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CRÔNICA
Mudanças
Ivan
Angelo
Fala-se
de um novo tipo de homem. Certamente o modelo surgiu em resposta
à demanda feminina. É a lei do mercado. Estaria em
queda a cotação dos machos mais ostensivos e em alta
a dos homens cuja masculinidade não é explícita,
podendo até pairar alguma dúvida sobre ela. Dizem
que essa inquietante questão encoraja o interesse da nova
mulher. Sim, porque há também uma nova mulher. Justamente
a que emergiu daquela antipática executiva da última
década e que agora topa dividir a cabine de comando da relação,
dividir mesmo, e para isso ela precisa de um homem mais... suave.
Logo
agora? Não, não estou reclamando. É que no
momento o gênero masculino anda fragilizado por teorias genéticas
de que o homem poderá se tornar biologicamente descartável
no futuro. Estudos científicos sustentam que as células
de reprodução do macho humano estão em lenta
mutação, vão perdendo o cromossomo Y, exatamente
aquele que determina o nascimento dos meninos. E tem mais: biólogos
dizem que foi Eva quem nasceu primeiro, e não Adão,
ou seja, nas origens remotíssimas da reprodução
animal havia um gênero gerador, o feminino, a partir do qual
se desenvolveu o masculino. É um duro golpe no orgulho do
homem. Seremos inúteis daqui a alguns milhões de anos?
Machões
são caricatura da masculinidade. O humorista Millôr
Fernandes divertiu-nos certa vez com os dez mandamentos do homem
verdadeiramente macho um deles rezava que o machão
não toma mel, come abelhas. Os próprios homens, ajudados
pelas mulheres, aprenderam que esse modelo ("homem não chora")
era uma caricatura. Já não dormem de chuteiras. Muitos
vão a salões de beleza, depilam-se, maquiam-se, tratam
da pele, fazem lipoaspiração, enxertam silicone...
A associação da indústria de cosméticos
apurou que um em cada quinze homens usa produtos contra o envelhecimento;
em meados dos anos 90, era 1%. Mas atenção: a cosmética
não faz o novo homem. Há os que freqüentam salões
de beleza por pura vaidade e continuam grosseiros, violentos ou
preconceituosos. No passado, homens já se enfeitaram com
perucas, pó-de-arroz no rosto e carmim nos lábios,
já usaram saiotes e tranças, calçaram sapatos
de salto alto, cobriram os dedos de anéis, agitaram leques
e ostentaram babados sem que isso os tornasse melhores companheiros.
O
novo homem não: é suave, divide, cuida dos bebês,
troca fraldas, cozinha junto com ela ou para ela, é capaz
de gentilezas, acha de mau gosto piadas sobre loiras ou que manifestem
outros preconceitos. Acha que a força é uma vantagem,
importante na hora de trocar um pneu ou arrastar um móvel,
mas sem arrogância. É pouco formal, é romântico,
pode chegar a oferecer flores. Claro que nessa receita há
mais do que um dedo feminino.
Pois
bem. Descobri que há mulheres jovens reclamando do terreno
conquistado. Uma filha manda-me um e-mail com texto anexo de, suponho,
duas executivas cansadas das batalhas de escritório. Queixam-se
da "mentecapta" que teve "a infeliz idéia de reivindicar
direitos para a mulher", querem saber por que ela fez isso com as
que nasceram depois dela, jogando-as no inferno do trânsito,
dos computadores e das carreiras. Argumentam que "estava tudo tão
bom" e aí uma "'fulaninha' contamina várias outras
rebeldes inconseqüentes com idéias mirabolantes sobre
'vamos conquistar o nosso espaço'.".
Então fuzilam: "Que espaço, minha filha? Você
já tinha a casa inteira, o bairro todo, o mundo a seus pés.
Detinha o domínio completo sobre os homens, eles dependiam
de você para comer, vestir e se exibir para os amigos, que
raio de direitos requerer? Agora eles estão aí, todos
confusos, não sabem mais que papéis desempenhar na
sociedade, fugindo de nós como o diabo da cruz. Essa brincadeira
de vocês acabou é nos enchendo de deveres, isso sim"...
e por aí vai a bronca das duas.
É,
mudanças trazem problemas para os dois lados.
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