três homens adultos, avó de dois netos, ex-mulher do senador Eduardo Suplicy, petista desde a fundação do partido e bem-nascida em uma família tradicional da cidade, está mais bonita, mais elegante e feliz.

Essa fase de felicidade vivida por Marta terá seu ápice na festa de casamento, numa fazenda em Itupeva, a 70 quilômetros da capital. "Quero assumir, celebrar e compartilhar esse momento maravilhoso com meus amigos", explicou em uma entrevista recente. O dedo de Favre estará presente até no vestido escolhido. É um modelo bege, abaixo do joelho, comprado em Buenos Aires. "O Luis é palpiteiro", entrega o cabeleireiro do casal, Celso Kamura. "Quando ela vai sair com uma blusa muito decotada, ele fala mesmo. 'Isso não é roupa de prefeita', vai dizendo. 'Pode trocar'. E ela troca." No fim de semana passado, o casal esteve na capital argentina para acompanhar o segundo turno da eleição para prefeito, vencida por Aníbal Ibarra, a quem Favre prestou assessoria política e convidou para as bodas. "Ela aproveitou a viagem para ajustar o vestido", informa uma das amigas. Os acessórios serão um chapéu grande com flores e um xale de musselina feito pela estilista argentina Any Carro, que vive no Rio de Janeiro. Nada de buquê.


Arquivo pessoal
Marta em 1964, aos 19 anos, com a avó e Eduardo Suplicy, em seu primeiro casamento: celebração com pompa e circunstância na Igreja Nossa Senhora do Carmo, a mais disputada da época


Confiante na manutenção do novo peso, Marta já comprou até a roupa que pretende usar no aniversário de 450 anos da cidade, daqui a quatro meses: um terninho branco Giorgio Armani, que encontrou em liquidação na loja da Rua Bela Cintra. Com desconto de 50% (o abatimento era de 40%, mas ela pediu e conseguiu mais), saiu por cerca de 2.000 reais. Sua animação pôde ser comprovada novamente na segunda-feira passada, em duas ocasiões muito diferentes. De manhã, na inauguração de um Centro de Educação Unificado (CEU) no Itaim Paulista, Zona Leste, ela ensaiou alguns passos de rap. À noite, no jantar de cinqüenta anos do clube A Hebraica, exibia uma saia de chamois cor de vinho bem ajustada ao corpo.

Nas últimas semanas, com a ajuda de Favre, Marta Suplicy empenhou-se para que a festa não parecesse uma ostentação. Temia, é claro, que a cerimônia fosse alvo de exploração política. Nada seria pior para a imagem de quem pretende se reeleger no próximo ano do que aparecer refestelando-se com champanhe francês enquanto os munícipes, que pagam tantas taxas aos cofres da prefeitura, enfrentam problemas de transporte, buracos de rua, sujeira, pichações. Ela dizia que faria algo simples. Mas como poderia ser simples um casamento para 400 pessoas com a presença do presidente da República, de ministros e de parte da sociedade paulistana, à qual ela pertence? Aliás, Marta é uma espécie de paradoxo ambulante. É política do PT, partido de origem operária, e no entanto veio da elite e nela continua – agora, respaldada por um elegante toque apimentado representado pelo marido de passado trotskista.

 
Marcos Mendes/AE
Monalisa Lins/AE
Logo após a posse, em abril de 2001, durante o Grande Prêmio de Fórmula 1, em Interlagos: na ocasião, chegou a pesar 67 quilos Segunda-feira passada, animadíssima na inauguração de um CEU na Zona Leste, onde dançou rap: dieta e exercícios a deixaram sete quilos mais magra

Os 200 convites começaram a ser despachados em meados de agosto. Semanas antes, os noivos haviam acertado os nomes dos seis casais de padrinhos. A lista apresenta uma simetria interessante. São três antigas amigas, a artista gráfica Sylvia Monteiro e as psicanalistas Yeda Saigh e Eleonora Mendes Caldeira, com seus maridos. E três escolhas políticas: Lula, o ministro Antonio Palocci e o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, com suas mulheres. Diferentemente do que recomenda o protocolo, não foram convidados para o casamento o governador Geraldo Alckmin e dona Lu. "Mesmo que tivéssemos recebido um convite, não poderíamos comparecer", afirma a primeira-dama. "Nossa agenda para sábado já está tomada", acrescenta, citando compromissos no Parque Villa-Lobos e na Febem, onde deve distribuir 5.000 sorvetes aos internos.

O local escolhido foi a fazenda da madrinha Yeda. Com 14 alqueires, dois lagos e um vasto jardim, a Estância Santa Rita de Cássia tem uma casa digna de aparecer em revistas de decoração. As propriedades vizinhas foram alugadas para o esquema de segurança, que envolve o de Lula, a Polícia Militar e empresas particulares. Um heliponto teve de ser construído às pressas para receber os helicópteros de alguns convidados. No jardim, perto dos lagos, foi armada uma grande tenda com piso de tábua corrida. Ali ficam as mesas dos convidados, palco para músicos e DJ. Em um anexo, montou-se uma cozinha. A poucos metros, foi construída uma pequena capela, onde o juiz de paz do município, Ezequiel Alves de Oliveira, realizaria a cerimônia civil. "Que a vida de vocês tenha para sempre a alegria e o brilho desta festa", ensaiava Oliveira alguns dias antes.

