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23 de julho de 2003
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Boas-novas no centro velho

Com a inauguração de hotel,
universidade e
academia, a
região volta a atrair investidores

Alessandro Duarte


Fotos Heudes Regis
gis
O pórtico na entrada do Mercure e o restaurante (foto à dir.): decoração lembra a São Paulo antiga

Quem anda diariamente pelo centro velho da cidade convive com muitos dos problemas que há anos assolam os paulistanos. Camelôs que tomam conta das calçadas, ruas esburacadas e uma poluição visual vergonhosa. Graças a uma ocupação desordenada, o que de dia é um formigueiro à noite vira um deserto. Apesar de tantos obstáculos, a chegada de novos empreendimentos mostra que a iniciativa privada está acreditando na tão propalada "revitalização" da área. Na última terça-feira, a região recebeu mais uma boa notícia. A rede Accor inaugurou, em sistema de soft opening (abertura parcial), o hotel Mercure São Paulo Downtown, na Rua Araújo, próximo à Praça da República. O edifício fica em um terreno onde funcionou, no início do século passado, a primeira estação geradora de energia para bondes da capital. No ano passado, a Universidade Anhembi Morumbi e a Academia Bio Ritmo também se aventuraram por ali.

O Mercure Downtown é o primeiro lançamento de uma rede internacional de hotéis no centro em três décadas. Com padrão quatro-estrelas, tem 260 apartamentos em treze andares. Um pórtico construído no início do século XX e tombado pelo patrimônio histórico foi restaurado e dá um charme especial à fachada. A decoração interna traz grandes painéis com fotos antigas. "Seremos uma opção para quem está em São Paulo a negócios e busca uma localização estratégica", afirma Orlando de Souza, diretor de operações da Accor. Para erguer o empreendimento, a rede investiu 24 milhões de reais. O setor hoteleiro tem se mostrado o mais ativo. Nos últimos três anos foram reformados o tradicional Normandie, na Avenida Ipiranga, o Bourbon, na Avenida Vieira de Carvalho, e o San Raphael, no Largo do Arouche. Até o fim de 2003 deve ser inaugurado o Holiday Inn Select Jaraguá no mesmo prédio que, entre as décadas de 50 e 70, hospedou personalidades como Ella Fitzgerald, Alain Delon e Nelson Rockefeller.


Fotos Heudes Regis
gis
Luciana de Paula, na Bio Ritmo: "Venho a pé" Anhembi Morumbi: boa infra-estrutura pesou na decisão

De acordo com um estudo da consultoria imobiliária Jones Lang LaSalle, o centro tem vocação para acolher empresas prestadoras de serviço. Mais de 40% dos edifícios são usados para esse fim (veja quadro). "A região tem uma infra-estrutura espetacular, com malha de fibra óptica, rede de distribuição que garante fornecimento ininterrupto de energia e o mais completo sistema de transporte público da cidade", diz Delduque Martins, coordenador administrativo da Universidade Anhembi Morumbi. O campus Vale do Anhangabaú ocupa um prédio que já foi do BankBoston e abriga aulas de direito, administração, ciências econômicas e relações internacionais, entre outras. "Estamos no início da formação de uma bola de neve", acredita Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente da diretoria executiva da Associação Viva o Centro. "Agora, um investimento começa a puxar outro." Só a academia Bio Ritmo, aberta em dezembro num prédio de 1912 projetado pelo escritório Ramos de Azevedo na Rua Quinze de Novembro, conseguiu reunir 1.800 alunos. "Quando me mudei para a Bela Vista, há um ano, não tinha onde malhar", conta a estudante Luciana de Paula. "Aqui posso vir a pé."

Todos os empreendedores apostam na promessa dos governos municipal e estadual de cuidar do local. Algumas secretarias já se transferiram para lá, e a prefeita Marta Suplicy pretende levar seu gabinete para a Praça do Patriarca em janeiro. "Serão investidos 168 milhões de dólares nos próximos cinco anos", garante a presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Nadia Somekh. Outro atrativo é o baixo valor cobrado pelo aluguel dos imóveis. Segundo a consultoria Jones Lang LaSalle, o aluguel do metro quadrado na região custa 15 reais. Na Berrini, esse valor salta para 52 reais e na Faria Lima, para 65 reais. "Estímulos para que haja uma convergência ao centro não faltam", diz a urbanista Regina Meyer, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. "É claro que o retorno não será imediato, mas quem está lá é porque enxerga longe."

 

         
     
 
 
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