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Ser bebêMeditações diante da vitrine de um berçário Ivan
Angelo
Nasce o esperado. A expectativa torna-se, então, um bebê. Aquelas roupinhas, aquele quarto preparado, aqueles seios que se incharam leitosos assumem suas funções. Em caso de primogênito, mãe, pai, avós, tios são acrescentados desses títulos, que não tinham, e com os quais serão designados dali para a frente. É um novo elo entre as famílias, um ser inaugural. Ser bebê é aventurar-se em mar incerto, sem poder fazer outra coisa a não ser iniciar a viagem. É irromper, chegada a hora, e berrar, anunciar-se, impor-se, eclipsar tudo. É ocupar, com a novidade de ser, um espaço de afetos, e ampliá-lo a cada bocejo, choro, olhar, esperneio ou suspiro. É apresentar-se poderoso e frágil ao mesmo tempo; de todos fazer vassalos, tornar a que manda submissa e esperto o que vacila, e no entanto depender de mão que lhe chegue o manto, de proteção, de olhos insones. É ter o poder mágico de transformar a menina de ontem, a quem era necessário aconselhar tudo, em instintiva, sábia mãe. Ser bebê é desconhecer, como só os ricos podem, que a vida está cara, o pão está difícil, a condução pode não vir. É depender, como os pobres, de quem lhe dê leite, saúde, higiene, saneamento básico. Escuta uma coisa, menino, dorme e escuta, e no sono aprende, prepara-te. Chegaste em um momento em que temos muitas dúvidas. Em que possuímos muitas coisas que outros não têm, não terão, e isso não nos irmana, antes nos separa. E inseguros e ansiosos buscamos ter mais, e assim alargamos o fosso. Brota violência onde pastavam bois. Saem das várzeas os fantasmas que nos assustam. Eles celebram festins bárbaros em torno de nossos entes queridos, roubados de nosso convívio. Ainda não temos, menino, remédio para isso. A cidade, a tua cidade, padece. A brutalidade dos viadutos destrói paisagens e sonhos. Jovens sem rumo rabiscam seus desafios em linguagem cifrada nos muros e nas fachadas. Não temos ainda, menino, instrumentos que resolvam o conflito entre a carência e o desperdício. As pessoas vão perdendo a gentileza que adoçava o convívio. É preciso brigar até para entrar num ônibus. Os motoristas se desafiam em buzinas de guerra. Ruas esburacadas moem amortecedores e colunas vertebrais. Gargalos transformam avenidas em armadilhas. O entretenimento busca satisfazer o primário em nós. O trabalho transforma-se em carreira, o que já pressupõe angústias, sucesso ou fracasso. Temos de escolher um presidente, menino, e a política soma-se a outras tantas hesitações. Temos uma dívida federal, garoto, que vamos deixar para a tua geração e a de teus filhos pagarem. A tecnologia cria pontes tão compridas que não se sabe aonde vão dar. O saber de cada um diminui, torna-se específico. O presidente da maior nação do mundo tem delírios hegemônicos. Drogas pesadas destroem tudo à sua volta. Nasceste, és a boa-nova. Entre tuas mágicas, realizas a de eclipsar o feio. O poeta Drummond, ao mostrar o mundo para seu neto, teve a delicadeza de ensinar: "Repara que há veludo nos ursos". A lição otimista se completa com outro poeta, João Cabral de Melo Neto, que associa o belo ao recém-nascido: "Belo porque com o novo / todo o velho contagia". Renovação é o sentido dos bebês. Esperança é o que nos anima quando pensamos na trabalheira que deixamos para ele. |
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