 
Leo Feltran
João Caldas/divulgação
O rabino e a cantora – Por desejo de Favre, a cerimônia contará com uma bênção particular do rabino Sobel e uma apresentação da cantora Fortuna, que irá interpretar cantos gregorianos e ladinos

Marta optou por um cardápio brasileiro, com direito a arroz, feijão e leitão. Tudo preparado por uma discreta dupla de banqueteiras, as sócias Lourdes Bottura e Lia Tulmann, donas dos restaurantes Badebec e Giorno Terraço. Foi uma surpresa para os concorrentes. Um deles, inconformado, ligou para uma das madrinhas: "Quanto elas cobraram? Faço por menos". Apesar da evidente projeção que uma festa como essa pode proporcionar aos contratados, quase nenhum fornecedor abriu a boca. Muitos temiam o que um deles chamou de "a ira da prefeita" caso alguma informação vazasse. "Garanto que não farei nada para esse casamento", afirmava, a menos de uma semana da festa, a boleira das estrelas Isabella Suplicy, parente distante do ex-marido de Marta. Doceira das mais badaladas de São Paulo, Isabella foi, sim, chamada pelos noivos para fazer o bolo – que não seria enfeitado com os manjados noivinhos. Quando esteve no ateliê de Isabella, dias atrás, Marta decidiu substituí-los por flores vermelhas, em homenagem ao PT. Decisão sensata. Noivinhos no bolo seria um pouco infantil no caso de um casal como Marta e Favre.

 
Heudes Régis
O cenário da festa – Localizada em Itupeva, a Estância Santa Rita de Cássia tem dois lagos. É ao lado deles que foi armada a tenda para abrigar as mesas dos convidados, a pista de dança e uma cozinha

Um evento semelhante, segundo cálculos de profissionais do ramo, dificilmente sairia por menos de 200.000 reais, incluindo tenda, comida, bebida, cachê dos músicos, equipamento de som, refrigeração e caminhões geradores de energia, já que a festa deveria se estender até a noite. Para organizar tudo, Marta contratou o produtor George Freire, filho da atriz Karin Rodrigues. "Será um típico casamento de fazenda, com muitas flores do campo e azaléias", limitou-se a dizer. Os preparativos movimentaram a vizinhança de Marta, que mora no Jardim Europa. O vaivém de carros pela Rua Dinamarca foi intenso nas duas últimas semanas com a entrega de presentes. Há desde lembranças singelas, como os ovinhos ucranianos pintados a mão, ofertados pela diretora do Teatro Municipal, Lúcia Camargo, até o pote de cerâmica do século XIX oferecido pelo ministro Márcio Thomaz Bastos. Secretários municipais se cotizaram para comprar um jogo de copos da marca Strauss, com sessenta peças, por 2.700 reais. "É tão difícil dar algo para Marta... Ela tem tudo", lamentava-se a subprefeita de Pinheiros, Bia Pardi, em dúvida até o último momento. Entre os presentes mais caros que chegaram à Rua Dinamarca figura um faqueiro de 130 peças da marca francesa Christofle, cujo modelo mais barato custa 10.000 reais.

Marta e Favre já vivem juntos. Ele foi morar com a prefeita alguns meses depois de ela se separar do senador Suplicy, em abril de 2001. Nascido em Buenos Aires, com o nome de Felipe Wermus, mais tarde trocado, Favre cresceu em um cortiço e não concluiu o secundário. Antigo militante trotskista, é conhecido como um homem culto e refinado. Três de seus quatro filhos estão em São Paulo para o casamento, assim como amigos e parentes vindos da Argentina e da França. Naturalizado francês, ele se aproximou de Marta em 2000, quando uma das irmãs da prefeita adoeceu e morreu em Paris. Ele já havia sido bem casado anteriormente com mulheres de quatro nacionalidades: a brasileira Marília Andrade, herdeira da construtora Andrade Gutierrez, a filha de um empreiteiro argentino, uma americana e uma francesa. Na época em que Marta concorria às eleições municipais, Favre ficou um período hospedado na casa da prefeita, que ainda era casada com Eduardo Suplicy. Nessa época, o senador, abatido, admitiu em uma entrevista a VEJA que sentia ciúme da aproximação dos dois. Poucos meses depois, Marta separou-se e assumiu publicamente sua nova paixão. No fim de agosto, ela declarou, durante o programa de Adriane Galisteu, na Rede Record, que Favre é o grande amor de sua vida. Na mesma noite, ele jantava sozinho no restaurante Cabaña Las Lilas, em Buenos Aires. Tentava, sem sucesso, falar com Marta pelo celular para saber como fora a entrevista.


