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CRÔNICA
Pão-duro ou econômico? Ivan Angelo
Um amigo me coloca uma questão delicada: "Você acha que eu sou pão-duro?".
Antes que eu tivesse tempo de entrar no assunto, ele se antecipou, fornecendo
o ângulo sob o qual, suponho, preferia que o tema fosse tratado: "Ou econômico?".
Hesitei entre atacar a primeira pergunta
e aceitar a discussão semântica que ele abria com a segunda. Que
atitudes e circunstâncias poderiam definir o pão-duro ou o econômico?
Seria uma questão de gradação, de mais e de menos, ou seriam
coisas completamente diferentes? Meu
amigo é pão-duro, um acabado sovina, mão-de-vaca consumado,
mas bom sujeito. Eu, dividido entre não fugir da verdade e não magoá-lo,
ataquei suave: opinei que o que separa os dois modos de ser é a necessidade.
Sentiu que o terreno era perigoso para ele, pois não freqüenta a zona
da necessidade. Lembrou que muitas pessoas herdam hábitos familiares, conseqüência
de circunstâncias de poupança forçada e continuada que acabam
virando um traço de família. Dava na vista que ele preferia ir levando
a conversa para um lado mais teórico. Estaria arrependido de ter perguntado?
Sem
a pretensão de estar certo, afirmei que família não tem tanto
peso assim, que não conheço adolescentes sovinas, e isso é
porque eles ainda não têm relação fetichista com o
dinheiro. Não importa racharem um lanche ou um refrigerante, isso é
sobrevivência, mesada apertada. Os economistas chamam de conjuntura.
Ele lembrou, teórico, que existem também dificuldades financeiras
pessoais momentâneas que levam a atitudes de aparente pão-durismo.
Perguntei com malícia: "Não é o seu caso, é?". Acusou
o golpe. Estávamos em uma festinha
e, embora um pouco afastados, foi impossível evitar que parte da conversa
fosse ouvida. Acharam que era um papo genérico e alguém logo se
lembrou do ex-presidente famoso pelo pão-durismo, e contou a última
dele. Bastou para um outro dizer: "De pão-duro e de louco todos nós
temos um pouco" e aí perdemos o controle, logo todos se lembravam
de um lance sovina, e acabou surgindo uma brincadeira de fazer lista de pão-durismo
explícito, muitos lembrando-se, no fundo, de coisas que eles mesmos já
fizeram. Gritos animados com sugestões para a lista do que o pão-duro
faz cruzavam a sala: Cobra
troco de 1 centavo. Guarda
para reutilizar o pedaço de esponja de aço usado, empapado em sabão
para não enferrujar.
Conserva camiseta furada para dormir ou para usar por baixo da camisa.
Embrulha de novo o chicle mascado para mascar mais
tarde. Aproveita no jantar
o guardanapo de papel que mal usou no café-da-manhã.
Convida a vizinha para tomar um chá e pede para
ela levar o chá. Aproveita
as frutas amassadas para fazer sucos e cremes.
Roda com pneus do carro carecas até começarem a aparecer os arames.
Aproveita para anotações
o outro lado dos papéis impressos não usados.
Guarda caixas e embalagens de presentes que ganhou
para embalar presentes que vai dar, com a desculpa de que pode precisar num dia
ou hora em que não haja papelaria aberta.
Gruda restinho de sabonete que está acabando no sabonete novo.
Pega o pó de café que já foi coado,
põe para secar no forno e soca para usar de novo.
Guarda pastilha para garganta meio chupada para quando
a tosse ameaçar de novo.
Pega aquela camiseta que usou até virar molambo e passa a utilizá-la
como pano de chão. Só
liga interurbano depois das 9 da noite, tarifa diferenciada.
Só lê revista emprestada. Sabe aquela?
"Ah, minha cunhada assina."
Guarda para usar depois o cotonete do qual só utilizou uma ponta.
Meu amigo não estava achando graça. No fundo ele sabia por quê.
e-mail: ivan@abril.com.br
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