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CRÔNICA
Cuide-se, primavera
Ivan Angelo
Fiquem
espertos, jardineiros, bem espertos. Há namorados assaltando
jardins, há damas suspirosas encorajando apaixonados impulsivos
a roubar as flores mais belas.
Cuidado, flores. Há tesouras dizimando cabeças inocentes,
executando sumariamente margaridas, dálias, agapantos, crisântemos,
jacintos, rosas, para arrumá-las em outra ordem, chamada
buquê, diferente daquela em que as dispôs a natureza.
Atenção, natureza. Chegou a hora de adubar tendências,
estimular brotações, encorajar florescimentos, trocar
pólens ao câmbio do dia, enxertar índices, investir
nos canteiros de obras, aumentar a produção.
Cuidado, produtores. Estão germinando conflitos nos campos
sem cereais, estão brotando desilusões nas estufas
das fábricas, aflorando desordens nos caminhos, e é
preciso, sim, que vocês protejam suas searas contra os predadores,
mas também ofereçam um pouco de sombra e água
fresca para compensar o esforço dos que fazem nascer. Ponham
um refresco no calor de criar.
Alerta, criadores, para não permitir que se alastrem as pragas
da insensatez e as queimadas vorazes da especulação.
Acautelem-se, especuladores, meeiros sem suor. Olhares atentos já
estão buscando sua lavra expatriada, trânsfuga protegida
pelos espantalhos da política.
Cuidem-se, políticos. Foram vocês que fizeram propagar-se,
arrepolhar-se e entouceirar-se os parasitas e as ervas daninhas
que sugam a seiva da plantação, vocês que entregaram
a lavoura a cabras vorazes, lagartas, sanguessugas, mariposas e
gafanhotos, deixando restos para as abelhas operárias.
Vão com calma, operários, trabalhadores, lavradores.
Não queiram tirar da terra mais do que ela pode dar, pois
ela se esgota, nem menos, pois é manhosa. Saber quanto exige
paciência, qualquer dose tem hora certa e ciência para
se ministrar.
Fiquem espertos, ministros, em seu cotidiano ministério.
O povo plantou nas águas de março e quer flores nesta
primavera.
Cuide-se, primavera. Nosso tempo tem tentado destruir a imagem de
flores e amores que a acompanha. Seu nome já não acorda
nas pessoas apenas aquelas emoções sublimes que levaram
Schumann a compor a sinfonia Primavera ou Vivaldi a compor
o mais belo movimento do concerto As Quatro Estações.
Agora acompanham seu nome, muitas vezes, as lembranças da
primavera européia em que brotou a guerra mundial do fascismo,
espalhando sementes das suas flores negras de ódio, ou daquela
primavera libertária de Praga, sufocada ao nascer. O próprio
clima não ajuda, e já vai ficando difícil reconhecê-la
pela aparência, distingui-la entre as estações
suas irmãs. Primeiro porque, país tropical, temos
flores o ano inteiro. Segundo porque ou o inverno se demora muito
além do calendário, com a navalha de seus ventos,
ou o verão se antecipa, com seu bafo de maresia. Efeito estufa,
queimadas, recessão, poluição, insegurança,
desemprego, baixos salários, altos impostos, desmatamentos
são alguns dos nomes da conspiração que tenta
emudecer pássaros, escamotear borboletas, inibir abelhas,
retardar flores, turvar a luz, entristecer semblantes, abafar perfumes,
adiar casamentos. Cuide-se, primavera, e mantenha funcionando, para
a alegria de todos, o concerto de renascimentos ao qual nos acostumamos
a vê-la tão bem presidir.
E, atenção, presidente. Depois das flores desta primavera
queremos frutos em dezembro.
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