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ESPECIAL
Eles sabem que
podem morrer
Edison Veiga, Rodrigo Brancatelli e Sandra Soares
Fotos Mario Rodrigues
Colaboraram Isabela Barros e Regina Cazzamatta
A brutalidade levou o pânico a São Paulo
e chocou o país. Em menos de quatro dias, a Polícia
Militar perdeu mais gente do que em todo o ano passado foram
22 mortes em 2005, contra 23 entre a noite de sexta-feira (12) e
a manhã de terça (16). Outros 22 PMs ficaram feridos.
A carnificina, executada pelos facínoras da organização
criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), teve como marca a covardia.
Os 93 000 membros da Polícia Militar (26 000 locados na capital)
juraram morrer, se necessário for, para garantir a segurança
do cidadão comum. Mas catorze dos policiais assassinados
nem ao menos tiveram a chance de se defender. Atacados durante a
folga, eles foram surpreendidos à paisana. Entre as outras
nove vítimas, assassinadas em serviço, estavam incluídos
até mesmo dois bombeiros, profissionais dedicados somente
a realizar salvamentos e a enfrentar tragédias. O dia-a-dia
dos policiais militares é duro. Eles trabalham muito e ganham
pouco. A carga horária é de doze horas de serviço
seguidas de 36 de descanso, mas as horas extras são comuns.
Sem contar os adicionais, o piso salarial de um soldado em início
de carreira é de 1 240 reais. No extremo oposto da hierarquia,
a mais alta patente, a de coronel, tem soldo básico de cerca
de 5 000 reais. Apesar dos baixos rendimentos e da árdua
rotina, os homens e as mulheres de farda se colocam diariamente
na linha de fogo entre a sociedade e os criminosos. Conheça
a seguir a história de nove policiais militares que poderiam
dar a vida pela sua.
"Sempre quis fazer carreira militar.
Tenho orgulho da minha profissão"
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ASPIRANTE-A-OFICIAL
JULIANA CUNHA,
24 anos, do 11º Batalhão
de Policiamento Metropolitano, na região central
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Na última terça-feira, quando o caos
ainda tomava conta da cidade, policiais que faziam a ronda pelo
bairro da Bela Vista encontraram um casal com uma cópia do
estatuto do PCC e mais de 200 papelotes de cocaína. Comandando
esses PMs (e mais outros duzentos e tantos, só naquele dia)
estava uma bela jovem, a aspirante-a-oficial Juliana Cunha, recém-formada
pela Academia de Polícia Militar do Barro Branco. "É
impressionante como eles são organizados", comenta ela sobre
o fato de ter pego o exemplar da cartilha, manuscrita. Vinda do
interior para realizar o sonho de se tornar policial, Juliana está
em São Paulo há cinco anos. "Sempre quis fazer carreira
militar. Tenho orgulho da minha profissão", diz, sorrindo.
"Almejo chegar a coronel." No fim deste ano, quando deve ser promovida
a tenente, subirá um degrau desse percurso. Com 1,61 metro
de altura e jeito meigo, é difícil imaginá-la
combatendo o crime com pulso firme. Grave engano. "Sei me impor
quando é preciso", afirma. E é com essa mesma determinação
que ela dribla os preconceitos por ser mulher o contingente
feminino representa 10% da PM. Vaidosa, precisa se conter no trabalho.
Tem de prender os longos cabelos (que vão até a cintura)
em um coque e pegar leve na maquiagem. "Só uso um batonzinho,
nada que chame atenção." Distantes 230 quilômetros,
seus pais é que estão aflitos com a recente onda de
terror. "Liguei para minha mãe todos os dias", conta. Se
pensa em voltar à calma do interior? "Não. Gosto de
trabalhar aqui", afirma. "Todas as carreiras têm seu risco,
né?"
"Treinamos muito, mas praticamos
pouco na vida real. É bom que seja assim"
TENENTE ADRIANO GIOVANINNI,
35 anos, do Grupo de Ações
Táticas Especiais (Gate) |
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Os colegas da faculdade de engenharia mecatrônica
duvidavam que Adriano Giovaninni fosse mesmo policial militar. "Eu
sempre fugi de brigas", explica o tenente. "E as pessoas esperam
que os policiais sejam truculentos como os de filmes de ação."
