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CRÔNICA
Fúria
no trânsito
Walcyr
Carrasco
Existe
uma forma simples de avaliar o grau de evolução do
ser humano. Basta observar dois sujeitos após uma batida.
Saem dos veículos arrebentando as portas. Olhares ferozes.
Torsos inclinados para a frente. Mãos crispadas. Batem boca.
Bastaria mudar o cenário, trocar os ternos por peles e entregar
um porrete para cada um. Estaríamos de volta à pré-história.
Poucas atividades humanas despertam tanto o espírito selvagem
como a guerra no trânsito.
Tenho
um amigo de fala mansa, calmo e sensato. Outro dia estávamos
no carro. Chuviscava. O suficiente para que os carros entrassem
numa luta desenfreada no asfalto. Cortadas súbitas. Buzinas.
Ele passou a costurar por todos os lados. Fomos ao MorumbiShopping.
Havia uma fila para o estacionamento vip (quem almoça em
alguns restaurantes de lá tem direito a manobrista gratuito).
Um idiota está parado lá na frente ele anunciou.
Por que idiota? Você não sabe o motivo... comecei
a dizer.
Não
pude terminar a frase. Agarrei-me ao banco. Ele atirou o carro para
a direita. O da frente fez o mesmo. Para não bater, meu amigo
jogou o seu sobre o canteiro. Veio a pancada. O pneu arrebentou.
O veículo parado mexeu-se, vagarosamente, e partiu. Meu amigo
esbravejou. Trocou o pneu. Depois foi a uma borracharia, onde acabou
brigando também. Passou o resto do dia num humor de cão.
Telefonou:
Tudo por culpa daquele imbecil!
Argumentei:
Você não sabia o motivo de o carro estar parado. A
pessoa podia estar se sentindo mal. Pense. Por causa de alguém
que não conhece, você quase amassou o carro, arrebentou
seu pneu e está furioso. Como permite que um desconhecido
faça tudo isso com você?
Silêncio
sepulcral. Depois, ouvi um clique do telefone sendo desligado.
Costumo
dirigir devagar. Quando vou para o Litoral Norte é uma tortura.
A estrada só tem uma pista, com muitos locais de ultrapassagem
proibida. Tento me manter na velocidade exigida pelas placas. Adianta?
Alguém sempre gruda em mim. Volta e meia, quando ultrapassam,
ouço me xingarem.
Nestes
tempos politicamente corretos, já não se ouvem tantos
gritos do tipo:
Ô dona Maria, vá pilotar fogão!
Entretanto,
existe, sim, um preconceito contra mulher ao volante. Confesso que
também já tive. Hoje, às vezes passo por uma
senhora dirigindo em paz. Alguém do meu lado reclama:
Olha lá, empatando o trânsito. Só podia ser
mulher.
Lembro
que as seguradoras costumam cobrar menos de motoristas do sexo feminino.
Causam menos acidentes. Há algum tempo uma amiga bateu em
uma moto. Teve de se trancar no carro enquanto um bando de motoqueiros
solidários com o acidentado chutava seu carro. Foi resgatada
pelo socorro. Detalhe: o culpado era o motoqueiro. Ninguém
se machucou. Ela voltou para casa apavorada.
Soube
de um rapaz que certa vez foi fechado numa grande avenida. Gritou:
Safado, você vai ver!
Seguiu
atrás, buzinando. O outro tentava fugir, ele perseguia. Deu
uma superfechada, obrigando o carro a parar. Saiu furioso, pronto
para a briga. Aproximou-se. No banco do motorista estava uma senhora
idosa, tremendo de medo. Ele caiu em si.
Parecia que eu estava em um filme, me assistindo.
Gaguejou.
Pediu desculpa. Partiu.
No
dia seguinte, vendeu o carro.
Não confio em mim mesmo ao volante. Eu me torno outra pessoa.
Prefiro não dirigir.
Claro
que não é uma receita para todo mundo. Para ele, funcionou.
Anda de ônibus, táxi ou metrô. Sente-se feliz.
Como se tivesse abandonado a pré-história e, finalmente,
ingressado na civilização.
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