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23 de junho de 2004
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CRÔNICA

Ah, escritores...

Ivan Angelo


Nas visitas que tenho feito às bibliotecas públicas municipais, como participante de um saudável programa que tem levado dezenas de escritores a conversar com o público em bairros distantes e carentes, ou menos distantes e ainda assim carentes, pois necessitados somos todos nesta época de carências várias, tenho procurado mostrar que os escritores são pessoas comuns, normais.

Pensando bem, uns são mais normais do que outros. Ou, como disse Caetano: de perto, ninguém é normal. Na minha família mulheres costumavam dizer de algum marido que parecia ser um camaradaço: isso é só para uso externo.

Escritores podem ser bem esquisitos, ou não tanto. E podem ser apenas protagonistas de pequenas histórias que colorem sua biografia.

O poeta gaúcho Mário Quintana é personagem de várias. Uma delas é mais uma travessura de velhinho, mas acho-a encantadora. Na história, ele está hospedado em um hotel na Serra Gaúcha, em Canela. De manhã, senta-se no refeitório, toma um bom café, respira fundo o ar puro, dá palmadinhas no peito magro, fila um cigarro de um garçom, traga fundo e depois justifica:

– Em Porto Alegre eu parei de fumar. Mas aqui ninguém sabe disso.

Não estou falando daqueles escritores espirituosos que de tanto fazer piadas acabaram sendo personagens de histórias provavelmente inventadas, como Gregório de Matos, Paula Nei, Emílio de Menezes, Oswald de Andrade e outros. Falo de gente que de vez em quando tem uns repentes, e cujos amigos às vezes dizem: esse fulano tem cada uma.

Um velho acadêmico conta-me que Vicente de Carvalho era um desses. Santista, chamado o Poeta do Mar, feriu a mão numa pescaria, passou no local apenas água salgada do mar, o ferimento infeccionou, gangrenou, tiveram de amputar-lhe o braço. Recuperou-se, e brincava:

– Camões não era manco de um olho? Pois eu sou cego de um braço.

Também do romancista mineiro Roberto Drummond contam-se histórias. Uma delas o apanha dirigindo a revista Alterosa, em 1961. Tinha pelo jornalista Jânio de Freitas uma admiração que beirava o culto. Jânio liderava uma revolução de forma, conteúdo e ética no Jornal do Brasil. No dia 25 de agosto uma notícia abalou a redação da revista:

– O Jânio caiu!

Roberto ficou pálido, fulminado:

– Ai, meu Deus! Acabou-se o JB!

– Não, Roberto. É o Jânio Quadros. Renunciou.

– Ah, que susto! – suspirou Roberto, aliviado.

Darcy Ribeiro era outro que tinha cada uma. Na Feira do Livro de Frankfurt de 1994 estávamos lá, convidados. O câncer voltara a fazer estragos em seu organismo, mas Darcy não se abatia. Tinha uma sadia relação com a morte e uma indócil relação com as mulheres bonitas. Sua guia na cidade era uma alemã jovem de tez morena, linda, de nome Barbara, e o sangue mineiro de Darcy ferveu. Delicada, não caía na cascata dele. Darcy falou até em casar, enumerou seus bens, e atirou com humor:

– Eu tenho câncer. Você não quer ser uma viúva rica?

E tem o caso do recém-falecido poeta Adão Ventura, que era um encanto de pessoa. Ele estava na pequenina Cruzília, região do Circuito das Águas, trabalhando num projeto cultural. Uma noite saiu com a turma para uma cachacinha e perdeu o rumo, não soube voltar para casa. Deu voltas, e nada. Cruzou com uma pessoa, por sorte alguém que participava do projeto, e perguntou:

– Você conhece o Adão Ventura?

O homem estranhou:

– Conheço. É você.

– Não quero saber quem ele é – explicou-se o Adão. – Quero saber é onde ele está morando.

(Desconfio que nas próximas conversas sobre a normalidade dos escritores vou fazer algumas ressalvas.)

         
     
 
 
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