| |
|
|
 |
|
CRIME
A
nova vítima da estupidez
O
assassinato da menina Tainá, depois
de uma briga entre motoristas, revolta
os paulistanos e chama a atenção para
a
agressividade no trânsito, que mais
uma vez culmina em tragédia
Lúcia
Monteiro e Erika Sallum
Reprodução/AE
 |
José Luis da Conceição/AE

Uma
perseguição no Alto de Pinheiros, por causa da batida na traseira
do Astra do advogado Marcos Vessiliades Pereira, culminou com
a morte de Tainá Alves de Mendonça, 5 anos.
A troca do pára-choque custaria 400 reais
|
Era
sexta-feira. Os alunos do segundo estágio da Escola Municipal
de Educação Infantil Monteiro Lobato, em Higienópolis,
tiveram de imaginar como seria o Dia dos Pais, no domingo. Tainá
Alves de Mendonça, 5 anos, desenhou a família inteira,
mais seu cachorro "Shaolin", e escreveu "viva o papai" e "vovô".
Ela realmente passaria o domingo em companhia de toda a família,
na casa dos avós, em Pinheiros. Por volta das 9 da noite,
Tainá saiu para um passeio no Kadett do tio Fábio
Valente de Mendonça Junior, com o irmão Lucas, de
3 anos, e Shaolin. Eles estavam numa praça do Alto de Pinheiros
quando um Monza branco bateu de raspão no pára-choque
do Astra de um amigo de Mendonça, o advogado Marcos Vessiliades
Pereira. Foi um acidente banal, do tipo que se vê a qualquer
hora nas esquinas da capital. Um pára-choque novo, pintado
na mesma cor, custaria 400 reais na concessionária. Como
o Monza fugiu, Pereira e Mendonça começaram a persegui-lo,
cada um em seu carro. De acordo com os depoimentos, eles pretendiam
anotar a placa. Foram a caminho de uma tragédia.
Perto
da Praça Pan-Americana, os dois carros fecharam o Monza,
de propriedade de Rodrigo Henrique Farrampa Guilherme, 22 anos.
Segundo testemunhas, Guilherme teria descido do carro atirando,
mesmo depois de o tio da menina gritar que havia crianças
no interior do Kadett. Os disparos atingiram o advogado Pereira
(que teve ferimentos no fígado e ficou na UTI do Hospital
Panamericano até quarta-feira) e a cabeça de Tainá.
Ela chegou ao hospital morta. Principal suspeito do assassinato,
Guilherme foi reconhecido por uma foto e teve prisão temporária
de trinta dias decretada pelo juiz João Carlos de Sá
Moreira de Oliveira, do 5º Tribunal do Júri.
Renata Ursaia
 |
| O
último desenho feito na escola: homenagem ao pai e ao avô |
Os
colegas de classe de Tainá foram dispensados da aula na segunda-feira.
Na terça, quando voltaram, cobriram de perguntas a professora
Maria da Glória Paranhos, que fica com os olhos marejados
cada vez que alguém pronuncia o nome de Tainá. "Trabalho
com as crianças o ano inteiro o conceito de paz. É
muito difícil explicar para elas o que houve", diz Glória.
Numa lição de casa proposta pela professora no primeiro
semestre, os alunos tiveram de contar quem escolhera seu nome e
por quê. "Foi meu pai. Significa estrela que brilha", respondeu
Tatá, como era chamada em casa. "Agora ela é realmente
uma estrela", diz a professora. Uma foto colada num painel na parede
da sala de aula de Tainá mostra um pouco como ela era. Ao
lado dos colegas, todos de uniforme azul e amarelo, Tainá
posa bem faceira, de vestidinho vermelho, óculos escuros
e batom.
Maria da Gloria Paranhos
 |
| Foto
na Páscoa: de vestido, batom e óculos escuros, entre os colegas
de uniforme |
O crime chocou a cidade. É um caso de violência brutal
e gratuita, agravado pelo fato de a vítima ser uma criança.
Trata-se, porém, de algo mais comum do que se imagina. A
maioria dos homicídios em São Paulo é provocada
por motivos tão estúpidos quanto um pára-choque
amassado. "A criança jamais morreria se não houvesse
uma arma no porta-luvas", afirma Denis Mizne, diretor executivo
do Instituto Sou da Paz, que desde 1997 promove campanhas de desarmamento.
