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CRÔNICA A
vida dentro de um filme Walcyr Carrasco Vou
falar a verdade. Eu me sinto dentro de um filme. Um desses bem violentos, em que
os personagens levam balas perdidas. Fogem de carro com os pneus guinchando. Despencam
de prédios. Tenho motivos, apesar de ter uma vida bem preservada! Trabalho
em casa. Saio pouco. Mesmo assim, já estive no meio de um assalto a banco.
Ocorreu há alguns anos, numa agência da Brigadeiro Luís Antônio.
Por sorte, estava na sala da gerência. Mais sorte ainda, com um amigo que
foi do Exército. De repente, ouvimos uns estouros. Experiente, ele me empurrou
para o chão.
– Tiros! – avisou.
Um homem veio de gatinhas se refugiar
embaixo da mesa. Ficamos lá, ouvindo os disparos, em silêncio. Ao
cabo de alguns minutos, tudo acabado. O segurança reagira ao assalto. Feridos.
Os ladrões fugiram sem roubar. Todo mundo gritava. Respirei fundo. Tinha
me safado. Dia desses, conversava
com um vizinho. – Ah, eu já
fui seqüestrado quando era mais novo – contou com simplicidade.
Achei normal conhecer um ex-seqüestrado.
Morei no centro da cidade. Com freqüência ouvia gente correndo e gritando
durante a noite. Brigas. Há meses uma amiga deu uma festa em família.
Alguns parentes trouxeram amigos e namoradas. Sumiu o celular de seu genro. Culparam
a filhinha mais nova de uma irmã. Inocente, poderia tê-lo atirado
pela janela. Ninguém queria acreditar em outra possibilidade! Dali a alguns
meses, dois rapazes convidados foram presos. Motivo: roubo. E mais: o tio de um
foi morto em um tiroteio, pois trabalhava com cargas roubadas. Uma senhora presente
deu um golpe com uma série de cheques sem fundos. Esclareço: não
estou falando de uma festa na periferia, onde a classe média acredita residir
a contravenção. Mas de gente bem de vida, do bairro de Pinheiros,
em São Paulo. Caso próximo é o do vizinho de um amigo, 19
anos, filho de empresário, pego ao participar de um seqüestro. Gostamos
de acreditar que o crime vive distante. Mas ele já se entranhou em famílias
de classe média. Não é mais nós aqui, eles lá.
E, sim, todo mundo no meio do rolo!
No Rio de Janeiro, já estive em um carro pego no meio de um tiroteio. O
trânsito parou total. Surpreendentemente, fiquei calmo. Se viesse uma bala
perdida não havia o que fazer. Meu assistente foi assaltado em um semáforo
em São Paulo, entregou o que tinha.
Fico sem jeito ao escrever estas linhas. Tudo parece tão comum! O mais
chocante é exatamente essa banalidade. É como se vivesse em um filme
policial. Ou de ficção científica, com mundos afundados na
violência. Há, porém, uma diferença fundamental. Os
heróis cinematográficos escapam de todas as balas. Pulam de viadutos.
Atiram-se de aviões. Enfrentam seqüestradores. Dão cabeçadas
em bandidos. Derrotam dezenas de adversários, sem armas! Abrem algemas
com um pedacinho de arame! E eu? Às vezes nem consigo virar a chave na
fechadura! A vida dos personagens
é alucinante. Pessoalmente, não tenho forma física para me
atirar no lustre do banco e atingir os ladrões com os pés. Correr
no meio de uma chuva de balas e escapar ileso! Ou rolar no chão com um
atacante! Já é assustador pensar em perguntar a um convidado se
pegou o celular, como na festa de minha amiga! Ou desconfiar do filho de um vizinho
que viva trocando de carro. É
terrível a sensação de estar no meio de um filme, tão
irreal tudo se tornou! Pior ainda. No cinema, qualquer coisa é possível.
Mas a vida não tem efeitos especiais! e-mail:
walcyr@abril.com.br
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