Pois foi justamente o autocontrole que ajudou Giovaninni a fazer
carreira no Grupo de Ações Táticas Especiais
(Gate). Aos 35 anos de idade, ele deverá ser promovido nesta
semana a capitão da tropa. Vai comandar setenta homens, entre
eles seis atiradores de elite, doze especialistas em desarmar bombas
e seis negociadores (encarregados da comunicação entre
a polícia e criminosos em situações com reféns).
Convocado para atuar no chamado gerenciamento de crises, o Gate
tem em seus quadros apenas policiais aprovados em rigorosos testes.
"Treinamos muito, mas praticamos pouco na vida real. É bom
que seja assim", diz o tenente. Sangue-frio e boa aptidão
física são necessários porque as missões
do Gate tendem a não ter hora para acabar. É em momentos
como os da semana passada que a companhia mais trabalha (entre outras
missões, a tropa invadiu seis presídios rebelados
e desativou seis granadas). "Um atirador de precisão já
ficou 23 horas com a mira preparada e não recebeu ordem para
atirar", exemplifica. Se a ordem viesse, ele teria de estar firme
para acertar o tiro. Capazes de atingir um alvo a 50 metros de distância,
esses profissionais trabalham com um fuzil de calibre 7,62, com
mira óptica, mas pouco o usam. Em dezoito anos de existência
do grupo, apenas seis bandidos foram mortos pelos atiradores de
elite. "Em 98% dos casos, a negociação resolve o conflito",
conta o tenente Giovaninni.
"Já perseguimos
seqüestradores
e impedimos uma jovem de
se matar no Viaduto do Chá"
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SARGENTO ARTHUR
GENEROSO FILHO,
42 anos, das Rondas Ostensivas
com Apoio de Motocicletas (Rocam) |
SOLDADO
REGINALDO BERNARDES,
40 anos, das Rondas Ostensivas
com Apoio de Motocicletas (Rocam) |
Nada irrita mais o sargento Arthur Generoso Filho
do que ficar preso no trânsito caótico de São
Paulo nos fins de semana. Um dos 190 policiais que fazem parte das
Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam), ele vive da
velocidade. Generoso está acostumado a acelerar a Yamaha
XT 600 da PM até chegar aos 160 quilômetros por hora,
driblando outros veículos e perseguindo criminosos. "Não
consigo mais andar de carro", diz o sargento, que agora também
só usa moto aos sábados e domingos. "Em duas rodas,
fica tudo mais fácil." O trabalho do policial, que já
fez mais de 100 prisões a bordo de sua Yamaha, começa
bem cedo, às 6h45. Sempre com um parceiro, ele percorre até
as 18h30 quatro grandes corredores Rua da Consolação
e avenidas Ipiranga, Rebouças e Brasil. Roda por quarenta
minutos e pára por outros vinte em algum cruzamento. Muitas
vezes, quem lhe faz companhia é o soldado Reginaldo Bernardes,
de 40 anos, que nunca havia andado de moto até entrar para
a Rocam. Precisou passar por um treinamento de três meses
que incluiu direção defensiva e ofensiva, além
de técnicas para não se machucar (tanto) em caso de
quedas. "Nós enfrentamos muitas coisas nas ruas", conta Bernardes.
"Já perseguimos seqüestradores e impedimos uma jovem
de cometer suicídio no Viaduto do Chá." Trabalhar
sempre ao lado do mesmo parceiro também gera atritos. "É
uma espécie de casamento em que sempre pode haver brigas
e implicância. Mas tudo puramente profissional, claro."
"Depois de três
anos,
voltei a andar armado"
CAPITÃO ROGÉRIO
GUIDETTE,
36 anos, do 4º Grupamento
de Bombeiros, na Zona Sul |
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Acostumados a entrar em ação
em situações no limiar entre a vida e a morte, os
bombeiros têm aura de heróis. E muitas vezes são
mesmo: resgatar vítimas de acidentes e tragédias faz
parte de seu cotidiano. Na corporação há quinze
anos, o capitão Rogério Guidette não é
daqueles que desde pequenos sonhavam com a profissão. "Meu
irmão se interessou, e eu praticamente fui no vácuo",
lembra. Hoje, os dois são oficiais do Corpo de Bombeiros
em São Paulo. Casado e pai de dois filhos, o capitão
diz que as últimas ações do PCC mexeram com
sua rotina. "Fiquei apreensivo", afirma. "Fazia três anos
que minha arma estava guardada. Agora, voltei a carregá-la."
