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21 de agosto de 2002
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CRIME

A nova vítima da estupidez

O assassinato da menina Tainá, depois
de uma briga entre motoristas, revolta
os paulistanos e chama a atenção para
a agressividade no trânsito, que mais
uma vez culmina em tragédia

Lúcia Monteiro e Erika Sallum

 
Reprodução/AE
José Luis da Conceição/AE

Uma perseguição no Alto de Pinheiros, por causa da batida na traseira do Astra do advogado Marcos Vessiliades Pereira, culminou com a morte de Tainá Alves de Mendonça, 5 anos.
A troca do pára-choque custaria 400 reais

Era sexta-feira. Os alunos do segundo estágio da Escola Municipal de Educação Infantil Monteiro Lobato, em Higienópolis, tiveram de imaginar como seria o Dia dos Pais, no domingo. Tainá Alves de Mendonça, 5 anos, desenhou a família inteira, mais seu cachorro "Shaolin", e escreveu "viva o papai" e "vovô". Ela realmente passaria o domingo em companhia de toda a família, na casa dos avós, em Pinheiros. Por volta das 9 da noite, Tainá saiu para um passeio no Kadett do tio Fábio Valente de Mendonça Junior, com o irmão Lucas, de 3 anos, e Shaolin. Eles estavam numa praça do Alto de Pinheiros quando um Monza branco bateu de raspão no pára-choque do Astra de um amigo de Mendonça, o advogado Marcos Vessiliades Pereira. Foi um acidente banal, do tipo que se vê a qualquer hora nas esquinas da capital. Um pára-choque novo, pintado na mesma cor, custaria 400 reais na concessionária. Como o Monza fugiu, Pereira e Mendonça começaram a persegui-lo, cada um em seu carro. De acordo com os depoimentos, eles pretendiam anotar a placa. Foram a caminho de uma tragédia.

Perto da Praça Pan-Americana, os dois carros fecharam o Monza, de propriedade de Rodrigo Henrique Farrampa Guilherme, 22 anos. Segundo testemunhas, Guilherme teria descido do carro atirando, mesmo depois de o tio da menina gritar que havia crianças no interior do Kadett. Os disparos atingiram o advogado Pereira (que teve ferimentos no fígado e ficou na UTI do Hospital Panamericano até quarta-feira) e a cabeça de Tainá. Ela chegou ao hospital morta. Principal suspeito do assassinato, Guilherme foi reconhecido por uma foto e teve prisão temporária de trinta dias decretada pelo juiz João Carlos de Sá Moreira de Oliveira, do 5º Tribunal do Júri.


Renata Ursaia
O último desenho feito na escola: homenagem ao pai e ao avô

Os colegas de classe de Tainá foram dispensados da aula na segunda-feira. Na terça, quando voltaram, cobriram de perguntas a professora Maria da Glória Paranhos, que fica com os olhos marejados cada vez que alguém pronuncia o nome de Tainá. "Trabalho com as crianças o ano inteiro o conceito de paz. É muito difícil explicar para elas o que houve", diz Glória. Numa lição de casa proposta pela professora no primeiro semestre, os alunos tiveram de contar quem escolhera seu nome e por quê. "Foi meu pai. Significa estrela que brilha", respondeu Tatá, como era chamada em casa. "Agora ela é realmente uma estrela", diz a professora. Uma foto colada num painel na parede da sala de aula de Tainá mostra um pouco como ela era. Ao lado dos colegas, todos de uniforme azul e amarelo, Tainá posa bem faceira, de vestidinho vermelho, óculos escuros e batom.

Maria da Gloria Paranhos
Foto na Páscoa: de vestido, batom e óculos escuros, entre os colegas de uniforme


O crime chocou a cidade. É um caso de violência brutal e gratuita, agravado pelo fato de a vítima ser uma criança. Trata-se, porém, de algo mais comum do que se imagina. A maioria dos homicídios em São Paulo é provocada por motivos tão estúpidos quanto um pára-choque amassado. "A criança jamais morreria se não houvesse uma arma no porta-luvas", afirma Denis Mizne, diretor executivo do Instituto Sou da Paz, que desde 1997 promove campanhas de desarmamento. "É muito triste, muito bárbaro, mas é um caso emblemático do que acontece aqui diariamente." Entre os especialistas em violência, há praticamente uma unanimidade a favor do desarmamento. Ou pelo menos da proibição de que as pessoas andem armadas nas ruas. "Antes de as armas se espalharem, as brigas terminavam geralmente em sopapos", diz o criminólogo Tulio Kahn. "Quem compra um revólver pensando em se defender corre um grande risco de usá-lo em uma briga, quando a raiva é maior que a razão."



