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23 de março de 2005
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CRÔNICA

Corpos desenhados

Ivan Angelo


Como você encara uma tatuagem? A carga de significados que recebemos é pesada. Tatuados foram representados nos últimos dois séculos como pessoas do mal, em romances de aventuras, na crônica policial, no cinema, em gibis, nas histórias de piratas, marinheiros e prostitutas das zonas boêmias dos portos, nas reportagens em presídios e em imagens de desgarrados e drogados.

A conotação com o mal persiste em imagens recentes da televisão. É clichê. Close nas tatuagens do facinoroso personagem Cigano, da novela Senhora do Destino. Close nas tatuagens de escorpião nos braços dos assassinos da freira Dorothy Stang, no Pará. Close nos braços dos pitboys toda vez que eles aprontam alguma. Como quem diz: é tatuado, gente boa não pode ser.

Mas a coisa virou moda jovem, e é preciso encará-la.

Um dicionário me informa que a palavra tattoo, do inglês moderno, veio do Taiti, da palavra tatu, que significa marca, introduzida pelo explorador britânico James Cook, o célebre capitão Cook, em 1769. A precisão da data me espanta. Foi também então que a técnica taitiana de gravar figuras na pele se disseminou pelos portos da Europa. Depois pelo mundo.

Vemos centenas de lojas tattoo no centro da cidade e nos bairros. As praias brasileiras, sejam populares ou da burguesia, oferecem preço e facilidade. Em Búzios, as agulhadas decorativas são aplicadas em uma Kombi-estúdio na descolada Rua das Pedras. Surfistas sem tatuagem não estão com nada, nem suas gatas. Uns chegam a decorar-se com estilizadas folhagens de Cannabis. Pitboys desafiam olhares com agressivas tatuagens de dragões, escorpiões e golpes mortais. Garotas desenham pequeninas flores, a fada Sininho, golfinhos, pássaros ou borboletas, na virilha, no cóccix, na nuca. É tempo de corpos desenhados.

As linguagens corporais dos jovens nem sempre são aceitas facilmente. Quem não ouviu falar do preconceito que vitimou os "cabeludos", a minissaia e a própria calça jeans? Hoje, nas áreas de trabalho do establishment, os tatuados têm problemas. Rapazes que à noite usam camisetas com corte adequado para exibir suas tatuagens escondem-nas durante o dia sob camisas de mangas compridas.

Se é complicado, então por quê? Tatuagem é um recado, uma fala. Os chineses antigos achavam que era uma forma de se comunicar com as forças celestes. Quando um marinheiro tatuava no braço a frase "Amor só de mãe", queria dizer: não confio. Em culturas primitivas, é um signo tribal – sentido que ecoa hoje em tribos urbanas. Desenhos na pele com figuras de animais, como o touro, o tigre e o escorpião, eram feitos para a pessoa apropriar-se das virtudes do animal. Quanto dessa mística se mantém?

Há meninas que gravam o nome do namorado. E se o amor acabar? Ah, dirão, não serão essas as piores marcas do amor finito. Em pretérito mais-que-perfeito uma triste moça noturna me mostrou na coxa a marca "Joãozinho". Marca de posse, como de escravo ou gado. Gravar o nome do amor é mais antigo do que 2.500 anos; está lá, na fala do esposo, no Cântico dos Cânticos: "Grava-me como selo em teu coração, como selo em teu braço". É prova de pertença ainda em uso.

Grava-se alguém para chamar atenção? Pode ser, pois ainda assim seria fala: estou aqui. Para se afirmar? Talvez: sou como sou. Se enfeitar? Provável: gosto de um toque exótico. Seduzir? Desafiar?

Chega de enrolação. Estou pensando tudo isso porque minha filha se tatuou.

     
   
 
 
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