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22 de outubro de 2003
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CRÔNICA

Mudanças

Ivan Angelo

Fala-se de um novo tipo de homem. Certamente o modelo surgiu em resposta à demanda feminina. É a lei do mercado. Estaria em queda a cotação dos machos mais ostensivos e em alta a dos homens cuja masculinidade não é explícita, podendo até pairar alguma dúvida sobre ela. Dizem que essa inquietante questão encoraja o interesse da nova mulher. Sim, porque há também uma nova mulher. Justamente a que emergiu daquela antipática executiva da última década e que agora topa dividir a cabine de comando da relação, dividir mesmo, e para isso ela precisa de um homem mais... suave.

Logo agora? Não, não estou reclamando. É que no momento o gênero masculino anda fragilizado por teorias genéticas de que o homem poderá se tornar biologicamente descartável no futuro. Estudos científicos sustentam que as células de reprodução do macho humano estão em lenta mutação, vão perdendo o cromossomo Y, exatamente aquele que determina o nascimento dos meninos. E tem mais: biólogos dizem que foi Eva quem nasceu primeiro, e não Adão, ou seja, nas origens remotíssimas da reprodução animal havia um gênero gerador, o feminino, a partir do qual se desenvolveu o masculino. É um duro golpe no orgulho do homem. Seremos inúteis daqui a alguns milhões de anos?

Machões são caricatura da masculinidade. O humorista Millôr Fernandes divertiu-nos certa vez com os dez mandamentos do homem verdadeiramente macho – um deles rezava que o machão não toma mel, come abelhas. Os próprios homens, ajudados pelas mulheres, aprenderam que esse modelo ("homem não chora") era uma caricatura. Já não dormem de chuteiras. Muitos vão a salões de beleza, depilam-se, maquiam-se, tratam da pele, fazem lipoaspiração, enxertam silicone... A associação da indústria de cosméticos apurou que um em cada quinze homens usa produtos contra o envelhecimento; em meados dos anos 90, era 1%. Mas atenção: a cosmética não faz o novo homem. Há os que freqüentam salões de beleza por pura vaidade e continuam grosseiros, violentos ou preconceituosos. No passado, homens já se enfeitaram com perucas, pó-de-arroz no rosto e carmim nos lábios, já usaram saiotes e tranças, calçaram sapatos de salto alto, cobriram os dedos de anéis, agitaram leques e ostentaram babados – sem que isso os tornasse melhores companheiros.

O novo homem não: é suave, divide, cuida dos bebês, troca fraldas, cozinha junto com ela ou para ela, é capaz de gentilezas, acha de mau gosto piadas sobre loiras ou que manifestem outros preconceitos. Acha que a força é uma vantagem, importante na hora de trocar um pneu ou arrastar um móvel, mas sem arrogância. É pouco formal, é romântico, pode chegar a oferecer flores. Claro que nessa receita há mais do que um dedo feminino.

Pois bem. Descobri que há mulheres jovens reclamando do terreno conquistado. Uma filha manda-me um e-mail com texto anexo de, suponho, duas executivas cansadas das batalhas de escritório. Queixam-se da "mentecapta" que teve "a infeliz idéia de reivindicar direitos para a mulher", querem saber por que ela fez isso com as que nasceram depois dela, jogando-as no inferno do trânsito, dos computadores e das carreiras. Argumentam que "estava tudo tão bom" e aí uma "'fulaninha' contamina várias outras rebeldes inconseqüentes com idéias mirabolantes sobre 'vamos conquistar o nosso espaço'.". Então fuzilam: "Que espaço, minha filha? Você já tinha a casa inteira, o bairro todo, o mundo a seus pés. Detinha o domínio completo sobre os homens, eles dependiam de você para comer, vestir e se exibir para os amigos, que raio de direitos requerer? Agora eles estão aí, todos confusos, não sabem mais que papéis desempenhar na sociedade, fugindo de nós como o diabo da cruz. Essa brincadeira de vocês acabou é nos enchendo de deveres, isso sim"... – e por aí vai a bronca das duas.

É, mudanças trazem problemas para os dois lados.

 

         
     
 
 
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