Renata Ursaia
"Ela era uma criança muito esperta, tinha espírito de liderança. É triste demais perder alguém assim. Foi difícil explicar à turma o que aconteceu, depois de trabalhar o conceito de paz o ano inteiro. A população precisa se desarmar para que uma brutalidade como essa não ocorra de novo no mês que vem."
Maria da Glória Paranhos,
professora da Emei Monteiro Lobato


Em sua dissertação de mestrado, que deve ser publicada até o fim do ano, o sociólogo Renato Sérgio de Lima estudou mais de 2.000 inquéritos de homicídio. Percebeu que a maioria deles se dá em decorrência de brigas pessoais – e não por causa de drogas, troca de tiros entre polícia e bandido ou assalto. "A única solução é o desarmamento", afirma Lima. "Em períodos em que se fiscaliza mais o porte de armas, o número de homicídios cai significativamente", diz. Na Inglaterra e no Japão, armas são privativas da polícia, e, mesmo assim, nem todos os policiais têm o direito de portá-las. Por esse motivo, o número de homicídios caiu para uma média de 0,70 por 100.000 habitantes no Japão e para 0,98 na Inglaterra. Esse número é de 24,10 no Brasil e de 58 em São Paulo, onde há cerca de 800.000 armas registradas nas mãos de cidadãos comuns (fora as da polícia) e, calcula-se, mais 1 milhão de armas clandestinas. É um número espantoso, diretamente ligado aos 4.100 homicídios por arma de fogo ocorridos no ano passado.


Sebastião Moreira/AE
Enterro do marronzinho Wagner de Jesus, morto com três tiros pelo motorista Cícero Barbosa da Silva logo depois de multá-lo por parar em cima da faixa de pedestres, em 1997. O assassino foi condenado a catorze anos de prisão


Cerca de 60% desses crimes são cometidos em circunstâncias que guardam alguma semelhança com as da morte de Tainá, ou seja, foram praticados por pessoas sem antecedentes criminais e por motivos banais. "O trânsito potencializa a agressividade, da mesma maneira que o álcool", afirma Roberto Salvador Scaringella, especialista em segurança no trânsito e ex-secretário municipal de Transportes. "O incidente que desencadeia uma reação violenta nem tem muita importância, é só a última gota." Uma fechada, um xingamento, uma encostada no carro da frente ou a disputa por vaga no estacionamento podem provocar efeitos desproporcionais.



Samir Baptista/AE
Em maio último, uma discussão no campus da USP terminou com o assassinato do funcionário Júlio Meli. Ele teve a traseira de seu Corsa branco atingida por outro veículo. Ao fechar o carro e descer para tomar satisfação, Meli levou dois tiros no abdome

Expostos a congestionamentos de mais de 100 quilômetros de extensão e ao medo de assalto, muitos motoristas paulistanos parecem estar sempre prestes a explodir. "É um festival de impaciência. O farol nem abriu e já tem gente buzinando...", diz Adriano Murgel Branco, consultor e ex-secretário estadual dos Transportes. A psicóloga social Nancy Cardia, coordenadora do núcleo de estudos da violência da USP, aponta que a incivilidade e a descortesia tomaram conta do trânsito paulistano. Urrar palavrões ou fazer gestos obscenos para o carro do lado porque ele não deu passagem virou hábito – praticado por motoristas de todas as idades e classes socioeconômicas. "Nas cidades do interior, onde as pessoas se conhecem e sabem o nome de todo mundo, isso é muito diferente", observa a psicóloga. "Aqui, o anonimato as encoraja a ser mal-educadas, a agredir o outro por motivos minúsculos."


