|
CRÔNICA
Lembra-se?
Ivan Angelo
Falar ao telefone era uma coisa
discreta. Em aparelho público de esquina ou de corredor de
shopping, falava-se baixo. Quando ligava de um posto da companhia
telefônica, a pessoa fechava-se numa cabine. Trocavam-se palavras
necessárias, pois dava trabalho deslocar-se até um
aparelho. Agora, na era do celular, todo mundo fala alto e até
com espalhafato nas ruas, nos ônibus, nos corredores, nos
restaurantes (também, pela banalidade, os assuntos não
interessam a ninguém).
Não havia essa quantidade
de cocô de cachorro nas calçadas dos bairros residenciais.
Dava-se corda nos relógios.
Era tranqüilo caminhar pelas
ruas à noite.
O papel higiênico era vendido
em pacotes de um rolo, embora as famílias fossem maiores.
Os culpados já não
eram punidos.
As pessoas não eram obrigadas
a suportar o mesmo narrador de futebol. Várias emissoras
de TV transmitiam os jogos que quisessem, podia-se escolher uma
ou outra, pelo critério de narrador menos chato.
As virilhas não eram depiladas.
Não havia tantas loiras.
Helicóptero não
era transporte urbano.
Motocicleta era diversão
dos fins de semana.
Os filmes faziam menos barulho.
Os vendedores de livros conheciam
as obras; pelo menos sabiam do que se tratava.
Os bancos lucravam bilhões
e não cobravam mensalidade para você deixar seu dinheiro
com eles nem para lhe fornecer um simples talão de cheques.
Havia só 300 picaretas
no Congresso.
Polícia era polícia,
bandido era bandido.
Jogadores de futebol habilidosos
podiam dar dribles humilhantes, fazer embaixadas, passar a bola
pelo meio das canelas dos adversários, dar chapéus
seguidos, fazer malabarismos, sem que isso fosse interpretado pelo
outro time como menosprezo antiesportivo e se tornasse motivo para
agressões.
A Justiça era apenas cega.
Brasileiro, para ir morar fora,
tinha de ser exilado.
O Natal era melhor. O Carnaval
era melhor. O Sábado de Aleluia era melhor. O 7 de Setembro
era pior.
A corujinha da TV mandava as
crianças para cama às 9 da noite.
Os jovens iam para os bares com
livros debaixo do braço e parecia que os liam, pois sobre
eles discutiam e se dividiam.
Os artistas plásticos
não desprezavam a parede. "Instalações" eram
as sanitárias, elétricas, hidráulicas etc.
A buzina era um recurso para
chamar a atenção de alguém e evitar acidentes.
Os jornais não sujavam
tanto as mãos da gente.
As famílias podiam ir
sem riscos aos estádios de futebol.
Não havia hipótese
de silicone.
Os pobres eram magros.
Os apartamentos construídos
para as famílias de classe média tinham espaço
para os móveis.
As meninas de 12 anos brincavam
com Barbie.
A escola era pública,
a rua era pública, a saúde era pública, a opinião
era pública. Privada era outra coisa.
Manga com leite fazia mal.
Havia garoa.
O beijo era uma intimidade, não
um espetáculo.
Parlamentares parlamentavam,
ministros ministravam, presidentes presidiam, garotinhos empinavam
pipas.
Pizza não era coisa feia.
e-mail: ivan@abril.com.br
|