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EDUCAÇÃO
Alessandro
Duarte
Maria
Bethânia Conceição Ferreira, 10 anos, e Diego
Lavrador Campos, 11, estudam no mesmo bairro, a apenas 1.000
metros um do outro. Vivem, no entanto, realidades completamente
diferentes na sala de aula. Maria Bethânia divide a classe
com outras 29 crianças e seus quatro professores um
para português e estudos sociais, um para ciências e
matemática, um para artes e outro para música
têm formação universitária. Durante as
aulas de informática, dadas uma vez por semana, pode fazer
pesquisas pela internet. É aficionada de leitura. Na semana
passada, terminou Guerra na Casa do João, de Toni
Brandão, que no início do ano visitou sua escola e
participou de um bate-papo com os alunos. A sala de Diego tem mais
alunos, quarenta. Sua professora não possui formação
universitária, e, embora conte com vinte computadores para
as aulas de informática, ele não pode acessar a internet.
Apesar
de tamanha diferença na qualidade do ensino de cada uma,
as duas crianças pertencem à mesma classe social.
O pai de Maria Bethânia é segurança e sua mãe,
dona-de-casa. A mãe de Diego trabalha como faxineira em uma
loja de carpetes. Seu pai é pedreiro. Diego freqüenta
uma escola estadual na Favela de Paraisópolis. Maria Bethânia
é uma das 720 bolsistas da Escola da Comunidade do Colégio
Visconde de Porto Seguro, considerado o melhor da cidade em ranking
publicado por Veja São Paulo em 2001. É uma
diferença capaz de definir não só o rendimento
atual dos estudantes, mas também seu futuro profissional.
"Temos casos de bolsistas que se formaram e hoje colocam os filhos
aqui, mas na escola paga", conta a diretora Mariana Battaglia, do
Porto Seguro.
O
atual desafio da escola pública é diminuir o abismo
entre esses dois mundos. Não é uma tarefa fácil.
O ensino municipal e estadual em São Paulo sofre com quatro
graves problemas:
escolas em péssimo estado de conservação;
falta de material escolar adequado;
professores desqualificados e desinteressados;
matérias desatualizadas e pouco atrativas aos alunos, o que
os especialistas chamam de "currículo enciclopédico".
Milhares
de estudantes da pré-escola ao ensino fundamental ainda freqüentam
as escolas de lata, tanto da prefeitura quanto do governo estadual.
São salas construídas com material pré-moldado
e cobertas com telhas metálicas que surgiram cinco anos atrás
como uma solução provisória para a falta de
vagas e nunca foram abandonadas. No verão, viram saunas.
No inverno, geladeiras. Quando chove, não há quem
escute as explicações dos professores. Mesmo nos prédios
convencionais, a situação é dramática.
Salas superlotadas, vidros quebrados e paredes pichadas são
comuns. Segundo uma pesquisa da Unesco divulgada no fim de abril,
67% dos alunos do ensino médio não usam computador
na escola. Mesmo alguns estabelecimentos que se orgulham de possuir
o equipamento o deixam subutilizado, pois não têm acesso
à internet. É o que acontece na escola de Diego. "Nossa
sala está preparada para isso, mas a conexão não
pôde chegar até a favela", afirma a vice-diretora,
Lair Dal Ri. Graças a uma parceria com uma ONG local, ela
conta com monitores para ensinar às crianças o bê-á-bá
da informática.
A
parceria com ONGs e empresas é uma saída cada vez
mais utilizada pelas escolas para suprir as deficiências do
Estado. E tem rendido bons resultados. A Escola Estadual Professor
Emygdio de Barros, no Butantã, conseguiu reduzir os índices
de evasão em até 85% depois de contatar líderes
comunitários e revitalizar uma parceria com uma empresa de
informações financeiras. "Fizemos com que as crianças
e os pais se sentissem donos da escola", conta a diretora, Isabel
Cristina Silva. As invasões, os arrombamentos e as pichações,
que ocorriam com freqüência três anos atrás,
também diminuíram. "Só muros e grades não
são suficientes para preservar quem está dentro da
escola", diz Arlete Scotto, coordenadora de ensino da Secretaria
da Educação do Estado de São Paulo. "Apostamos
nessa articulação com a comunidade."
Para
a prefeitura, a principal solução ante os problemas
de infra-estrutura está na construção dos Centros
Educacionais Unificados (CEUs), unidades que reunirão creche,
escolas de educação infantil e ensino fundamental,
além de quadras poliesportivas, piscinas, biblioteca, centro
comunitário e espaço com acesso gratuito à
internet. "Serão pólos de desenvolvimento regional
e poderão interagir com as escolas de seu entorno", acredita
Maria Aparecida Perez, secretária municipal de Educação.
A previsão é que sejam entregues vinte CEUs até
o fim deste ano os primeiros estavam prometidos para o fim
de 2001.
A
questão da qualificação dos professores é
ainda mais complexa. De acordo com a pesquisa da Unesco, transformada
no livro Ensino Médio: Múltiplas Vozes, 88,9%
dos professores do ensino médio público estão
insatisfeitos com o salário (desses, 21,6% se dizem revoltados
com a renda). Na rede privada, esse número cai para 47,6%.
É preciso melhorar os salários e investir pesado na
formação profissional. Hoje, um professor da rede
estadual que entra no magistério para ensinar alunos da 1ª
à 4ª série ganha 800,50 reais para uma jornada
de trinta horas semanais. Na rede municipal, o salário inicial
é de 570 reais para uma jornada de vinte horas semanais.
"O governo precisa pagar melhor para exigir mais produtividade",
diz Guiomar Namo de Mello, ex-secretária municipal da Educação
e diretora executiva da Fundação Victor Civita, entidade
ligada ao Grupo Abril, responsável pela publicação
da revista Nova Escola. "É importante encontrar maneiras
de subsidiar a formação do profissional."
Mas
a discussão mais acalorada ocorre em torno do que é
ensinado em sala. Educadores são unânimes em admitir
que o currículo escolar não desperta interesse por
não ter nada a ver com o que o aluno está acostumado
a ver nas ruas. "A qualidade escolar não pode ser medida
apenas pela quantidade de informação que é
passada", afirma Julio Groppa Aquino, professor da Faculdade de
Educação da Universidade de São Paulo. É
importante fazer com que, neste mundo cada vez mais repleto de informações,
o que é passado na escola tenha alguma importância
prática. Nos últimos anos, os governos conseguiram
a proeza de aumentar o número de crianças nas salas
de aula. Hoje, apesar de haver um déficit de 200.000
vagas em creches e nas Escolas Municipais de Educação
Infantil (Emeis), que atendem crianças de zero a 6 anos,
já não há falta de vagas para os alunos do
ensino fundamental e do ensino médio em São Paulo.
A crise, portanto, não é de falta de espaço,
e sim de qualidade.
O
Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial convidou Jane Wreford,
da Comissão de Acompanhamento e Avaliação do
Governo Britânico, para passar um mês visitando escolas
públicas na Grande São Paulo em 2002. Jane observou
professores despreparados, materiais didáticos ultrapassados
e escolas abandonadas. "Os estudantes aprendem a memorizar, mas
não a pensar nem a avaliar idéias por si próprios",
escreveu ela. Só com o radical aumento na qualidade do ensino
público, crianças como Maria Bethânia e Diego
podem ter as mesmas oportunidades, independentemente do endereço
onde estudam.
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