Helvio Romero/AE
A disputa por uma vaga na garagem do prédio da namorada provocou a morte, em 1997, de Hélio Secio Júnior, de 29 anos. Inconformado com a perda do filho, seu pai criou a Associação de Vítimas da Violência do Estado de São Paulo

O que acontece com os 1

O que acontece com os 1.500 marronzinhos de São Paulo serve de parâmetro. A CET registra duas agressões por semana. As físicas são anotadas em boletins de ocorrência. Os autores dos xingamentos, quando identificados, são encaminhados ao Detran, onde passam por uma aula de reeducação e podem perder a habilitação. "A maioria das queixas dos marronzinhos se refere a tapas e murros", conta Maurício Regio, assessor de segurança de trânsito da CET. O caso mais grave, em 1997, custou a vida do fiscal Wagner Freitas de Jesus, assassinado por Cícero Barbosa da Silva, motorista do Palácio dos Bandeirantes. Jesus levou três tiros por multar o Fiat de Silva na Avenida Professor Francisco Morato. Silva foi preso, e o caso gerou grande repercussão. Desde então, a CET orienta seus funcionários para que fiquem em locais razoavelmente protegidos, não respondam aos motoristas e se retirem sempre que ameaçados.


Felipe Reis
Claudio Rossi
"O trânsito é um fator que potencializa a agressividade da mesma maneira que o álcool. A briga independe do acidente. Pode ser uma batida, uma encostada, uma fechada ou apenas um mal-entendido."
Roberto Salvador Scaringella,
especialista em segurança no trânsito
"Há uma tendência a acreditar que pessoas de bem não cometem atos tão bárbaros. Armados, todos são capazes disso. Deveriam existir campanhas como as da Aids contra esse tipo de violência."
José Vicente da Silva Filho,
secretário nacional de Segurança Pública

O perigo é que, em muitas situações, uma simples grosseria se transforma em tragédia, como a da pequena Tainá. Em abril deste ano, o ônibus dirigido por João Batista Oliveira fechou o Logus do empresário Maurício de Souza Bello, na Avenida Paulista. O empresário seguiu o ônibus até o ponto em frente ao Conjunto Nacional e embarcou para tomar satisfações. Teve início uma pesada discussão, encerrada quando o motorista sacou um revólver e deu um tiro no queixo de Bello, que, por sorte, não morreu. "Há uma enorme diferença na atitude dos homens e na das mulheres na hora de reagir a um incidente de trânsito", analisa o psiquiatra Içami Tiba. "Os homens tomam qualquer encostadinha no carro como se fosse uma violência contra seu corpo. É muita testosterona, somada a um padrão cultural forte", acredita Tiba. "Ainda mais na frente de um grupo. Nenhum homem quer levar desaforo diante dos amigos. Já as mulheres costumam sair do carro dispostas a pagar o conserto, mesmo se não forem culpadas."


Marcos Finotti
"O carro, para o homem, representa poder. Se alguém mexe no carro, é como se ferisse o corpo dele. Quase todos os homens reagem agressivamente. Já as mulheres costumam querer pagar o conserto – mesmo sem ter culpa."
Içami Tiba,
psiquiatra

Como um mero bate-boca pode acabar mal, o mais seguro é manter a calma para evitar confusão desnecessária. "Jamais desafie ou persiga o outro motorista. É melhor engolir um sapo que um tiro", diz o médico Fabio Racy, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. "Ninguém deve aceitar provocação nem revidar", aconselha Regio, da CET. "Anote a placa de longe, faça boletim de ocorrência e procure orientação jurídica." O grande desafio da sociedade é aprender a reagir sem agressividade e com mais tolerância. Até para dar exemplo às futuras gerações de condutores, que freqüentemente assistem a cenas bárbaras do banco de trás. O secretário nacional de Segurança Pública e coronel reformado José Vicente da Silva Filho defende a necessidade de a população desenvolver uma cultura da paz. "Sem pieguices, todos nós precisamos mudar de atitude", diz ele. "Caso contrário, teremos cada vez mais símbolos da violência como Tainá." Com os rostos escondidos atrás de estatísticas, a maior parte dos casos de morte em brigas bobas cai rapidamente no esquecimento. Na última quarta, a mãe de Tainá, Rosana Alves Bragália, foi à televisão, no programa de Ana Maria Braga, pedir a prisão do assassino. Até a noite de quinta-feira, o acusado continuava foragido.

 

         
     
   
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