Renato Chaui
Com que roupa? – Até as vésperas do casamento, Marta tentava convencer seu caçula, João, a comprar um terno para a cerimônia: o músico detesta formalidades


De origem judaica, Favre convidou o rabino Henry Sobel para dar uma bênção íntima, somente com a presença do casal, um pouco antes do início da cerimônia civil. De acordo com Sobel, a bênção será concedida em caráter de amizade, sem rituais. "Apenas desejarei que os dois sejam felizes, pois eles merecem", explica. Marta, que tem formação católica, garante que não convidou nenhum padre para a celebração. "A Igreja não permitiria esse tipo de união", disse na segunda-feira durante o jantar do A Hebraica. Nessa comemoração, em que estavam presentes o presidente Lula e o governador Alckmin, Favre cantou com desenvoltura o hino de Israel. Na hora do Hino Nacional Brasileiro, ficou calado. Por sua iniciativa, além da presença do rabino, o casamento terá como uma espécie de mestre-de-cerimônias a cantora Fortuna, muito requisitada nas festividades da comunidade judaica de São Paulo. As músicas que ela cantará foram selecionadas pessoalmente pelo noivo. "Luis sabe o repertório mais do que eu, pois ele escolheu tudo", conta Fortuna, cuja apresentação, logo após o almoço, incluirá canções ladinas (músicas dos antepassados sefaraditas da cantora) e cantos gregorianos.

Renato Chaui
Fabio Mangabeira
Os presentes – Na semana passada, muitos pacotes foram entregues na casa da Rua Dinamarca. Entre eles, um jogo de copos Strauss no valor de 2 700 reais dado em conjunto por catorze secretários

Marta e Favre devem trocar alianças ao som de Pavane, do francês Maurice Ravel, em mais uma decisão do noivo. Trata-se de uma bela melodia, embora algo triste e, como indica o título completo da obra – Pavane pour une Infante Défunte –, de conotação um tanto fúnebre. Felizmente, na seqüência haverá músicas mais alegres de Mozart, Haydn e Bach. O programa será executado por um quarteto de cordas montado especialmente para a ocasião com músicos da Orquestra Sinfônica Municipal, entre os quais o primeiro violino Pablo de León, que só costuma apresentar-se em salas de concerto, nunca em casamentos. "Todos os instrumentistas foram selecionados a dedo", diz o maestro Daniel Minczuk, que cuidou da produção musical e com quem Favre acertou o repertório por e-mail.

Em seguida, sai o quarteto e o DJ Fernando Figueiredo, que já se apresentou na Casa dos Artistas do SBT, entra em ação com seus pick-ups. Ele deverá tocar hits dos anos 70, sua especialidade, e um repertório variado, para que todos dancem. A festa deve esticar pelo resto da tarde, pelo menos até o anoitecer. Quando tudo terminar, os noivos voltam para casa. Não haverá viagem de lua-de-mel. Na segunda-feira, Marta dará expediente normal no Palácio das Indústrias. Com a aliança na mão esquerda.

 

Os padrinhos políticos e as madrinhas amigas

 

Antonio Milena
Marisa e Lula só aceitaram o convite poucos dias antes da cerimônia, depois do sinal verde do senador Eduardo Suplicy. Um heliponto foi construído no local da festa para receber o casal
Ana Araujo
A psicanalista Eleonora com o marido, o industrial Ivo Rosset: testemunhas de Favre

 
Raul Junior
Renata Jubran/AE
Epitacio Pessoa/AE
Jorge Mattoso, presidente da Caixa: antigo companheiro de militância do noivo Amiga de infância, Yeda Saigh, a dona do local da festa, conhece Marta desde os 6 anos A artista gráfica Sylvia Monteiro: colega de escola dos tempos do Madre Alix

 

"Não havia motivos para me convidarem"

Antonio Milena

Marta e Suplicy, em 1998: um casamento de 36 anos


Na semana passada, o senador Eduardo Suplicy deu carta branca a todos os amigos que se sentiam constrangidos em ir à cerimônia do casamento de sua ex-mulher. Com voz embargada, garantiu que não se sentiria magoado com quem decidisse comparecer.

Veja São Paulo – O senhor vai ao casamento da prefeita Marta Suplicy?
Suplicy – Por que eu iria?

Veja São Paulo – Não o convidaram?
Suplicy – Não, e não haveria motivos para me convidarem. Fui convidado para um encontro no Equador, na mesma data, com as maiores autoridades daquele país. Vou fazer uma conferência sobre o meu projeto, que é a Renda de Cidadania.

Veja São Paulo – Se o senhor fosse convidado, iria ao casamento?
Suplicy – Não iria. Há dezenas de amigos meus que foram convidados. Digo a todos que podem ir, que é mais do que compreensível. Não vou ficar magoado com ninguém.

Veja São Paulo – O senhor se lembra da festa de seu casamento com Marta, em 1964?
Suplicy – Não me peça para falar sobre isso, por favor.

 

         
     
 
 
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