"É muito triste, muito bárbaro, mas é um caso
emblemático do que acontece aqui diariamente." Entre os especialistas
em violência, há praticamente uma unanimidade a favor
do desarmamento. Ou pelo menos da proibição de que
as pessoas andem armadas nas ruas. "Antes de as armas se espalharem,
as brigas terminavam geralmente em sopapos", diz o criminólogo
Tulio Kahn. "Quem compra um revólver pensando em se defender
corre um grande risco de usá-lo em uma briga, quando a raiva
é maior que a razão."
Renata Ursaia
 |
"Ela
era uma criança muito esperta, tinha espírito de liderança.
É triste demais perder alguém assim. Foi difícil explicar à
turma o que aconteceu, depois de trabalhar o conceito de paz
o ano inteiro. A população precisa se desarmar para que uma
brutalidade como essa não ocorra de novo no mês que vem."
Maria da Glória Paranhos,
professora da Emei Monteiro Lobato |
Em sua dissertação de mestrado, que deve ser publicada
até o fim do ano, o sociólogo Renato Sérgio
de Lima estudou mais de 2.000 inquéritos
de homicídio. Percebeu que a maioria deles se dá em
decorrência de brigas pessoais e não por causa
de drogas, troca de tiros entre polícia e bandido ou assalto.
"A única solução é o desarmamento",
afirma Lima. "Em períodos em que se fiscaliza mais o porte
de armas, o número de homicídios cai significativamente",
diz. Na Inglaterra e no Japão, armas são privativas
da polícia, e, mesmo assim, nem todos os policiais têm
o direito de portá-las. Por esse motivo, o número
de homicídios caiu para uma média de 0,70 por 100.000
habitantes no Japão e para 0,98 na Inglaterra. Esse número
é de 24,10 no Brasil e de 58 em São Paulo, onde há
cerca de 800.000 armas registradas nas
mãos de cidadãos comuns (fora as da polícia)
e, calcula-se, mais 1 milhão de armas clandestinas. É
um número espantoso, diretamente ligado aos 4.100
homicídios por arma de fogo ocorridos no ano passado.
Sebastião Moreira/AE
 |
| Enterro
do marronzinho Wagner de Jesus, morto com três tiros pelo motorista
Cícero Barbosa da Silva logo depois de multá-lo por parar em
cima da faixa de pedestres, em 1997. O assassino foi condenado
a catorze anos de prisão |
Cerca de 60% desses crimes são cometidos em circunstâncias
que guardam alguma semelhança com as da morte de Tainá,
ou seja, foram praticados por pessoas sem antecedentes criminais
e por motivos banais. "O trânsito potencializa a agressividade,
da mesma maneira que o álcool", afirma Roberto Salvador Scaringella,
especialista em segurança no trânsito e ex-secretário
municipal de Transportes. "O incidente que desencadeia uma reação
violenta nem tem muita importância, é só a última
gota." Uma fechada, um xingamento, uma encostada no carro da frente
ou a disputa por vaga no estacionamento podem provocar efeitos desproporcionais.
Samir Baptista/AE
 |
| Em
maio último, uma discussão no campus da USP terminou
com o assassinato do funcionário Júlio Meli. Ele
teve a traseira de seu Corsa branco atingida por outro veículo.
Ao fechar o carro e descer para tomar satisfação,
Meli levou dois tiros no abdome |
Expostos
a congestionamentos de mais de 100 quilômetros de extensão
e ao medo de assalto, muitos motoristas paulistanos parecem estar
sempre prestes a explodir. "É um festival de impaciência.
O farol nem abriu e já tem gente buzinando...", diz Adriano
Murgel Branco, consultor e ex-secretário estadual dos Transportes.
A psicóloga social Nancy Cardia, coordenadora do núcleo
de estudos da violência da USP, aponta que a incivilidade
e a descortesia tomaram conta do trânsito paulistano. Urrar
palavrões ou fazer gestos obscenos para o carro do lado porque
ele não deu passagem virou hábito praticado
por motoristas de todas as idades e classes socioeconômicas.
"Nas cidades do interior, onde as pessoas se conhecem e sabem o
nome de todo mundo, isso é muito diferente", observa a psicóloga.
"Aqui, o anonimato as encoraja a ser mal-educadas, a agredir o outro
por motivos minúsculos."
