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22 de janeiro de 2003
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CRÔNICA

Casa própria

Quebrar paredes, trocar o piso e
reformar tudo pode ser uma alegria

Walcyr Carrasco


Ser dono do próprio teto é um sonho. Dá segurança morar no que é seu. O caso é que a residência equivale ao casco da tartaruga. Ou seja, a uma extensão do corpo. Aí começam as loucuras. É impressionante o número de pessoas que constroem casas delirantes. Certa vez, um corretor me ofereceu uma que imitava um navio. Em vez de janelas, escotilhas. Estrutura de concreto curva, semelhante ao casco. Era um barco, encalhado. No terreno e na imobiliária. Uma amiga resolveu construir o lar na Granja Viana. No alto de um morro. Vista deslumbrante. Todo o dinheiro foi gasto em concreto. Parecia um viaduto pela metade. Aconselhei:

– Use o que você ainda tem para comprar o material essencial para terminar a obra.

Encomendou boxes de blindex e o motor da piscina. Detalhe: não havia piscina. Nem o buraco. Acabou ela mesma pintando quilômetros de chão de cimento na sala. Descobriu-se que o concreto a transformava em um forno no verão e em geladeira no inverno. Comentei:

– Pelo menos, daqui a séculos, a casa estará de pé. Os arqueólogos vão achar que era um templo. E você, a deusa.

Vendeu a um casal apaixonado por menos do que as sacas de concreto gastas no empreendimento. Os amigos correram para sugerir:

– Compre alguma coisa feita, que só exija uma pintura.

Em segredo, arrumou um terreno no meio da Mata Atlântica. No momento, discute o corte das árvores com o Ibama.

Outro amigo, advogado, apaixonou-se por uma mansão no Pacaembu. Mal comprou, descobriu: a casa tinha sido usada como escola de tiro ao alvo. Todas as paredes sofreram intervenção. Os alicerces. O telhado. A piscina. Só a cozinha estava ótima. Ele fez questão de quebrar porque queria uma parede curva. A obra foi estimada em seis meses. Já dura dois anos. Pensam que está angustiado? De jeito nenhum. Está realizando um projeto de vida, apesar dos cabelos um tanto mais brancos.

Eu poderia dar um martelo de presente a vários conhecidos. Adoram derrubar paredes. Uma atriz passou anos economizando para ter seu cantinho. Conseguiu um apartamento antigo com terraço, na Vila Buarque. Pagou com esforço. Chamou os pedreiros e resolveu dar umas mexidinhas. Prometeram terminar em um mês. Um ano depois, ela conta, sem perder o sorriso de felicidade:

– Abri tudo. Ficou um salão. Agora, o jeito é arrumar grana para cobrir o terraço e fazer o quarto, senão vou ter de dormir embaixo da pia.

Certas pessoas têm até consciência do delírio. Uma corretora que conheço recebeu um cliente. Queria um terreno no campo para fazer um paredão com uma porta de alumínio e um único quarto. Tipo galpão. Ela explicou:

– Olha, esse é o tipo de casa que, se um dia você quiser vender, não consegue.

A resposta, com os olhos brilhando:

– Claro. Eu vou construir um mico.

Meus miolos também não funcionam bem quando o assunto é moradia. Faço o gênero nômade. Vivo numa chácara dois anos. O excesso de paz me enerva. Volto para a cidade. Reclamo do trânsito. O dono da transportadora já me propôs abrir uma conta corrente. Cada vez, eu prometo:

– Agora é para sempre!

Em seguida, começo a empacotar os trastes.

Só conheço uma pessoa que não se importa com casa. É o único de meus amigos que realmente posso dizer que é rico. Prefere pagar aluguel. Perguntei, surpreso, o motivo.

– Existem maneiras melhores de investir o dinheiro – comentou.

Pode ser. Mas, certamente, nenhuma mais gostosa do que enlouquecer com a casa própria, quebrar umas paredes, trocar o piso e imaginar que o sonho está prestes a ser realizado!

         
     
 
 
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