No dia-a-dia, dedica-se mais às funções de
comando que a patente exige. Mas, em situações graves,
ainda sai à rua. "Imagine seis pessoas acidentadas, uma presa
entre os destroços e um caminhão vazando combustível",
explica. "É quando sou acionado." Ele orgulha-se do dia em
que passava de carro pelo centro da cidade e viu o corpo de uma
mulher que acabara de se jogar do Viaduto Santa Ifigênia.
Estava de folga, mas foi ajudar. "Apresentei-me como bombeiro e
peguei um kit de primeiros socorros que sempre trago comigo." Enquanto
aguardava reforços, iniciou o processo de reanimação.
Depois de um tempo, os batimentos cardíacos voltaram, e ela
foi encaminhada ao hospital. "Não acompanhamos o que acontece
em seguida. Infelizmente, imagino que muitas pessoas morrem no hospital,
dois ou três dias depois", lamenta. Fora do trabalho, Guidette
gosta de cantar já integrou um coral de música
sacra e até os 25 anos tinha uma banda de rock e é
ligado em cinema. "Fiz curso de câmera e de iluminador", conta
ele, que planeja realizar vídeos institucionais para o Corpo
de Bombeiros.
"Não pensava
em nada, apenas em
evitar uma tragédia maior no Pacaembu"
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MAJOR WALTER MOTA,
43 anos, do 2º Batalhão
da Polícia de Choque |
Uma pilha foi a primeira coisa que acertou
a cabeça do major Walter Mota na noite do último dia
4, durante o jogo entre Corinthians e River Plate, no Estádio
do Pacaembu. Logo depois vieram um radinho de plástico, cadeiras
arrancadas da arquibancada, pedras, baquetas, pias que pertenciam
aos banheiros e até pedaços das catracas eletrônicas.
Ainda assim, Mota e outros oito policiais militares seguiram firmes
e fortes segurando a horda de torcedores que tentava invadir o gramado.
Foi uma cena heróica, transmitida ao vivo pela TV. "Na hora
não pensava em mais nada, apenas em evitar uma tragédia
maior no Pacaembu", afirma o major. Há 25 anos na corporação,
Mota é especialista em situações que envolvem
multidões faz a segurança em shows, jogos de
futebol e eventos religiosos. Naquela noite de quinta-feira, ele
estava posicionado na lateral do campo quando viu uma pequena confusão
na arquibancada amarela, à sua esquerda. O jogo estava aos
37 minutos do segundo tempo, e centenas de corintianos começavam
a forçar o portão de acesso ao gramado. Apenas com
um capacete e um cassetete, Mota reuniu oito PMs que estavam próximos
e se postou na frente da torcida. Mais doze policiais chegaram para
ajudar quando o portão de fato foi quebrado. A mulher do
major e seu filho de 14 anos não acompanharam as cenas pela
TV, pois já dormiam em casa. "Minha mulher está acostumada
a me ver nessas situações de risco", diz. "Ainda bem
que, quando vou ao estádio com meu filho, por lazer, nunca
vejo brigas entre torcidas. É porque eu torço para
a Portuguesa."
"Já perdi a conta de
quantas rebeliões em
presídios tive de conter"
TENENTE GERSON PELEGATI,
38 anos, do 1º Batalhão
de Polícia de Choque "Tobias de Aguiar" |
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A sigla Rota sempre foi temida pelos
paulistanos. Criadas ainda no tempo do regime militar, as Rondas
Ostensivas Tobias de Aguiar passaram a década de 80 sendo
chamadas de "a polícia que mata". Com cerca de 800 homens
e 100 viaturas, o grupo faz parte do 1º Batalhão de
Polícia de Choque e atua tanto no enfrentamento de motins
de cadeia como na perseguição a assaltantes armados.
