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PERFIL Bom gosto,
elegância e animação em dose dupla Talentosos
e divertidos, os designers Attilio Baschera e Gregorio Kramer são
queridíssimos pela sociedade paulistana. A parceria (profissional
e pessoal) dura 38 anos Nana Caetano
Mario Rodrigues  |
| Attilio Baschera, 73 anos, e Gregorio Kramer, 66, na
AGain, loja de tecidos e objetos de decoração do casal: chique,
mas sem ostentação |
Você pode até não
saber quem são Attilio Baschera e Gregorio Kramer. Mas Madonna sabe. Foi
na loja da dupla, a AGain, em Higienópolis, que o arquiteto irlandês
David Collins comprou almofadas, vasos, potes com estampas de abacaxi e louças
(quase tudo azul) para decorar a casa de campo da pop star. Gastou 10 000 reais.
"Ele entrou aqui dizendo que ia escolher peças para ela e achei que fosse
piada", diz Baschera. "Só acreditei quando a própria Madonna passou
um torpedo para o celular de Collins dizendo que era para comprar tudo." A história
pitoresca é apenas mais uma na longa e bem-sucedida trajetória dos
designers, que remonta à década de 60. Fundadores da Larmod, estamparia
e loja de tecidos para decoração vendida em 1998 porque o casal
decidiu tirar um período sabático, foram os pioneiros no Brasil
no mercado de moda para casa. "Hoje todo mundo fala em decoração
e existem lojas aos montes", diz Baschera. "Naquela época, design de tecidos
era exclusividade da indústria fashion."
Mario Rodrigues  |
| O paulistano Baschera, em seu estúdio: abacaxis, bambus
e flores desenhados sem ajuda de computador |
Modernos e bons de papo, foram alçados a queridinhos da sociedade paulistana
e a Larmod, então na Rua Bahia, virou uma espécie de point diurno
da badalação. "A gente passava lá para um cafezinho, encontrava
as pessoas e ia ficando", lembra o arquiteto Sig Bergamin. "Foi um sucesso fulminante.
Não existia nada no Brasil com tanto estilo e bom gosto", conta a consultora
de moda Costanza Pascolato. Animados (adoram dançar e contar piadas), recebem
até hoje cerca de sessenta convites por mês, para os mais variados
eventos. "De casamentos a lançamento de máquina de lavar", brinca
Baschera. Em quinze deles, em média, desfilam os sorrisos e as elogiadas
gravatas possuem mais de 400 e Baschera, que aos 73 anos é símbolo
de elegância, costuma combiná-las com lenços e meias coloridas.
"Eles têm o dom de mudar uma festa", diz a socialite Patsy Scarpa. "A chegada
deles, sempre sorridentes e simpáticos, já é um acontecimento."
Se não podem comparecer a um evento, enviam cartões e, no caso dos
amigos mais próximos, flores. E-mail, só se o convite tiver vindo
assim.
Vania Toledo  |
| Em 1986, na antiga Larmod: pioneiros na estamparia de
tecidos para casa | Quando
não saem, recebem amigos no apartamento de três quartos onde vivem,
em Higienópolis, a poucas quadras da AGain. Moram os dois, mais o cãozinho
Taiwan, da raça lhasa apso. Sofisticado e clean ("nós detestamos
essa ostentação dos novos-ricos", diz Kramer, 66 anos), o apartamento
é decorado com obras de arte, sobretudo desenhos, de Diego Rivera, Di Cavalcanti,
Botero... As paredes nas cores creme e marrom-escuro abrigam mais de 3 000 livros.
Velas e abajures completam o clima chique. Atualmente, o casal gosta de receber
na cozinha, onde serve massas e risotos preparados por Baschera, apesar da sala
montada para doze pessoas. Tudo para dar um ar mais intimista à recepção.
Eles têm ainda mais dois apartamentos, um em Buenos Aires e o outro em Punta
del Este.
Mario Rodrigues  | Arquivo
pessoal  |
| O argentino Kramer: responsável pela composição
de cores e organização dos produtos criados por Baschera | Kramer e Maria
Adelaide Amaral: tricô na estréia de Mademoiselle Chanel, em 2004 |
No campo profissional, as funções
são bem definidas. O paulistano de origem italiana Baschera, que tem formação
em artes plásticas pela Escola Superior de Belas Artes Porta Pinciana,
em Roma onde foi contemporâneo do estilista Valentino , cria
estampas e padronagens para os tecidos e desenha móveis e louças.
O argentino de origem judaica Kramer, bioquímico formado pela Universidade
de Buenos Aires, cuida de colorir os desenhos, administrar os negócios
e organizar tudo. Cuidadoso, embala as peças individualmente em saquinhos
plásticos e agrupa-as por tonalidade em caixas plásticas. O depósito
da AGain, na Barra Funda, mais parece uma loja, tão arrumadas estão
as mercadorias. Em casa, Kramer também é o organizado da dupla.
Foi sua a idéia de guardar as camisas dobradas, também embaladas
nos tais saquinhos e divididas por cor. Apesar do convívio intenso
são praticamente 24 horas por dia, há 38 anos , a relação
é pacífica e eles juram que nunca brigaram. A maior divergência
é no futebol: Baschera é palmeirense e Kramer, são-paulino.
Durante a Copa do Mundo, o argentino fica dividido entre a seleção
de lá e a nossa, com vantagem para o Brasil. "Fico torcendo para a Argentina
sair logo, assim acaba a minha dúvida", diz, com seu forte sotaque portenho.
