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CRÔNICA
Ah, escritores...
Ivan Angelo
Nas
visitas que tenho feito às bibliotecas públicas municipais,
como participante de um saudável programa que tem levado
dezenas de escritores a conversar com o público em bairros
distantes e carentes, ou menos distantes e ainda assim carentes,
pois necessitados somos todos nesta época de carências
várias, tenho procurado mostrar que os escritores são
pessoas comuns, normais.
Pensando
bem, uns são mais normais do que outros. Ou, como disse Caetano:
de perto, ninguém é normal. Na minha família
mulheres costumavam dizer de algum marido que parecia ser um camaradaço:
isso é só para uso externo.
Escritores
podem ser bem esquisitos, ou não tanto. E podem ser apenas
protagonistas de pequenas histórias que colorem sua biografia.
O
poeta gaúcho Mário Quintana é personagem de
várias. Uma delas é mais uma travessura de velhinho,
mas acho-a encantadora. Na história, ele está hospedado
em um hotel na Serra Gaúcha, em Canela. De manhã,
senta-se no refeitório, toma um bom café, respira
fundo o ar puro, dá palmadinhas no peito magro, fila um cigarro
de um garçom, traga fundo e depois justifica:
Em Porto Alegre eu parei de fumar. Mas aqui ninguém sabe
disso.
Não
estou falando daqueles escritores espirituosos que de tanto fazer
piadas acabaram sendo personagens de histórias provavelmente
inventadas, como Gregório de Matos, Paula Nei, Emílio
de Menezes, Oswald de Andrade e outros. Falo de gente que de vez
em quando tem uns repentes, e cujos amigos às vezes dizem:
esse fulano tem cada uma.
Um
velho acadêmico conta-me que Vicente de Carvalho era um desses.
Santista, chamado o Poeta do Mar, feriu a mão numa pescaria,
passou no local apenas água salgada do mar, o ferimento infeccionou,
gangrenou, tiveram de amputar-lhe o braço. Recuperou-se,
e brincava:
Camões não era manco de um olho? Pois eu sou cego
de um braço.
Também
do romancista mineiro Roberto Drummond contam-se histórias.
Uma delas o apanha dirigindo a revista Alterosa, em 1961.
Tinha pelo jornalista Jânio de Freitas uma admiração
que beirava o culto. Jânio liderava uma revolução
de forma, conteúdo e ética no Jornal do Brasil.
No dia 25 de agosto uma notícia abalou a redação
da revista:
O Jânio caiu!
Roberto
ficou pálido, fulminado:
Ai, meu Deus! Acabou-se o JB!
Não, Roberto. É o Jânio Quadros. Renunciou.
Ah, que susto! suspirou Roberto, aliviado.
Darcy
Ribeiro era outro que tinha cada uma. Na Feira do Livro de Frankfurt
de 1994 estávamos lá, convidados. O câncer voltara
a fazer estragos em seu organismo, mas Darcy não se abatia.
Tinha uma sadia relação com a morte e uma indócil
relação com as mulheres bonitas. Sua guia na cidade
era uma alemã jovem de tez morena, linda, de nome Barbara,
e o sangue mineiro de Darcy ferveu. Delicada, não caía
na cascata dele. Darcy falou até em casar, enumerou seus
bens, e atirou com humor:
Eu tenho câncer. Você não quer ser uma viúva
rica?
E
tem o caso do recém-falecido poeta Adão Ventura, que
era um encanto de pessoa. Ele estava na pequenina Cruzília,
região do Circuito das Águas, trabalhando num projeto
cultural. Uma noite saiu com a turma para uma cachacinha e perdeu
o rumo, não soube voltar para casa. Deu voltas, e nada. Cruzou
com uma pessoa, por sorte alguém que participava do projeto,
e perguntou:
Você conhece o Adão Ventura?
O
homem estranhou:
Conheço. É você.
Não quero saber quem ele é explicou-se o Adão.
Quero saber é onde ele está morando.
(Desconfio
que nas próximas conversas sobre a normalidade dos escritores
vou fazer algumas ressalvas.)
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