Helvio Romero/AE
 |
A
disputa por uma vaga na garagem do prédio da namorada provocou
a morte, em 1997, de Hélio Secio Júnior, de 29 anos. Inconformado
com a perda do filho, seu pai criou a Associação de Vítimas
da Violência do Estado de São Paulo |
O que
acontece com os 1
|
O que
acontece com os 1.500 marronzinhos de
São Paulo serve de parâmetro. A CET registra duas agressões
por semana. As físicas são anotadas em boletins de
ocorrência. Os autores dos xingamentos, quando identificados,
são encaminhados ao Detran, onde passam por uma aula de reeducação
e podem perder a habilitação. "A maioria das queixas
dos marronzinhos se refere a tapas e murros", conta Maurício
Regio, assessor de segurança de trânsito da CET. O
caso mais grave, em 1997, custou a vida do fiscal Wagner Freitas
de Jesus, assassinado por Cícero Barbosa da Silva, motorista
do Palácio dos Bandeirantes. Jesus levou três tiros
por multar o Fiat de Silva na Avenida Professor Francisco Morato.
Silva foi preso, e o caso gerou grande repercussão. Desde
então, a CET orienta seus funcionários para que fiquem
em locais razoavelmente protegidos, não respondam aos motoristas
e se retirem sempre que ameaçados.
Felipe Reis
 |
Claudio Rossi
 |
"O
trânsito é um fator que potencializa a agressividade
da mesma maneira que o álcool. A briga independe do acidente.
Pode ser uma batida, uma encostada, uma fechada ou apenas um
mal-entendido."
Roberto Salvador Scaringella,
especialista em segurança no trânsito |
"Há
uma tendência a acreditar que pessoas de bem não cometem atos
tão bárbaros. Armados, todos são capazes disso. Deveriam existir
campanhas como as da Aids contra esse tipo de violência."
José Vicente da Silva Filho,
secretário nacional de Segurança Pública |
O perigo
é que, em muitas situações, uma simples grosseria
se transforma em tragédia, como a da pequena Tainá.
Em abril deste ano, o ônibus dirigido por João Batista
Oliveira fechou o Logus do empresário Maurício de
Souza Bello, na Avenida Paulista. O empresário seguiu o ônibus
até o ponto em frente ao Conjunto Nacional e embarcou para
tomar satisfações. Teve início uma pesada discussão,
encerrada quando o motorista sacou um revólver e deu um tiro
no queixo de Bello, que, por sorte, não morreu. "Há
uma enorme diferença na atitude dos homens e na das mulheres
na hora de reagir a um incidente de trânsito", analisa o psiquiatra
Içami Tiba. "Os homens tomam qualquer encostadinha no carro
como se fosse uma violência contra seu corpo. É muita
testosterona, somada a um padrão cultural forte", acredita
Tiba. "Ainda mais na frente de um grupo. Nenhum homem quer levar
desaforo diante dos amigos. Já as mulheres costumam sair
do carro dispostas a pagar o conserto, mesmo se não forem
culpadas."
Marcos Finotti
 |
"O
carro, para o homem, representa poder. Se alguém mexe no carro,
é como se ferisse o corpo dele. Quase todos os homens reagem
agressivamente. Já as mulheres costumam querer pagar o conserto
– mesmo sem ter culpa."
Içami Tiba,
psiquiatra |
Como
um mero bate-boca pode acabar mal, o mais seguro é manter
a calma para evitar confusão desnecessária. "Jamais
desafie ou persiga o outro motorista. É melhor engolir um
sapo que um tiro", diz o médico Fabio Racy, presidente da
Associação Brasileira de Medicina de Tráfego.
"Ninguém deve aceitar provocação nem revidar",
aconselha Regio, da CET. "Anote a placa de longe, faça boletim
de ocorrência e procure orientação jurídica."
O grande desafio da sociedade é aprender a reagir sem agressividade
e com mais tolerância. Até para dar exemplo às
futuras gerações de condutores, que freqüentemente
assistem a cenas bárbaras do banco de trás. O secretário
nacional de Segurança Pública e coronel reformado
José Vicente da Silva Filho defende a necessidade de a população
desenvolver uma cultura da paz. "Sem pieguices, todos nós
precisamos mudar de atitude", diz ele. "Caso contrário, teremos
cada vez mais símbolos da violência como Tainá."
Com os rostos escondidos atrás de estatísticas, a
maior parte dos casos de morte em brigas bobas cai rapidamente no
esquecimento. Na última quarta, a mãe de Tainá,
Rosana Alves Bragália, foi à televisão, no
programa de Ana Maria Braga, pedir a prisão do assassino.
Até a noite de quinta-feira, o acusado continuava foragido.
|