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COMPORTAMENTO
Paulicéia andarilha Sandra Soares
Viver sem carro em São Paulo pode parecer
impossível para quem está acostumado a percorrer a cidade ao volante.
Mas o stress do trânsito e a possibilidade de fazer exercício
enquanto se vai ao escritório ou a um cineminha leva muita gente
a adotar os próprios pés como meio de locomoção. Conheça
as histórias de paulistanos que têm ou já tiveram carro, mas
decidiram trocar a rotina de motorista pela de pedestre (e não se arrependem).
"A pé, conversamos mais" Fotos
Fernando Moraes
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O carro da família De Vitro é usado nos fins de semana, em
dias de chuva e nas ocasiões em que Lúcia, a mãe, insiste
em ir ao trabalho de salto alto. Ela e o marido, o cabeleireiro Ricardo, são
donos de um salão de beleza no Itaim Bibi, localizado a cinco quadras do
apartamento em que vivem com os filhos, Isabella e Thomas, que estudam na mesma
região. A proximidade da escola, da casa e do trabalho permite que a família
consiga se encontrar várias vezes ao longo do dia. "Organizei as coisas
assim para que haja mais convívio", diz Ricardo. No que depende dele, todos
os programas são a pé, até mesmo compras em supermercados.
"De carro, qualquer trajeto acaba rápido", explica. "E o rádio ainda
atrapalha a conversa." As caminhadas dos De Vitro devem aumentar, já que
eles compraram um apartamento no Brooklin, que será entregue em dois anos.
"Fiz as contas e acho que dá para fazer o percurso de 5 quilômetros
até o salão em uma hora", aposta Ricardo. "Fico
livre da academia"
Para a produtora de TV Mariana Zanotto, ser uma sem-carro é um ato
político. "Acho um absurdo o número de veículos que se vêem
nas ruas com uma única pessoa dentro", diz. "Não quero colaborar
com os engarrafamentos e a poluição de São Paulo." Quando
cursava a faculdade de rádio e televisão, Mariana pegava carona
com os colegas para ir da Vila Madalena à USP. Mas, se tinha tempo, fazia
o trajeto a pé. "Caminhar é sempre minha primeira opção",
afirma. "É uma ótima terapia e me livra de ir à academia."
Três anos depois de deixar a universidade, ela ainda mantém hábitos
daquela época. Tenta fazer tudo a pé durante o dia e, para sair
à noite, pede carona aos amigos. "Se todo mundo agisse assim, o trânsito
em São Paulo seria bem menos complicado."
"Cansei do trânsito"
Todos os dias, no fim do expediente, o administrador de empresas Leonardo Pallotta
observava a Marginal engarrafada da janela de seu escritório na Vila Olímpia
e pensava: "Pinheiros só é perto no fim de semana". Decidido a não
mais enfrentar congestionamentos ao voltar para casa, ele resolveu mudar de apartamento.
Há um ano e meio, transferiu-se para um prédio localizado a 800
metros do trabalho, distância que percorre com 960 passadas pelo menos quatro
vezes ao dia. "Agora, almoço em casa", conta ele. "E economizo 1 000 reais
por mês em gastos com comida, gasolina e taxas de estacionamento." O ganho
de tempo cerca de três horas diárias animou tanto Pallotta
que ele evita ao máximo sair do bairro. Trocou os médicos e o dentista
com quem se consultava por profissionais que pode visitar a pé. O próximo
passo é vender o carro. "Às vezes, fico semanas sem ligá-lo."
"No carro não dá para relaxar" Daniel
Toviansky
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Três
quilômetros separam a agência de marketing esportivo na qual a publicitária
Flávia Santander trabalha, na Avenida Paulista, de seu apartamento
em Perdizes. Pela manhã, Flávia faz dois terços do caminho
de metrô. "Não poderia chegar suada", explica. Mas, à noite,
percorre o trajeto a pé, ouvindo música. Ou, como ela prefere dizer,
relaxando. "De carro, eu fico tensa, irritada com o trânsito e com medo
dos ladrões de farol", afirma. "A única vez em que fui assaltada
estava ao volante do Gol da minha mãe." A pé desde 1992, quando
vendeu um Voyage que dirigiu por dois anos, a publicitária hoje dispensa,
sempre que possível, táxi, ônibus e metrô para caminhar.
Nos fins de semana, chega a andar 5 quilômetros para ir ao cinema do shopping
Iguatemi. "A única coisa chata é usar quase sempre tênis e
moletom", reclama. Mas há compensações estéticas:
Flávia está em forma. "Conheci outra
cidade"
Fernando
Moraes
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O
caratê privou Daniel Nunes de seu Laika (carro da marca Lada, produzido
na Rússia) e de sua moto Hyosung. No fim de 2000, ele abandonou o emprego
de gerente-geral do restaurante Spot e vendeu sua pequena frota para dedicar-se
em tempo integral ao esporte. "Passei a andar a pé e descobri uma nova
São Paulo", conta o carateca, hoje professor. "Há árvores
lindas aqui, mas não prestamos atenção nelas quando estamos
em um carro." Nunes é conhecido entre os amigos por ser capaz de descrever
as calçadas por onde passa em detalhes. "Sei, só de olhar para um
piso, se ele é escorregadio quando molhado", garante. Para percorrer distâncias
médias, ele usa uma bicicleta. E, se precisa ir muito longe, vai de táxi.
"Fica mais barato pegar um táxi de vez em quando do que sustentar um carro."
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