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23 de novembro de 2005
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Não há melhor cartão de visita para um arquiteto, um designer de interiores ou um paisagista do que o lugar em que moram. É na intimidade do lar que eles podem exercer sua criatividade sem se preocupar com os gostos e caprichos dos clientes. Agradar a si próprio, no entanto, nem sempre é tarefa fácil. São tantas as idéias por metro quadrado que, às vezes, é preciso ter mais de um endereço para dar conta delas, como fazem Sig Bergamin e Débora Aguiar. A seguir, detalhes e curiosidades das moradias de seis estrelas da arquitetura paulistana

Sandra Soares
Fotos Mário Rodrigues

 

Sig Bergamin

"Vivo numa Casa Cor"

A faxineira Sônia Araújo garante que Sig Bergamin sabe onde está cada objeto na casa em que mora no Jardim Paulistano. "Se eu mudo um livro de lugar, 'seu' Sig repara e briga comigo", conta ela, que cuida da limpeza da mansão do arquiteto e decorador com a ajuda de outras duas empregadas. A residência, de 500 metros quadrados e quatro andares, guarda incontáveis obras de arte, livros e revistas. Paredes (inclusive as dos banheiros e da cozinha) e estantes são repletas de quadros e bibelôs. Sig compra tanta coisa, mas tanta coisa mesmo, que seus quatro endereços – em São Paulo, Campos do Jordão, Trancoso, na Bahia, e Nova York – não são suficientes para acolher tudo. "Vivo numa Casa Cor", diz ele, referindo-se à principal mostra brasileira de decoração, caracterizada por exibir um cenário em cada ambiente.

 
Em tons de azul, o último andar da mansão de Sig lembra uma casa de campo (à esq..). Na escada que liga os quatro pavimentos, ele exibe parte de seu acervo de arte. À direita, seus vasos de Murano: colorido na sala "chinesa"

Nos domínios de Sig também é assim. Sua sala de visitas, por exemplo, foi batizada de "chinesa". O quarto de hóspedes, em estilo francês, ganhou o nome de "à la Provence". O último andar parece uma sofisticada casa de campo em tons de azul, cor preferida do arquiteto. "Não me preocupo em combinar nada. Meu estilo é o da incoerência." Aos 52 anos, Sig já pensa no que será feito do imóvel no futuro. Solteiro, diz não ter para quem deixar a propriedade. Pretende transformá-la numa fundação. "Eu adoraria que a casa fosse freqüentada por estudantes de arte e de arquitetura", afirma. Faz sentido. O acervo de arte inclui obras de Andy Warhol e Miró, além de uma vasta coleção do modernismo brasileiro. Para ele, no entanto, as peças mais valiosas são outras. "Prefiro as meninas", suspira, abraçado às cachorras "Ásia", "África" e "América".

 

Fernanda Marques

Projeto tamanho-família

A sala de Fernanda tem iluminação natural garantida pelos amplos janelões e pelas portas de vidro. À direita, um tronco de madeira é usado como enfeite de mesa: solução barata e criativa

Há muitas esculturas espalhadas pelos extensos salões da casa da arquiteta Fernanda Marques, no Jardim Europa. Entre elas, uma de Iole de Freitas, outra de Elisa Bracher e uma terceira assinada pela natureza. "Encontrei um pedaço de tronco lindo. Logo o imaginei na mesa de centro da minha sala", ela conta. "Certa vez, usei como enfeite uma folha seca gigante que achei no jardim." Enxergar arte nas coisas simples parece fácil para Fernanda. Decorar o novo escritório de Pelé e o apartamento de Daniella Cicarelli, garante, também não foi difícil. Mas não dá para dizer o mesmo sobre a tarefa de projetar a própria casa: "Aqui, o cliente é a minha família. Toda escolha envolveu afeto". Para complicar, os clientes-familiares são muitos. Com a arquiteta e o marido, o empresário Gil Faiwichow, moram na residência de 750 metros quadrados cinco filhos de relacionamentos anteriores. Fernanda tem trigêmeos de 11 anos, e Gil, duas adolescentes, de 16 e 13.

 
A piscina e o muro de escalada no bem-cuidado jardim: família ligada em esportes O banheiro do casal, com 18 metros quadrados: duas pias, dois chuveiros e uma banheira de mármore

Como todos gostam de esportes, a área dedicada à malhação ganhou destaque. Ela instalou no bem-cuidado jardim com piscina uma parede de escalada com 7 metros de altura. Esse muro pode ser visto de vários ambientes, já que a casa possui grandes janelas e portas de vidro. Outra preocupação de Fernanda foi garantir a privacidade dela e do marido. A suíte do casal, com 55 metros quadrados, é quase um apartamento. Além do quarto propriamente dito, reúne um closet, uma pequena área de trabalho e um banheiro com dois chuveiros, dois vasos sanitários e duas pias. Tudo dividido por uma convidativa banheira de mármore de 27 litros.

 

Ruy Ohtake

Com jeitão de museu

 
A sala de visitas de Ruy Ohtake, apelidada por ele de "praça": espiral de Tomie Ohtake (à dir.) é uma das dezenas de obras de arte que enfeitam o espaço

Mesas triangulares, estantes redondas e algumas paredes bem coloridas – apesar de o cinza do concreto predominar – tornam lúdica a cobertura de 400 metros quadrados do arquiteto Ruy Ohtake. Ele é autor de projetos ousados, como sua própria residência, o Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, o Hotel Unique, no Jardim Paulista, e o palácio de 4 100 metros quadrados do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, no Morumbi. Depois de alguns minutos no apartamento de Ohtake, no Itaim Bibi, é difícil concluir onde cada espaço termina – e se termina. Escadas discretas levam a lugares improváveis, como um belo terraço com piscina. Os cômodos íntimos estão no 2º andar, meio escondidos atrás de um divertido parapeito em forma de onda.

 

O móvel-casa, com 16 metros de comprimento: mil utilidades

"Uma casa deve ter arte e humor", acredita. "E não precisa de cozinha." O apartamento do arquiteto (que só conta com uma geladeira) fica no topo de um flat. Ou seja, quem se hospedar ali vai ter de adotar os hábitos do anfitrião. Isso inclui comer fora diariamente. O que, segundo ele, não é nenhum sacrifício, já que a região é servida de excelentes restaurantes.

O lugar preferido de Ohtake é a sala sem divisórias, com quase 360 graus de vista, batizada por ele de "praça". Ali, exibe suas obras de arte: uma escultura de Franz Weissmann, artista austríaco naturalizado brasileiro, uma gravura de arte popular nordestina, um banco indígena, um desenho de Portinari... São dezenas. A mais curiosa, o móvel-casa, é uma invenção de Ohtake. Trata-se de uma estrutura alaranjada de 16 metros de comprimento que exerce várias funções. Começa como estante de livros, vira porta-CDs, cabideiro, miniadega, guarda-copos... e finalmente se torna mesa de jantar. O mais velho dos dois filhos da artista plástica Tomie Ohtake, o arquiteto também reserva áreas especiais para as criações da mãe. A que chama mais atenção é uma espiral amarela que parece flutuar no salão com pé-direito de 7 metros. Na verdade, a espiral fica suspensa por um fio quase invisível. O efeito, como praticamente tudo lá dentro, é surpreendente.

 
O concreto está em tudo, inclusive em estantes redondas, como a amarela da foto à esquerda. À direita, uma das escadas que levam aos ambientes íntimos e a bicicleta que Ohtake comprou numa tribo indígena: diversos estilos

 

     
   
 
 
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