Arquivo pessoal  |
| Com a amiga Lucia Moreira Salles, na década de 70: companhias
badaladas | Assumidos e carinhosos
(porém discretos e sem trejeitos), conheceram-se em uma época em
que a homossexualidade não era encarada com a naturalidade de hoje e manifestações
públicas como a Parada Gay deste sábado seriam impensáveis.
"Até hoje não entendo como fomos tão bem aceitos nem por
que não houve escândalo ou fofocas", afirma Baschera. "Acho que é
porque sempre respeitamos os limites das pessoas. Naquela época, quem dava
muita bandeira não era convidado para nada." Foi o acaso que os uniu. Em
1968, ambos participaram de um concurso de desenho para tecido da Feira Internacional
da Indústria Têxtil (Fenit). Kramer levou o terceiro lugar e Baschera,
que na ocasião era diretor de arte da Editora Abril, ficou com o primeiro
prêmio.
Arquivo pessoal  |
| Com Gonzalo Bruno Quijano e Emilio Kalil, na cidade de
Aix-en-Provence, na França, em 2000: visita anual a um dos principais festivais
de arte lírica do mundo | Bon-vivants,
eles costumam freqüentar excelentes restaurantes, concertos e teatros. As
viagens, no entanto, são a grande paixão da dupla. Vão à
Argentina pelo menos cinco vezes por ano e não perdem o festival de verão
de Aix-en-Provence, na França, um dos maiores eventos de arte lírica
do mundo. É das viagens que Baschera tira idéias para muitas de
suas criações. Atualmente, ele trabalha em toiles de jouy (estampa
típica da França, que tradicionalmente mostra cenas bucólicas)
com motivos tropicais. As inspirações são as cidades de Trancoso
e Ouro Preto. Adora bambus, bananeiras e, claro, os abacaxis que encantaram o
arquiteto de Madonna. Sua produção é quase artesanal. Baschera
desenha a mão com a ajuda de um assistente (ele não sabe nem ligar
um computador), e a estampa é feita com técnica de silk screen,
também sem uso de máquinas computadorizadas. Hoje em dia, a loja
de Higienópolis exibe mais de 500 padronagens de tecidos, que custam entre
87 e 400 reais o metro, além de móveis e objetos exclusivos, entre
6.000 (um sofá) e 24 reais (uma xícara).
Carol Quintanilha/Folha Imagem  |
| Baschera e Yara Baumgart, em exposição de arte em 2001:
mais de sessenta convites por mês | O
casal é o antiexemplo da maturidade acomodada. Depois das longas férias
que tiraram após o fechamento da Larmod, resolveram, há dois anos,
voltar a trabalhar. Foi quando abriram a AGain. O incentivo não foi financeiro.
"Cansei de ficar sem fazer nada", diz Baschera. Não bastassem o trabalho,
as festas, a vida cultural intensa, a administração da loja e das
três casas, os dois ainda fazem ginástica regularmente em uma academia
(personal trainer, segundo eles, também é ostentação
de novo-rico). "Vai demorar uns dez anos para que eu comece a me sentir velho",
brinca Baschera, repleto de razão.
Ana Ottoni/Folha Imagem  |
| Kramer, com o arquiteto Sig Bergamin: "Eles têm um humor
muito inteligente", elogia Sig |
Ana Ottoni/Folha Imagem  |
| A atriz Irene Ravache beija Gregorio Kramer: o teatro
é uma das grandes paixões da dupla |
Arnaldo Laganaro  |
| Costanza Pascolato e Baschera, em festa a fantasia nos
anos 80: sempre entre os mais elegantes |
| De olho nos detalhes
Dez truques de Attilio Baschera para deixar a casa
mais elegante
Fotos Mario Rodrigues  |
Caso não tenha muitos
quadros, agrupe-os em uma única parede. O mesmo vale para objetos e esculturas.
"É mais interessante do que espalhar obras pela casa inteira."
Não misture objetos e livros
na mesma estante. "Essa coisa de três livros e um vaso depois mais quatro
livros e uma esculturinha só serve para poluir o ambiente."
Evite estampas grandes e cores muito fortes em sofás. Elas são
mais indicadas para poltronas e almofadas soltas.
"Paredes totalmente brancas deixam a casa com cara de hospital." Misture
um pouco de bege na tinta para obter o chamado branco quebrado.
A luz de uma casa não pode vir do teto, ou o ambiente perde o aconchego.
Invista em abajures, arandelas e spots. No inverno, velas. Além disso,
prefira lâmpadas de cor quente. "Lâmpada fluorescente, só na
cozinha, no escritório e na área de serviço. E olhe lá."
Prefira flores brancas, como orquídeas e lírios (estes servem também
para perfumar a casa), a arranjos coloridos. "Van Gogh que me desculpe, mas acho
girassol dentro de casa muito brega. Só fica bonito no campo."
Louças brancas são mais
práticas, pois combinam com quaisquer toalhas e guardanapos. Se quiser
um modelo mais colorido, dê preferência a detalhes nas bordas. Assim,
a cor da louça não se mistura à da comida.
Evite travesseiros bordados. "As pessoas acham que é chique, mas
não há nada mais deselegante do que acordar com a cara marcada."
Perfume (pouco) a casa. Pot-pourris (aqueles potinhos com folhas secas) e aromatizadores
(com parcimônia) deixam o ambiente mais agradável. Para casa de homens,
os cheiros sugeridos são cedro e lavanda. "Casais ou mulheres solteiras
podem usar uma fragrância mais doce."
Não encha a pia do banheiro de potes. "Creme misturado com escova
de dentes, perfume e xampu não dá." Guarde parte dos produtos no
armário para deixar o banheiro mais agradável. Outra dica: mantenha
ali um revisteiro e alguns livros. | |