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SOCIEDADE
Para noivos de fino trato
No universo das superfestas de casamento, organizadores de cerimônias
são contratados para garantir que todos os detalhes saiam impecáveis
Marcella Centofanti Fotos
Fernando Moraes
 | | Gabriela
e Juliana, da Festività: faz parte de seu trabalho gerenciar conflitos
familiares, como os de noivas com sogras |
Há muito que as cerimônias de casamento
deixaram de ser uma celebração para a família e se transformaram
em espetáculos ou eventos. Não à toa, o mercado de matrimônios
está em ponto de ebulição. As festas tornaram-se cada vez
mais caras e criativas. Ao redor desse mundo de sonhos, hoje orbita uma variedade
de pelo menos 600 empresas. Entre doceiros, banqueteiros, cenógrafos, estilistas,
maquiadores e padres da moda, destaca-se um grupo de profissionais responsável
por centralizar os serviços e garantir que tudo saia impecável no
grande dia. Trata-se dos organizadores de cerimônias ou wedding
planners, em inglês, como preferem os mais afetados. Eles prestam uma
consultoria completa para que os noivos não fiquem perdidos em meio a tantas
ofertas e detalhes. "O mercado de casamentos era doméstico e os preparativos
cabiam à noiva, sua mãe e sua avó", afirma Vera Simão,
que em trinta anos de carreira cuidou dos enlaces das filhas do ex-prefeito Paulo
Maluf, do megainvestidor Naji Nahas e da empresária Tânia Piva de
Albuquerque. "Hoje virou um negócio superestruturado."
De olho nesse mercado, que pelas suas estimativas movimentaria 2 bilhões
de reais por ano, Vera criou em 2002 a feira Casar. O empreendimento anual caminha
para mais uma edição, que começa nesta quinta-feira, em pleno
mês das noivas, no Terraço Daslu. Nesses cinco anos, Vera acompanhou
o crescimento e a estruturação do setor. O número de empresas
catalogadas saltou de 200 para 600. Destas, noventa estarão presentes na
próxima exposição, ao preço de 3.500 a 6.500 reais
pelo aluguel do espaço. Deve passar por ali, em quatro dias, um público
de aproximadamente 6.000 visitantes, entre noivos, curiosos e profissionais da
área.  |  | | Vera
Simão: "O mercado de casamentos era doméstico. Hoje virou um negócio
superestruturado" | Lianinha e Carla, da Wedding
& Co.: cuidado para evitar deslizes, pois a culpa sempre acaba sobrando para
elas |
"Não é fundamental
contratar um organizador, mas quem tem um aproveita melhor a festa", diz Rosa
Maciel. Formada em relações públicas, ela atua no mercado
de casamentos há oito anos, mesmo período em que publica o Guia
de Noivos, dirigido a quem é corajoso a ponto de fazer tudo sozinho.
"Parte da nossa tarefa é gerenciar os nervos da família." De fato,
pedir ajuda a um especialista é pagar para não ficar estressado
pelo menos não muito. Seu papel consiste em apresentar fornecedores,
centralizar contratos, negociar pagamentos e buscar soluções para
os pedidos mais extravagantes. Minutos antes do "sim", ele se certifica de que
todas as encomendas chegaram em ordem (das flores ao bem-casado) e cuida do cerimonial.
"Se algum detalhe não sair como o esperado, a culpa acaba sobrando para
nós", conta Carla Fiani, sócia da Wedding & Co. Economista de
formação, Carla associou-se na empresa à administradora Lianinha
Moraes, uma das herdeiras do grupo Votorantim. Em quatro anos, elas realizaram
83 casamentos. Contratar um desses organizadores
custa no mínimo 6.000 reais. Mas o preço pode ser bem mais alto.
Há quem cobre uma porcentagem sobre os gastos totais da cerimônia
e da festa, o que pode elevar bastante os honorários. A noiva continua
tendo de provar os docinhos, degustar o bufê, folhear álbuns para
escolher o fotógrafo e tudo o mais. Cuidar do enxoval e do vestido costuma
ser atribuição de sua mãe. Escolher o local da lua-de-mel
em geral cabe ao futuro marido. Muitas mulheres usam os especialistas como espécies
de mães de aluguel. "Não somos governantas", avisa Rosa Maciel.
