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24 de setembro de 2003
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CRÔNICA

Cuide-se, primavera

Ivan Angelo

Fiquem espertos, jardineiros, bem espertos. Há namorados assaltando jardins, há damas suspirosas encorajando apaixonados impulsivos a roubar as flores mais belas.

Cuidado, flores. Há tesouras dizimando cabeças inocentes, executando sumariamente margaridas, dálias, agapantos, crisântemos, jacintos, rosas, para arrumá-las em outra ordem, chamada buquê, diferente daquela em que as dispôs a natureza.

Atenção, natureza. Chegou a hora de adubar tendências, estimular brotações, encorajar florescimentos, trocar pólens ao câmbio do dia, enxertar índices, investir nos canteiros de obras, aumentar a produção.

Cuidado, produtores. Estão germinando conflitos nos campos sem cereais, estão brotando desilusões nas estufas das fábricas, aflorando desordens nos caminhos, e é preciso, sim, que vocês protejam suas searas contra os predadores, mas também ofereçam um pouco de sombra e água fresca para compensar o esforço dos que fazem nascer. Ponham um refresco no calor de criar.

Alerta, criadores, para não permitir que se alastrem as pragas da insensatez e as queimadas vorazes da especulação.

Acautelem-se, especuladores, meeiros sem suor. Olhares atentos já estão buscando sua lavra expatriada, trânsfuga protegida pelos espantalhos da política.

Cuidem-se, políticos. Foram vocês que fizeram propagar-se, arrepolhar-se e entouceirar-se os parasitas e as ervas daninhas que sugam a seiva da plantação, vocês que entregaram a lavoura a cabras vorazes, lagartas, sanguessugas, mariposas e gafanhotos, deixando restos para as abelhas operárias.

Vão com calma, operários, trabalhadores, lavradores. Não queiram tirar da terra mais do que ela pode dar, pois ela se esgota, nem menos, pois é manhosa. Saber quanto exige paciência, qualquer dose tem hora certa e ciência para se ministrar.

Fiquem espertos, ministros, em seu cotidiano ministério. O povo plantou nas águas de março e quer flores nesta primavera.

Cuide-se, primavera. Nosso tempo tem tentado destruir a imagem de flores e amores que a acompanha. Seu nome já não acorda nas pessoas apenas aquelas emoções sublimes que levaram Schumann a compor a sinfonia Primavera ou Vivaldi a compor o mais belo movimento do concerto As Quatro Estações. Agora acompanham seu nome, muitas vezes, as lembranças da primavera européia em que brotou a guerra mundial do fascismo, espalhando sementes das suas flores negras de ódio, ou daquela primavera libertária de Praga, sufocada ao nascer. O próprio clima não ajuda, e já vai ficando difícil reconhecê-la pela aparência, distingui-la entre as estações suas irmãs. Primeiro porque, país tropical, temos flores o ano inteiro. Segundo porque ou o inverno se demora muito além do calendário, com a navalha de seus ventos, ou o verão se antecipa, com seu bafo de maresia. Efeito estufa, queimadas, recessão, poluição, insegurança, desemprego, baixos salários, altos impostos, desmatamentos são alguns dos nomes da conspiração que tenta emudecer pássaros, escamotear borboletas, inibir abelhas, retardar flores, turvar a luz, entristecer semblantes, abafar perfumes, adiar casamentos. Cuide-se, primavera, e mantenha funcionando, para a alegria de todos, o concerto de renascimentos ao qual nos acostumamos a vê-la tão bem presidir.

E, atenção, presidente. Depois das flores desta primavera queremos frutos em dezembro.

         
     
 
 
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