"Já perdi a conta de quantas rebeliões em presídios
tive de conter", diz o tenente Gerson Pelegati. "Não há
meio-termo no nosso trabalho. Somos tratados ou como heróis
ou como vilões." Pelegati não queria ser nem um nem
outro. Professor primário em uma escola pública por
dois anos, viu na Polícia Militar a oportunidade de encontrar
uma carreira mais estável. Apesar de estar satisfeito com
a mudança, diz que estabilidade foi uma das coisas que não
encontrou ali. O tenente já fez quase tudo na PM: estourou
cativeiros de seqüestradores, correu atrás de ladrões,
invadiu penitenciárias, fez investigações e
patrulhou ruas. "É um trabalho que só nos enaltece",
afirma. "Eu me sinto realizado quando ouço um 'muito obrigado'."
"Sinto como
se estivesse fazendo
uma boa ação todo dia"
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CABO FLÁVIO HENRIQUE
DOS RIOS,
39 anos, da Base Comunitária
da PM no Jardim Ranieri, na Zona Sul |
Os olhos assustados com tanto movimento
e a fala mansa chamaram a atenção dos colegas quando
Flávio Henrique dos Rios chegou pela primeira vez a São
Paulo, há cerca de seis meses. Recém-promovido a cabo
da PM depois de dez anos na corporação, ele morou
a vida toda em Bauru, cidade a 321 quilômetros da capital.
Também se casou lá, em 2001, e por lá criou
seu filho, Matheus, hoje com 6 anos. A vida tranqüila fazendo
a ronda nas ruas só foi interrompida quando o convocaram
para integrar a equipe de uma Base Comunitária da PM no Jardim
Ranieri, na Zona Sul de São Paulo, parte de uma região
que anos atrás chegou a ser considerada a mais violenta do
mundo. Rios ainda precisaria trabalhar no turno da noite/madrugada,
das 18h30 às 6h30. "Cheguei meio ressabiado", diz o policial
bauruense. "Mas, para ser sincero, nunca me senti tão em
casa como aqui." Durante o trabalho, ele é tratado pelos
moradores como um vizinho de longa data. Comerciantes lhe mandam
pizzas, refrigerante e pães quentinhos. No Natal, duas famílias
fizeram questão de dividir a ceia com os policiais. "Minha
maior emoção foi há um mês, quando ajudei
a fazer o parto de uma moça do bairro. Sinto como se estivesse
fazendo uma boa ação todo dia."
"Quando Edílio morreu, chorei
muito"
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CABO MARCELO SERAFIN,
39 anos, do Regimento de Polícia
Montada Nove de Julho |
Edílio tinha 16 anos. Há
dois meses, após um tombo, sofreu uma ruptura no estômago
e morreu. "Cheguei de manhã e recebi a notícia. Foi
complicado, chorei muito...", lembra o cabo Marcelo Serafin, policial
desde 1987. "Trabalhamos juntos por quase sete anos, ele era bem
parecido comigo..." Edílio era um cavalo alazão. A
relação dele com Serafin é o retrato da polícia
montada, que só na capital mantém 250 animais da raça
brasileiro de hipismo. Diariamente, 130 deles saem do Regimento
de Polícia Montada Nove de Julho, na região central,
para atuar no policiamento ostensivo, em apoio ao trabalho das viaturas.
Em geral são vistos com simpatia pela população.
"É comum que as pessoas se aproximem para admirar o cavalo",
diz o cabo, que, pai de dois filhos, costuma dar atenção
especial à garotada. Nas rondas diárias, os PMs da
cavalaria se diferem dos demais. Em vez de cassetete, carregam uma
espada. Calçam botas de cano alto, quase no joelho, equipadas
com esporas. E usam capacete. Mas, segundo os próprios policiais,
o que dá alma ao trabalho é o convívio com
os cavalos. Além das atividades normais de qualquer PM, eles
gastam diariamente mais de uma hora do expediente para tratá-los,
limpá-los e encilhá-los e, no caso de Serafin,
conversar com o companheiro de demoradas e perigosas rondas pelas
ruas da cidade.
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