Em seu escritório, ela registra o recorde de uma cliente que lhe enviou
cerca de 800 e-mails durante os preparativos. "A gente convive com ansiedade,
insegurança, sonhos e desafios", afirma a relações-públicas
Marina Bandeira Klink, mulher do navegador Amyr Klink. "Dá muito mais trabalho
organizar um casamento do que evento corporativo."  | | Chris
Ayrosa, da Party Design: especialista em criar cenários de sonhos, ela
cuidou das festas de Kaká e de Athina Onassis |
Com
catorze anos de altar, Marina adquiriu um olhar quase de raio X para identificar
o que o cliente quer e pode pagar. Para uma noiva clássica que não
se preocupa com a conta, o estilista indicado é Demi Queiroz. Se ela quer
um vestido estilo camisola e tem corpo impecável, deve bater à porta
de Marie Toscano. O bufê para noivos modernos pode ser o de Neka Menna Barreto,
enquanto os mais tradicionais preferem o França. Ricos antenados ficam
com a Casa Fasano. Outra de suas importantes funções é resolver
os incontáveis pepinos de última hora: o som que apresenta problemas,
o banheiro que entope, o convidado que bate o carro, outro que bebe demais...
Por isso, o bom organizador é aquele que abre a igreja e fecha o salão,
atento aos mínimos detalhes. No mercado
dos casamentos, costuma-se dizer que existem as "desorganizadoras", que mais atrapalham
do que ajudam. A juíza Ana Paula Gomes sabe bem o que é isso. Há
dois anos, sua irmã achou melhor ela mesma preparar a festa e chamou uma
pessoa para auxiliá-la somente no grande dia. Ela confundiu os padrinhos,
errou o cerimonial da igreja e foi embora no meio, sem resolver o problema da
falta de bebidas. Para sua boda, em abril, Ana Paula contratou a Marriages. "Cuidei
de alguns itens, como o bufê, mas deixei a empresa responsável pelo
resto", diz. Como resolveu ela mesma parte das questões, a conta ficou
em 3 500 reais. "Foram muito bem gastos", acredita.  |  | | Marina
Bandeira Klink: com catorze anos de experiência, olhar de raio X para identificar
o que o cliente quer e pode pagar | Rosa Maciel:
"Cuidar do enxoval e do vestido é atribuição da mãe
da noiva. Nós não somos governantas" |
A Marriages surgiu como tantas outras empresas do ramo. Há dois anos e
meio, a advogada Marcia Coelho abriu o negócio depois de promover o matrimônio
de uma amiga. O trabalho aumentou e agora ela tem a ajuda da designer Ana Júlia
Araujo, que virou organizadora após planejar sua própria cerimônia.
Durante algumas agitadíssimas semanas, elas e suas clientes chegam a se
sentir as melhores amigas. "Até seguramos o vestido da noiva para ela fazer
xixi", revela Marcia. "É preciso ter muita intimidade." Não raro,
o organizador tem de bancar a babá e tirar o copo da mão do noivo
se ele estiver exagerando nos goles. Ou gerenciar tensões familiares. Disputas
de poder entre a noiva e a sogra são comuns. Também são freqüentes
conflitos entre os pais separados que não podem se sentar à mesma
mesa. "Somos meio psicólogas", afirma Juliana Sampaio, dona da Festività.
Desde 2002, ela e sua sócia, Gabriela Camargo, realizaram cerca de 100
casamentos. Só no último fim de semana, foram três: um para
700 pessoas no Jockey Club, outro para 400 no Leopolldo e um terceiro para 900
no Terraço Daslu.  | | Marcia
e Ana Júlia, da Marriages: durante a festa, olhos atentos nos noivos e
nos convidados para evitar saias-justas |
Quem contrata um desses serviços normalmente quer uma festa única.
Dona da Party Design, a cenógrafa Chris Ayrosa é requisitada para
montar estruturas cinematográficas. No enlace do jogador Kaká com
Caroline Celico, em dezembro, ela mandou revestir o teto do salão do hotel
Grand Hyatt com 14.000 metros quadrados de tule branco, comprados na Rua 25 de
Março (ou na "Twenty-five", como ela gosta de dizer). O objetivo era mudar
o aspecto de centro de convenções do ambiente. Foi sua empresa que
coordenou a celebração da bilionária Athina Onassis com o
cavaleiro Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda. Sua próxima missão
é fazer com que a troca de alianças entre o publicitário
Roberto Justus e a atriz Ticiane Pinheiro, neste sábado, saia perfeita
da cor da forminha dos doces (rosa antigo e marrom-café) aos sessenta
buquês de rosas suspensos que vão ornamentar o salão principal
da Casa Fasano. E dá-lhe Marcha Nupcial. |