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21 de maio de 2003
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Alessandro Duarte


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Maria Bethânia Conceição Ferreira, 10 anos, e Diego Lavrador Campos, 11, estudam no mesmo bairro, a apenas 1.000 metros um do outro. Vivem, no entanto, realidades completamente diferentes na sala de aula. Maria Bethânia divide a classe com outras 29 crianças e seus quatro professores – um para português e estudos sociais, um para ciências e matemática, um para artes e outro para música – têm formação universitária. Durante as aulas de informática, dadas uma vez por semana, pode fazer pesquisas pela internet. É aficionada de leitura. Na semana passada, terminou Guerra na Casa do João, de Toni Brandão, que no início do ano visitou sua escola e participou de um bate-papo com os alunos. A sala de Diego tem mais alunos, quarenta. Sua professora não possui formação universitária, e, embora conte com vinte computadores para as aulas de informática, ele não pode acessar a internet.

Apesar de tamanha diferença na qualidade do ensino de cada uma, as duas crianças pertencem à mesma classe social. O pai de Maria Bethânia é segurança e sua mãe, dona-de-casa. A mãe de Diego trabalha como faxineira em uma loja de carpetes. Seu pai é pedreiro. Diego freqüenta uma escola estadual na Favela de Paraisópolis. Maria Bethânia é uma das 720 bolsistas da Escola da Comunidade do Colégio Visconde de Porto Seguro, considerado o melhor da cidade em ranking publicado por Veja São Paulo em 2001. É uma diferença capaz de definir não só o rendimento atual dos estudantes, mas também seu futuro profissional. "Temos casos de bolsistas que se formaram e hoje colocam os filhos aqui, mas na escola paga", conta a diretora Mariana Battaglia, do Porto Seguro.

O atual desafio da escola pública é diminuir o abismo entre esses dois mundos. Não é uma tarefa fácil. O ensino municipal e estadual em São Paulo sofre com quatro graves problemas:

• escolas em péssimo estado de conservação;

• falta de material escolar adequado;

• professores desqualificados e desinteressados;

• matérias desatualizadas e pouco atrativas aos alunos, o que os especialistas chamam de "currículo enciclopédico".

Milhares de estudantes da pré-escola ao ensino fundamental ainda freqüentam as escolas de lata, tanto da prefeitura quanto do governo estadual. São salas construídas com material pré-moldado e cobertas com telhas metálicas que surgiram cinco anos atrás como uma solução provisória para a falta de vagas e nunca foram abandonadas. No verão, viram saunas. No inverno, geladeiras. Quando chove, não há quem escute as explicações dos professores. Mesmo nos prédios convencionais, a situação é dramática. Salas superlotadas, vidros quebrados e paredes pichadas são comuns. Segundo uma pesquisa da Unesco divulgada no fim de abril, 67% dos alunos do ensino médio não usam computador na escola. Mesmo alguns estabelecimentos que se orgulham de possuir o equipamento o deixam subutilizado, pois não têm acesso à internet. É o que acontece na escola de Diego. "Nossa sala está preparada para isso, mas a conexão não pôde chegar até a favela", afirma a vice-diretora, Lair Dal Ri. Graças a uma parceria com uma ONG local, ela conta com monitores para ensinar às crianças o bê-á-bá da informática.

A parceria com ONGs e empresas é uma saída cada vez mais utilizada pelas escolas para suprir as deficiências do Estado. E tem rendido bons resultados. A Escola Estadual Professor Emygdio de Barros, no Butantã, conseguiu reduzir os índices de evasão em até 85% depois de contatar líderes comunitários e revitalizar uma parceria com uma empresa de informações financeiras. "Fizemos com que as crianças e os pais se sentissem donos da escola", conta a diretora, Isabel Cristina Silva. As invasões, os arrombamentos e as pichações, que ocorriam com freqüência três anos atrás, também diminuíram. "Só muros e grades não são suficientes para preservar quem está dentro da escola", diz Arlete Scotto, coordenadora de ensino da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. "Apostamos nessa articulação com a comunidade."

Para a prefeitura, a principal solução ante os problemas de infra-estrutura está na construção dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), unidades que reunirão creche, escolas de educação infantil e ensino fundamental, além de quadras poliesportivas, piscinas, biblioteca, centro comunitário e espaço com acesso gratuito à internet. "Serão pólos de desenvolvimento regional e poderão interagir com as escolas de seu entorno", acredita Maria Aparecida Perez, secretária municipal de Educação. A previsão é que sejam entregues vinte CEUs até o fim deste ano – os primeiros estavam prometidos para o fim de 2001.

A questão da qualificação dos professores é ainda mais complexa. De acordo com a pesquisa da Unesco, transformada no livro Ensino Médio: Múltiplas Vozes, 88,9% dos professores do ensino médio público estão insatisfeitos com o salário (desses, 21,6% se dizem revoltados com a renda). Na rede privada, esse número cai para 47,6%. É preciso melhorar os salários e investir pesado na formação profissional. Hoje, um professor da rede estadual que entra no magistério para ensinar alunos da 1ª à 4ª série ganha 800,50 reais para uma jornada de trinta horas semanais. Na rede municipal, o salário inicial é de 570 reais para uma jornada de vinte horas semanais. "O governo precisa pagar melhor para exigir mais produtividade", diz Guiomar Namo de Mello, ex-secretária municipal da Educação e diretora executiva da Fundação Victor Civita, entidade ligada ao Grupo Abril, responsável pela publicação da revista Nova Escola. "É importante encontrar maneiras de subsidiar a formação do profissional."

Mas a discussão mais acalorada ocorre em torno do que é ensinado em sala. Educadores são unânimes em admitir que o currículo escolar não desperta interesse por não ter nada a ver com o que o aluno está acostumado a ver nas ruas. "A qualidade escolar não pode ser medida apenas pela quantidade de informação que é passada", afirma Julio Groppa Aquino, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. É importante fazer com que, neste mundo cada vez mais repleto de informações, o que é passado na escola tenha alguma importância prática. Nos últimos anos, os governos conseguiram a proeza de aumentar o número de crianças nas salas de aula. Hoje, apesar de haver um déficit de 200.000 vagas em creches e nas Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis), que atendem crianças de zero a 6 anos, já não há falta de vagas para os alunos do ensino fundamental e do ensino médio em São Paulo. A crise, portanto, não é de falta de espaço, e sim de qualidade.

O Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial convidou Jane Wreford, da Comissão de Acompanhamento e Avaliação do Governo Britânico, para passar um mês visitando escolas públicas na Grande São Paulo em 2002. Jane observou professores despreparados, materiais didáticos ultrapassados e escolas abandonadas. "Os estudantes aprendem a memorizar, mas não a pensar nem a avaliar idéias por si próprios", escreveu ela. Só com o radical aumento na qualidade do ensino público, crianças como Maria Bethânia e Diego podem ter as mesmas oportunidades, independentemente do endereço onde estudam.

         
     
 
 
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